sobre aquilo que me acerta
para Caio Fernando Abreu
ouça antes da leitura: https://youtu.be/vTCiwDfMS88
o que diria o Caio desses dias? das imagens projetadas nas retinas cansadas, dos teus olhos que eu tento escapar e encontro no círculo colorido ao redor de uma foto linda. clico e vejo, teu recorte de ideia, tua carinha de sono. meu estômago no lixo. que vergonha essa fraqueza minha. desisti de entender e também já te cansei tanto dividindo a angústia, né? escrevo a essa hora da madrugada pra nunca te mandar, estou certo disso, até que eu me perca no ego ou na cachaça estou certo disso.
uma hora eu cresço.
eu conheci melhor o Caio ontem, já o conhecia, dos recortes em posts compartilhados, já havia visto seu rosto, seu corpo esguio vestindo calma e segurando os óculos num olhar sereno e triste, mas ficamos amigos ontem, compulsivamente mastiguei seus contos. tanta palavra certeira, nos domínios da escrita dele é gostoso se perder. tô lendo o livro sobre o mofo e me indentifico. mas o que será que ele diria dessas saudades fabricadas? do desespero não planejado que a madrugada permite, dos meninos e meninas esperando a sexta feira pra ir na porta do inferninho, das duas horas de fila pra entrar e viver intensamente a noite de frio, drogas, amor por si e só. que amar é muito foda e ser livre é quase apocalíptico. as rondas pelas festinhas que eu fiz achando que ia te ver, as cervejas que comprei a 3 por 10 num bar de rock na madrugada mais fria, sabendo que não ia te ver, mas era lá, onde te encontrei pela última vez. ainda lembro. a conversa que tu quis adiar mas que preferiu ter, aquelas palavras no teu carro, fim da carona, tu me disse tudo da forma mais sincera possível. deu a letra na lata e me beijou. derrubou minhas barreiras erguendo as tuas. eu te via, te ouvia e no meu silêncio admirei a mulher que encontrei ali. quanta certeza ai dentro, daquelas que eu nunca tive. uma dor grande também, eu vi, mas tu sabia o que queria e pronto! daquele beijo eu quase não lembro, ficaram fortes as palavras, ficou forte a tua presença. a tua presença…
…entra pelos sete buracos da minha cabeça…
…desintegra e atualiza a minha presença…
o que diria Caio de mim, ao falar dessa história toda? uma bobagem, uma brincadeira, meu utópico desejo acostumado a se alimentar de migalhas. será que ele me ouviria? falaria dos signos, dos seus amores? de uma canção do caetano com revelações importantes sobre essa besteira que me tira o sono? dividiriamos um cigarro? não sei. abraço a página aberta do livro dele sobre frutas que apodrecem, entregue em mãos por uma amiga que eu estimo tanto, fecho mais um palheiro resmungando pigarros e penso na voz do escritor dizendo frases bonitas e fazendo um brinde aos buracos que abrimos na alma. tropeçados cruzariamos o bairro pra buscar mais bebida, comprar seda e cigarro. eu em silêncio e ele me falando palavras bonitas, sobre a importância da solidão. a gente tomaria um porre na praça e pela manhã no muro do vizinho o dia acordaria com teu nome pixado em letras grandes. embaixo uma dedicatória dele para minhas dores tão bestas e tão reais.
Para Vinícius que ainda não aprendeu nada. Ainda bem!
Um beijo, Caio.
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