Lula (provavelmente) livre. Podemos mudar de assunto?

Fael Duarte
Nov 8 · 3 min read
(Que bela peça de design é o logo do Lula de 1989)

A decisão do STF era uma bola cantada há um ano, desde a súbita reviravolta de Gilmar Mendes, talvez o personagem mais intrigante deste grande romance épico que é o Brasil desde 2013. A execução da pena só começará após esgotados todos os recursos, essa é, inclusive, a leitura mais literal do texto constitucional, mesmo que eu discorde do texto em primeiro lugar, mas isso não vem ao caso.

Seria uma decisão importante em qualquer circunstância, mas devido a prisão do ex-presidente Lula, executando sua pena determinada em segunda instância, o caso tomou proporções estapafúrdias. Porque com Lula tudo toma proporções estapafúrdias, dada a igual grandeza da idolatria e do ódio que ele desperta. O STF julgou ontem apenas quando uma pena começa a ser executada, não deveria ser um referendo sobre a liberdade do ex-presidente, o único a mudar de opinião foi Gilmar Mendes, todos os outros mantiveram seus entendimentos desde 2016.

O movimento #LulaLivre sempre me incomodou, de todos os presos do Brasil, Lula estava numa elite, cumpria pena em uma cela privativa e confortável após ter sido julgado em duas instâncias tendo diversos recursos seus avaliados até mesmo no próprio STF. Enquanto isso a maior parte do contingente de presos do Brasil ainda aguarda o seu primeiro julgamento, muitas vezes em presídios em condições precárias e superlotados dominados por facções criminosas.

Lula é inocente? Provavelmente não. O julgamento de Lula foi viciado? Provavelmente sim. Mas quantos não são? Quantos jovens pobres, geralmente negros, não são presos de forma preventiva, antes mesmo de serem julgados, baseados em provas muito mais frágeis? Rafael Braga talvez seja o maior exemplo disso. É inegável que a justiça com Lula foi muito mais operante do que com a grande maioria dos réus do país, rápida para condenar e, após o grande circo montado no STF, garantista para soltá-lo. Quem dera a justiça do país funcionasse como funcionou para Lula.

Por dois anos a esquerda petista (incluindo aí PT e seus satélites como PCdoB, CUT e outros) abdicou de falar do país para defender a liberdade de Lula. Construiu uma campanha eleitoral em torno disso. Apesar do julgamento suspeito de Moro, Lula é um homem rico, provavelmente culpado por crimes de corrupção e com os melhores advogados a sua disposição. Será que deveríamos estar lutando pela liberdade de Lula ou pela liberdade dos milhares de Rafaéis Bragas do país?

Enquanto isso, em Brasília, Bolsonaro foi sua maior oposição no primeiro ano de mandato, a imprensa liberal, em especial Globo e Folha de S. Paulo, tem sido mais vigilante do que a própria esquerda petista. Os poucos momentos de destaque da oposição se deram por integrantes da centro-esquerda, que mesmo em partidos menores lideram a minoria na câmara e no senado com Alessandro Molon (PSB) e Randolfe Rodrigues (REDE). Até mesmo nomes mais liberais como Tábata Amaral, (em crise com seu PDT) brilharam diante da apagada atuação petista em Brasília no ano. O PT, com excessão a reforma da previdência, se ausentou de todos os grandes debates do ano.

A liberdade de Lula move um cenário político que, apesar das constantes crises, havia se acomodado durante o ano com um presidente fraco verborrágico e uma centro-direita tomando as rédeas da agenda no parlamento. O PT, agora, pode voltar para o jogo, o que promete polarizar ainda mais o cenário nacional. Em 2020 acredito que veremos uma oposição mais contundente, agora que o maior partido de esquerda pode mudar de assunto e participar do debate, mas a extrema-direita também vai se aproveitar de Lula e fazê-lo de escada para ameaçar as instituições do país, como um deputado do PSL já fez ontem se oferecendo para ser "o cabo" a invadir o STF em referência a declaração de Eduardo Bolsonaro no ano passado.

O PT fez parecer que o futuro do país dependia da liberdade de Lula, mas no fim este pode ter sido apenas um golpe na cabeça da hidra e, a partir deste episódio, a extrema-direita pode dobrar a aposta no radicalismo, fazendo o monstro aumentar cada vez mais até engolir a própria democracia brasileira. Perdoem meu fatalismo, mas o Brasil é o país que mais mata otimistas no mundo.

Aqui eu faço textão quando dá vontade.

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