maré alta

noite virada em aço, álcool e uns goles de água porquê a boca andava seca.

manhã é furto do sono e o horizonte denunciou a chegada do dia num laranja forte, os olhos arderam, mão na testa e o fogo da luz se fez presente enquanto os manteve fechados até acostumar com o novo mundo.

aos poucos o corpo tenso foi destravando, o pé fincado na areia, a mente noutro lugar mas já voltando, encheu de água a cabeça e começou a vazar. pranto lento e necessário.

é bom chorar.

criou pegadas em direção ao mar e nesse ponto já soluçava sem conter o que até agora ainda era raiva.

é bom chorar.

mergulhou na água fria e agradeceu sua insignificância. o mundo é grande e o mar é quase metade dele. o mundo é grande e não tem dono, todo mundo cuida. ou deveria.

deixou uma onda derrubar o corpo e fechou os olhos até sentir a areia na cabeça. tentou sorrir, mas ainda seria preciso um bom tempo pra isso acontecer.

silêncio dentro, o oceano fazendo barulho e o sono chegou. embalado pela gravidade que derruba as ondas, dormiu.

o mundo é grande e não tem dono, todo mundo cuida. ou deveria.