Entrevista — #meuamigosecreto diante da psicologia

Uma onda de indiretas tomou o facebook na última semana de novembro.

Uma paródia da brincadeira comum de fim de ano, o amigo secreto, permitiu que mulheres denunciassem diversos atos machistas de seus conhecidos, companheiros e parentes.

As reações foram bem divididas, entre a crítica e o encorajamento. Para compreender o fenômeno, foi procurada a opinião da Psicóloga especializada em Violência de Gênero, Luisa Lerroy — IESB, DF.

Luisa Lerroy especializou-se em Violência de Gênero ao administrar grupos de terapia coletiva para homens indiciados dentro da Lei Maria da Penha, em uma iniciativa do governo do Distrito Federal.

P. A chamada de 2a onda do Feminismo parece ter encontrado seu motor propulsor na Internet. Nunca houveram tantos manisfestos, blogs sobre feminismo e principalmente, ações coletivas digitais. A mais recente foi a criação da hashtag #meuamigosecreto, que permite mulheres apontarem comportamentos machistas de seus conhecidos, sem realmente dizer nomes. Por que a necessidade da indireta?

Luisa Lerroy: A necessidade da indireta é a de denunciar o machismo presente no cotidiano das mulheres e empoderar outras a também dividir suas vivências. Enquanto grupo oprimido pela cultura vigente, as mulheres sentem a necessidade de dividir as experiências de abusos e repressão que passam cotidianamente. É uma forma de desabafo, e é com essa expressão dolorida que há a fermentação de reflexão à cerca do tema de igualdade de gênero: outras mulheres podem vir a se identificar com as “falas” colocadas por suas amigas e conhecidas de suas redes sociais e os homens podem, à partir do uso da empatia, reconhecer seus comportamentos e papéis dentro da cultura machista e, quem sabe, evitar reproduzi-los novamente. Como a estratégia utilizada é a de fazer uso da internet em detrimento ao confronto pessoal e de não citar os nomes daqueles que as oprimem/oprimiram diminui-se a possibilidade de que represálias e violências ocorram por parte dos homens.

P. A reação masculina não tem sido positiva, criticando principalmente o método da indireta, sem citar nomes. Do ponto de vista psicológico, qual a razão dessa reação?

Luisa Lerroy: Muitos homens que não reconhecem seu lugar de privilégio dentro da sociedade não conseguem — ou não desejam — exercer sua empatia em relação às experiências das mulheres. Como não são mulheres e não passaram pela construção social de submissão pela qual a maioria das mulheres passa, não entendem as dificuldades enraizadas em sua forma de se colocar no mundo e nem os riscos físicos e psicológicos de se confrontar, de forma direta, àqueles que cometeram o abuso contra estas.

Tal reação é, também, uma forma de minimizar e silenciar as mulheres para que seu comportamento abusivo possa prosseguir sem consequências sociais negativas para os mesmos. Há a compreensão, mesmo que inconsciente, de que velhos costumes e seu próprio papel enquanto homem na sociedade está sendo abalado, questionado. E então o que seria deles? Qual seria seu lugar neste momento em que o silêncio feminino começa a ser quebrado? Infelizmente ao invés de refletir sobre seus privilégios e como TODOS poderiam conviver de forma mais igualitária, tais pessoas utilizam-se de estratégias para desmoralizar o discurso das mulheres. Dizem que é frescura, que é covardia não citar os nomes e etc.

P. A violência doméstica velada aparece em diversos tweets. A compreensão de violência doméstica parece ser uma barreira para o lado masculino. O que é violência para um grupo, parece completamente aceitável para outros. Diante da sua experiência com terapia coletiva para homens que foram indiciados por esse crime, porque essa incompreensão?

Como dito anteriormente, em nossa sociedade as mulheres são socialmente construídas de uma forma e os homens de outra. Aos dois são ensinados papéis a serem desempenhados de acordo com o sexo que nasceram.

Infelizmente, em nossa e em outras culturas, a noção de que o masculino possui uma relação quase inerente à violência foi historicamente assimilada como verdadeira. Por isso, tanto homens quanto mulheres tenderam a aceitar e reproduzir tal concepção sem muita reflexão. A mesma naturalização ocorreu com diversas percepções à cerca dos papéis e de relações de gênero, por exemplo: “a mulher deve se submeter ao homem pois ele é o chefe da família”, “o homem é o provedor e a mulher a cuidadora”, “a boa mulher é recatada, o homem é livre e aventureiro” e etc.

Com os avanços sociais nacionais e internacionais e a mudança cultural por meio de ativismo, políticas públicas e avanços científicos, a mulher tem ganhado cada vez mais espaço e liberdades. Aos poucos os paradigmas culturais de gênero estão sendo revistos, problematizados.

Mesmo assim o patriarcalismo ainda persiste de forma muito forte, portanto há aqueles que continuam compreendendo e atuando no mundo da forma que lhes foi ensinada. Daí a aceitação de alguns e a reluta de outros em perceber a violência doméstica como algo natural.