Isso é teatro né?

O pagador de tarifas, rodoviária 14/08/2017. Foto: Sheylane

O menino já tinha nos visto de longe, mas passara despercebido no meio das pessoas até o momento em que interpelou minha colega agachada filmando a performance no melhor ângulo. Era a intervenção de “O Pagador de Tarifas” na rodoviária, por volta das 19 horas de uma segunda-feira.

A curiosidade do menino logo se transformou em espanto quando as personagens iniciaram suas falas. A peça interpretada era simples, mas forte. Havia um homem maltrapilho carregando uma catraca gigante nas costas enquanto os outros dois personagens o xingavam e o obrigavam a caminhar perante a multidão para servir de exemplo e não reclamar mais do preço da passagem. Essa dupla representava o empresário de ônibus e o capataz/policial que usava um chicote para bater no usuário de transporte coletivo.

Nossa caminhada despertava diversos tipos de reações nas pessoas. Alguns homens lidavam com as questões expostas pela peça procurando se identificar com o opressor e diziam “bate mesmo”, “é isso aí”. Alguns metros a frente percebi que o menino nos seguia e puxava assunto, um pouco ansioso. Acolhi o pequeno para que se tranquilizasse. Informei que aquilo era uma crítica ao preço da passagem. “Ah! É um teatro? É de mentirinha, né?!”.

Após essa confirmação crucial, ele continuou conosco. Agora mais relaxado, me ajudou a entregar panfletos e se animou! Quando ficávamos muito para trás ele me apressava, segurava meu braço, mostrou seu corte de cabelo novo, buscava o contato comigo e com minha amiga querendo desfilar conosco pela rodoviária. Logo chegou seu irmão mais novo e uma colega deles, adolescente, eram como uma turma de amigos que trabalhava ou que passava muito tempo na rodoviária.

Caminhamos mais um tempo e uma senhorinha chegou perto de uma de nós que filmava a performance dizendo “Isso mesmo, filma e mostra para a polícia. Eles não podem fazer isso não”. A senhora também não tinha percebido que era uma dramatização e nos incentivava a denunciar a violência que assistíamos. Ainda no meio da apresentação tivemos a intervenção de um homem com algum tipo de transtorno mental que parecia querer apaziguar a situação de violência que ele presenciava.

No fim da apresentação, o pagador de tarifa largou a catraca e fez uma fala sobre como não devemos aceitar aquela situação, e nós repetimos em jogral. Assim que comecei a repetir as falas, o menino fez de novo uma cara de espanto. Incentivei que ele repetisse junto com a gente. Ele me abraçou buscando proteção e quanto mais alto eu gritava que não aceitávamos mais a exploração de todos os dias, mais forte a gente se apertava.

Terminado o espetáculo, ele e seu irmão queriam saber para onde iam as personagens. “Eles vão pra casa deles”, respondi. “E aquele?” Apontando para o pagador de tarifas. “Ele também. Ele vai para Taguatinga. Nós todos vamos embora”. “Amanhã vocês vão estar aqui?”. “Não, foi só hoje”. “Por que eles estavam fazendo aquilo?”, perguntou dessa vez o menino mais novo, de uns 5 anos. “Era um teatro sobre os ônibus”. “O que é teatro?”. “Teatro é uma brincadeira que a gente faz, era de mentirinha”.

Foram pelo menos quatro pessoas em um curto trajeto, que não perceberam o caráter de dramatização daquele evento. Depois disso fiquei pensando na separação entre realidade e ficção, em como havia uma dramatização óbvia para a maioria das pessoas que estava ali na rodoviária, mas que não era para outras. Para elas, aquele episódio de uma pessoa ser chicoteada e humilhada em um espaço público não era apenas uma representação. Aquilo poderia — não sem algum espanto e indignação — fazer parte da realidade.

Quase impulsivamente eu tenderia a criar uma explicação de que essas pessoas vivem situações tão absurdas e violentas em suas vidas, que não estranhariam se a situação performatizada acontecesse de verdade. Mas me indaguei, procurando lembrar de situações em que nós, jovens ou adultos, de uma classe mais privilegiada, relativamente adaptados e integrados ao mundo, também nos confundimos sobre o que é real e o que não é. Me veio à mente as novas tecnologias, o acesso cada vez maior da realidade virtual, o desenvolvimento das narrativas como forma de controle. Lembrei do tão falado seriado Black Mirror, do conceito de pós-verdade, de tantos teatros que a gente não sabe que é.

Mas talvez, mais importante do que saber diferenciar o real e a representação do real, seja saber identificar a opressão. Trata-se, talvez, de uma pré-verdade o sentimento de injustiça que nos afeta e que, por vezes, nos move a nos manisfestar, como fizeram as personagens da crianças, da idosa e do louco. Uma pré-verdade acessada também pelas pessoas nas filas dos ônibus, mas que conscientes de seus lugares de plateia, tiveram que levar seus sentimentos consigo em uma longa viagem até o dia em que não aceitarão mais viver essa realidade.

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