Um lugar que não sei o endereço

Ode ao Bandeira

Sucumbiu ao desamparo; pegou o ônibus de itinerário sem fim. Voltas e voltas, idas e vindas cruzando transversalmente a cidade feia.

Perdeu o dia de trabalho.

Perdeu-o dias depois por justa causa; nem se importava. Sua energia era gasta com o porquinho-da-índia que não saía debaixo do fogão. Comprou o bichano depois de ler Bandeira, esquecido por alguém em um banco do metrô.

É uma pessoa gentil. Por muitas e muitas vezes, trapaceou, puxou o tapete, praguejou, furtou cinzeiros em restaurantes e tolhas em hotéis. Já alimentou a inveja, a raiva, o ciúme, o amor, a amizade, o desejo. É um humano qualquer. Não acredita nessas besteiras de rasteira da vida, vingança divina, castigo de Deus, culpa do sedentarismo ou depressão. Prefere a solitude e o desapego.

Acredita em algo parecido com destino.

Hoje o porquinho está mais simpático, aceita o seu carinho e nem passou perto da cozinha. Juntos, bichinho e humano, vão até a cobertura tomar vento na cara. Avistam a cidade feia, comem cenoura, brincam de pega-ladrão! Divertem-se.

Há tempos não movia o corpo para suar.

Entardece. Encosta-se no parapeito, dá um beijo no amigo e o liberta. Em breve, estarão juntos novamente. Algo como destino.

O céu deve ser melhor do que embaixo do fogão.

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por Vanessa Reis
tb na laboramor, led e para uma educação multimídia

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