Sem sentido

A noite estava boa, mas precisava acabar ali. Eu já tinha perdido as contas dos litros de cerveja que bebi, do dinheiro passado de mão em mão, dos nossos desencontros na vida. Comi onde eu costumava te encontrar, logo ali na esquina entre a rua cheia de pessoas felizes e a outra, onde os carros passam com a velocidade reduzida só para os motoristas observarem quem tá por ali enchendo a cara. A pessoa que cozinhou certamente estava apaixonada, percebi isso pela quantidade errada de sal. Abri uma cerveja consciente de que seria a última. Não era tarde, não tinha você, não dava mais.

Cheguei em casa e soltei aquele boa noite cansado pro porteiro. Já do primeiro andar eu senti o cheiro que vinha do 302. Pela quantidade de carros na garagem a casa estava cheia. O cachorro ter latido menos que nas outras noites só me confirmou o que eu já sentia. O cheiro de quem tinha o coração partido saia de cada quarto e misturava com o meu. O da direita era mais forte, mas também era o que tinha mais gente, chutaria uns três ou quatro corações partidos, talvez algum remendado. Mantive a distância pra não acordar ninguém já que o desgraçado do meu coração gritava desesperado.

No quarto do lado alguém estava acordado. Ali eu ganhava fácil. Ela, que pediu pra eu parar de chegar em casa com tantos dramas, escutou mais um. Escutou e balançou a cabeça em negação só confirmando o quão bosta a minha vida amorosa podia ser.

Borrei a maquiagem com água e sabão. Me olhei no espelho e não vi ninguém. Eles insistem que meus olhos são pretos, mas se pudessem chegar perto como você saberiam que tem um pouco de castanho ali quando a bate a luz. Voltei pro meu quarto e deitei. Borrei você da minha cabeça e dormi.

A chuva forte começou bem depois, eu já devia ter sonhado com você mil vezes. O cheiro de terra molhada subiu trazendo um pouco de esperança para os machucados do terceiro andar. Abri o olho tentando enxergar a hora no relógio branco, mas continuava tudo borrado. Respirei fundo e virei para a parede. Ainda devia ser tarde, ainda não tinha você.

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