
Stress Pós Traumático
Nunca fui muito de mascar chiclete, mas cá estou eu no fim do quarto pacotinho de Trident do mês. Talvez seja parte de quem sou agora. Mastigo a goma com gosto artificial de melancia e ela me distrai do movimento da rua, aplaca minha ansiedade, me coloca no controle sobre alguma coisa. O ônibus atravessa o Viaduto Santa Tereza, que tanto amei e agora temo.
Desde o assalto, vejo o brilho de facas nas mãos das pessoas que andam na rua em minha direção. O celular de alguém é uma faca, um caderninho que uma pessoa carrega nas mãos tem a forma de uma faca, o brilho da lâmpada branca do metrô nas unhas do senhor que vem vindo parece com o de uma faca.
Uma faca velha, enferrujada, dessas de cozinha que sua mãe já devia ter se livrado há anos. Alguém se livrou de uma e outro alguém a encontrou e usou para ameaçar pessoas no centro da cidade. Me ameaçou, levou minha carteira, um pouco de dinheiro, cartão de crédito, nada insubstituível, mas levou também a minha paz de espírito. Tenho medo. Um medo que nunca senti antes. Estou acuada nas veias abertas da cidade.
O agressor tem olhos grandes, arregalados, que revelam mais medo do que agressividade. Medo de mim? Medo de aparecer alguém que vá repreendê-lo? Prendê-lo? Medo da situação toda. Medo dos próprios fantasmas. Medo que passou pra mim e se transformou em medo dele. Tenho medo da sombra dele. Medo do lugar onde ele me mostrou a faca e levou minha carteira.
Cruzamos o viaduto e entramos na Rua Sapucaí, me encolho no banco do ônibus. Vamos passar em frente à escada onde aquela sombra do medo me encontrou, com a alma desesperada e de poucas alternativas que me tirou bem mais que meus pertences materiais.
Masco mais o chiclete, o gosto está indo embora, mas é da borracha elástica que eu preciso, do gesto de subir e descer do maxilar, do relaxamento dos músculos da face. Não quero aparentar meu medo, casualmente masco meu chiclete enquanto desvio o olhar da escada e da bela vista pro centro da cidade e inspeciono o outro lado da rua. Respiro fundo, “relaxe”, já passou. Vai passar. Dou tempo ao tempo. Me consolo acreditando que um dia não terei mais medo. Tento me distrair com o movimento da cidade, o trajeto familiar do busão, o céu azul desse agosto desgosto. Desço no meu ponto. Compro mais um pacotinho de Trident na padaria antes de me trancar em casa.