Tigres, flores e abelhas

A semana começou como qualquer uma, a não ser pelo fato que essa seria a minha estréia como jornalista assistente em uma revista de moda, para fazer a cobertura do São Paulo Fashion Week.

Era 23 de outubro e todos já tinham preparados os seus looks a pelo menos um mês atrás, e tudo que eu tinha na minha mala era um monte de roupas básicas e sem estilo nenhum. Sair desesperado, atrás do que vestir, entrando em lojas e mais lojas atrás de algo que fosse BBB, bom, bonito e barato (momentos piada do tio no natal). No canto da loja jogada de modo que ninguém pudesse ver, tinha uma saia, sim uma saia, algo que eu jamais em toda a minha vida iria imaginar que pudesse usar um dia.

Ela era preta, básica e plissada, mil coisas turbilhão na minha cabeça, as pessoas me olhando com cara ruim, minha mãe pedindo para eu tirar essa roupa, porque ela não gosta muito de meninos de saia e o mais importante o meu emprego indo pelo ralo.

Lucas leva ou não leva? Leva, então peguei ela e fui correndo de volta para o meu apartamento, chamei os meninos para me ajudarem, afinal eu tenho o melhor de dois mundo morando junto comigo, um acredita que menos é mais, já o outro defende o mais é mais, o equilíbrio certo que eu estava precisando.

Depois de alguns minutos e algumas roupas jogadas no chão, lá estava eu usando uma sai plissada, uma camisa branca, uma legging preta, um all -star e uma jaqueta jeans com uns patches de tigres, flores e abelhas.

Poucas pessoas sabem mas desastrado é o meu segundo nome com certeza, mas meus pais acham que é Henrique, más tenho certeza que não é.

Nesse instante introduza uma música que ache que combine comigo, seguindo os meus sonhos e conseguindo eles, e ainda mais, com um look fotografado por todos no street style.

Pronto! Agora tira a música, pois eu acabei de ser atropelado por um ciclista a caminho do meu primeiro emprego desde que cheguei na cidade. Lá estava eu jogado no chão com dezenas de pessoas ao meu redor e eu torcendo para ter um teto preto ou abrir um buraco no chão e ser teletransportado para o ventre na minha mãe.

Sabendo que aquele emprego era o que eu tinha de mais precioso, não tive tempo nem de brigar ou ir para algum hospital, peguei as minhas coisas no chão e sai correndo atrás de algum taxi , gastando assim o único dinheiro que eu tinha para comer uma coxinha e um refresco.

Ao chegar no local do evento, uma leve brisa estranha foi sentida na minha bunda e mais algumas vozes ao meu redor. Minha saia fora rasgada de um canto ao outro, a única atitude que poderia tomar naquele momento era sair correndo e achar o banheiro, afinal não poderia ficar com um roupa rasgada no meu primeiro dia como jornalista.

Todo o meus esforços foi parar em um lixo de inox e com um saco vermelho. E lá estava eu no maior evento de moda da América Latina, como uma legging preta, uma camisa branca e um jaqueta jeans com patches de tigres, flores e abelha. Porém a minha vontade era maior de usar a tão aclamada saia, que não tive outra escolha a não ser amarrar a jaqueta na cintura e vira-la de modo que parecesse uma saia.

Ao sair do banheiro fui direto a onde estavam me esperando, minha chefe me olhou de cima para baixo, e esboçou um sorriso no canto da boca, não sei se ela estava rindo porque achou bonito ou se o sorriso era de ironia, o excesso de botox não me permitia ter uma avaliação mais concreta do seu sentimento naquele momento.

Depois de algumas observações, peguei o meu caderno de anotações, uma caneta e um sentimento de felicidade que transbordava a cada minuto. E lá fui eu atrás de estilistas, influênciadores e mais todo os tipos de pessoa.

– Alokaa, aquela não é Costanza Pascolato!

PS: Lembre de chamar um taxi ou Uber na porta da sua casa para a sua estreia como jornalista no SPFW.