
Despedida
Uma faca na garganta da noite oprime a escuridão.
Quando caem as estrelas e a luz se despede do céu com um aceno lilás, do nosso banco em frente a rua da costa, escrevo no ar com a tinta da falta. O nó da distância me amarrou nesse canto, a corda permite certas liberdades, tenho espaço e respiro, mas prefiro evitar tanta folga. Prefiro pendurar-me na última coisa que nos une, cordão umbilical, lembrança de laço, lastro, saliva e desejo. O sumo escorre na boca, a manhã veste a tua nudez e a minha memória pendurada pelo pescoço, aquece e aos poucos esquece. Nossas espaldas unidas num apoio lento, no calor de um carinho que não se enxerga, a brisa do tempo comendo as horas e a amplidão daquela paisagem comendo meu ventre, mastigando felicidade e vísceras. Éramos tão felizes que tua exaltação não entendia minha angústia, calava a nostalgia e via na neblina que cercava a casa uma beleza transcendental, enquanto eu me preocupava com o sereno e varria os cupins da sala. Acho que por isso me apaixonei. Por não controlar teu ego, por não entender teu sorriso e por esses olhos pretos que me prendiam como a noite prende os vagalumes e segura estrelas. Eu também sou noite. Madrugo nesse banco com os vagalumes e entendo a solidão aos poucos. Enquanto o tempo mastiga o fim da escuridão, teu corpo gelado pesa em minhas costas. Moscas nos cercam. Dois olhos pretos contemplam o início de um dia nublado, vidrados, cheios de horror e vazio. Caminho pra casa sozinha. Faz frio.
