Embebedada.

Eu vi você me olhando quando puxei a cadeira e cruzei as pernas, cansada, calada, indecisa se aceitava uma dose de cachaça ou de água. Eu vi você nervoso escolhendo uma música pra agradar todo mundo, mas ninguém nem tava escutando, sabia? Se serve de consolo, eu cantarolei sua playlist baixinho. Você ainda me olhou outras três vezes e eu podia jurar ter retribuído outras três vezes antes de ir dormir, mas vai ver eu não sei bem esse lance de usar os olhos.

No segundo dia você me deu uma cantada barata (que me recuso a comentar) só pra dizer como me achava “gatinha”. Te ofereci um abraço, você respondeu todo nervoso, sem jeito, que queria vários. Eu posso ter bebido muita cachaça, mas eu me lembro. Lembro que no meio daquele monte de gente você só olhava pra mim e me enchia de perguntas enquanto a gente tentava achar onde “olha só essa menina que balança e dança, olha só..” ia tocar. Impaciente, você me puxou e eu manchei toda sua boca de batom.

Eu posso ter bebido muita cachaça no terceiro dia, me perdoa por não lembrar.

Mas no quarto dia a gente se desentendeu, e quando passou das 15h eu desapareci. Andei por aí vendo tudo em câmera lenta depois de ter comido 3 brigadeiros de uma moça simpática enquanto você pegava o telefone de outras moças simpáticas.

No quinto dia, apressei o passo fingindo estar com pressa pra qualquer coisa que não envolvesse você. Te encontrei quase 10 horas depois, jogado no cantinho, com febre, sozinho. Você me pediu pra deitar ao seu lado mesmo estando todo limpinho, cê lembra? Eu posso ter bebido muita cachaça, mas eu me lembro.

No sexto dia eu acordei e te olhei no outro canto da sala. A gente se esbarrou no corredor. Eu juntei minhas coisas, você as suas e eu tropecei nos meus próprios pés quando você me deu o último beijo e sussurrou no meu ouvido um “até logo” meio morno. Sem data certa pra te ver de novo eu fiquei sozinha. A cachaça tinha acabado, eu me lembro.