Conheça “Una” ou Como um coletivo de teatro independente fez 200 pessoas falarem sobre estupro

Eva Pacheco
Nov 6 · 9 min read
Cena da peça. Usando vestidos vermelhos, um grupo de sete meninas se posiciona de pé, no palco do Teatro Municipal.
Cena da peça. Usando vestidos vermelhos, um grupo de sete meninas se posiciona de pé, no palco do Teatro Municipal.
Cena do espetáculo Una — Dedicado a todas as outras / Foto: Eva Pacheco

Rio Grande da Serra, 24 de Outubro de 2019.

Por volta das 19h30, uma fila se formava em frente ao Teatro Municipal Primeira-Dama Zulmira Jardim Teixeira, localizado no centro do município de 48 mil habitantes, na região do ABC Paulista. Às 20h, teria início a peça Una — Dedicado a todas as outras.

Nas coxias, um grupo de jovens se preparava para entrar em cena; aquecimentos vocais ecoando junto a votos de boa sorte. Em alguns minutos, um elenco de garotas e rapazes se apresentaria diante da autora cuja obra vinham estudando há dois anos. Uma baita responsabilidade, inclusive, para aqueles que alegavam não estar nervosos.

Um sinal fez com que a plateia se acomodasse. O grosso pano escarlate se descortinou e, ao som de ruidosos cliques de câmeras, revelaram-se meninas em vestidos vermelhos. Reloj de campana, tócame las horas. Para que despierten las mujeres todas [Relógio de sino, diga-me as horas. Para que se levantem as mulheres todas], elas cantarolavam, estáticas, antes de desfilarem graciosos movimentos pelo palco.

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Retrato em preto e branco de Una, em que ela sorri, fitando a câmera por debaixo dos óculos.
Retrato em preto e branco de Una, em que ela sorri, fitando a câmera por debaixo dos óculos.
Una, momentos antes de se juntar a plateia / Foto: Eva Pacheco

“Una”, como ficou conhecida, é uma quadrinista britânica. Durante sete anos, trabalhou em um projeto que viria a culminar na publicação de Desconstruindo Una, sua primeira graphic novel, em 2016. Nela, a autora explora as dimensões político culturais da misoginia, além de narrar passagens de sua infância e adolescência, período em que fora, repetidas vezes, abusada sexualmente.

Em entrevista, Una confessa que ainda se sente “como uma iniciante”. A autora começou a ler HQs durante seu intervalo de almoço, enquanto trabalhava em uma escola de artes plásticas na Inglaterra. “Apesar de gostar do meu trabalho, eu sentia que as ‘belas artes’ contemporâneas não eram o lugar para a minha narrativa; sentia que estava sempre falando a um pequeno grupo de pessoas”, relembra.

À época, Una estudava para o mestrado, na Universidade de Leeds, onde nasceu. Lá, era ouvinte em uma disciplina sobre feminismo e representação pós traumática. “Eu estava interessada em descrever o trauma. Não só o meu, mas o que divido com outras mulheres. E as coisas que eu tinha para dizer não eram ‘engraçadas’. Na verdade, elas eram bem sérias”.

Foi quando sua professora, percebendo o interesse de Una em desenhos e storytelling, sugeriu a leitura do clássico Maus, graphic novel de Art Spiegelman (talvez, a mais importante do ocidente). “Foi aí que percebi que era possível contar grandes histórias usando quadrinhos. Se você pode escrever um livro sobre o holocausto, pode escrever um sobre estupro e assassinato”, afirma.

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Em Desconstruindo Una, o fio condutor da história são os “crimes de West Yorkshire”, ocorridos entre 1975 e 1980, no condado de mesmo nome. Sob o pretexto de “imoralidade” alheia, um tipo do sexo masculino estuprou e matou treze “prostitutas”, como as concebia.

Mesmo após inúmeros depoimentos de mulheres que haviam conseguido escapar de seus assaltos, a polícia inglesa não foi capaz de localizar o sujeito (apesar de tê-lo interrogado nove vezes). Peter Sutcliffe seria preso em 1981, quando os retratos falados das sobreviventes foram finalmente colocados lado a lado e o criminoso, “magicamente”, apareceu.

Cena da peça. Uma figura masculina, vestida de preto, segura um retrato falado de Sutcliffe, cobrindo a sua própria face.
Cena da peça. Uma figura masculina, vestida de preto, segura um retrato falado de Sutcliffe, cobrindo a sua própria face.
Em dado momento da peça, os estupradores de Una incorporam Sutcliffe / Foto: Eva Pacheco

Além de retratar a óbvia violência de gênero, a narrativa chama a atenção para a incompetência policial e a recorrente culpabilização das vítimas, duas constantes envolvidas no processo de investigação dos casos. No quadrinho, os dados sobre assédio sexual no Reino Unido (frutos de uma pesquisa minuciosa) se intercalam com manchetes de jornais e servem como pano de fundo para a trajetória de abuso de Una, iniciada concomitantemente aos acontecimentos (a autora foi violentada, pela primeira vez, aos dez anos).

Em 2008 — quando começou a escrever Desconstruindo Una — a inglesa deixou para trás seu nome verdadeiro. Em Castelhano, língua em que também é fluente, “Una” significa “Uma”, e o pseudônimo remete às milhares de mulheres que são assassinadas, todos os dias, ao redor do mundo. “Ni Una a Menos” — marcha multitudinária que tomou conta das ruas da Argentina, Chile e Uruguai, em Junho de 2015 e 2016, desencadeadas pelos feminicídios brutais das jovens Chiara Páez e Lucía Pérez — é o movimento que ela evoca para reforçar a sua escolha.

“Eu não queria que o livro fosse sobre mim. Eu queria que ‘Una’ pudesse ser ‘qualquer outra’. Sinto-me muito privilegiada em poder assumir essa posição. Passei por momentos difíceis, como resultado das ações dos homens que “me interromperam” [aos dezesseis anos, Una teve de sair da escola]. O que eu ‘perdi’, ainda ‘está perdido’. Mas eu estou aqui, e estou bem.”

Ilustração de “Desconstruindo Una”. Nela, um grupo de pessoas aponta e grita em direção à uma menina, que olha para o chão.
Ilustração de “Desconstruindo Una”. Nela, um grupo de pessoas aponta e grita em direção à uma menina, que olha para o chão.
“Todos concordavam. Havia um problema, e ele estava em mim.” / Foto: Divulgação — Una Comics

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O “Coletivo Rubra”, responsável pela montagem do espetáculo, surgiu em 2017, na cidade de Mauá (distante 13 quilômetros de Rio Grande da Serra). Dirigido pelo artista teatral e poeta Felipe Vieira de Galisteo, o grupo é composto por nove atrizes, dois atores, uma sonoplasta e uma técnica de projeção, que ensaiam quando (e como) podem.

“Nossa realidade é a de jovens da periferia de Mauá, entre 16 e 23 anos. A maioria é de baixa renda e foi ou é estudante de escola pública. Quando não, são alunos bolsistas em escolas particulares. Muitos deles trabalham desde cedo e têm longas jornadas, que envolvem estudo, trabalho e ensaio. Por isso, nos encontramos poucas vezes por mês”, diz Felipe.

A trupe costumava se reunir na “Oficina Cultural Mauá”, na Vila Bocaina, centro do município. O local — que era sede do projeto “Oficinas Culturais” e oferecia cursos gratuitos de artes plásticas, canto, dança, circo, palhaçaria e teatro — encontra-se permanentemente fechado.

O fato se deu após um atraso no aluguel do imóvel, decorrente de uma “troca de gestão”, em maio de 2018. Na ocasião, o então prefeito Átila Jacomussi (PSB) foi preso por corrupção, durante a operação “Prato Feito”, suspeito de desviar verbas da merenda na cidade.

As atividades outrora concentradas na Oficina Cultural passaram a ocorrer em espaços pontuais, como CEUs das Artes e Fábricas de Cultura. “Quando as oficinas eram centralizadas, era de fácil acesso para todos. Agora, o número de pessoas por curso está bem menor”, atesta Mileny Vitória, de 17 anos, integrante do Rubra.

Mas, nem tudo são dores. Sem nenhum tipo de apoio da prefeitura, o coletivo logrou bancar parte da viagem de Una — de Leeds a São Paulo — com o auxílio de um crowdfunding, realizado por meio do site Vakinha. Em cerca de cinco meses, foram arrecadados R$ 1.415,00, dispensados à estadia de Una no país, que durou cerca de duas semanas.

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Para Galisteo, os desafios imbricados em adaptar o livro para os palcos eram de duas ordens: ética e estética. A primeira contemplava o fato de o diretor pertencer ao gênero masculino. “Quando eu li o livro, fiquei impactado. Me emocionei muito durante a leitura; algo que ainda acontece quando a retomo. Mas só ‘se impactar’ não adianta. É preciso se reconhecer como parte do problema”, coloca.

A partir desta reflexão, o diretor compreendeu que não poderia conduzir o processo criativo de maneira a impor a sua visão sobre a obra: deveria privilegiar a autonomia das mulheres que integram o grupo. “Não se tratava de ‘dar voz’ ao elenco, porque essa voz existe, sempre existiu, mas de trabalhar ferramentas técnicas específicas para que essas vozes se materializassem cenicamente”.

Na peça, o papel de Una é partilhado entre as nove atrizes, que se revezam interpretando “versões” da autora. “A ideia de Una era tornar a sua história universal, e nosso intuito era não perder essa característica. Por isso, trabalhamos muito com a ‘formação de coro’. A força está aí, nessa coletividade”, conclui.

Larissa Cardoso da Costa Affonso, de 23 anos, é atriz e dançarina e integra o Rubra desde 2017: “Ter apenas uma Una nunca foi uma opção. Foi um processo muito delicado, pois ao mesmo tempo em que interpretamos Una, também interpretamos a nós mesmas”, reflete.

“Interpretar a Una foi alcançar uma personagem que eu já tinha em mim. Foi muito bom saber que posso ser ouvida, assim como a Una se fez ouvir, por meio do seu livro”, conta Allie Lopes da Silva, de 19 anos.

Em uma cena de destaque, a atriz traz a sua rendição de ‘Til It Happens To You (“Até que aconteça com você”), canção de Lady Gaga e Diane Warren, tema do documentário The Hunting Ground (2015), que aborda a violência sexual praticada nos campi de universidades norte-americanas.

Cada qual com as suas razões, ambas se dizem “transformadas” pela experiência. Com a voz trêmula, Allie afirma: “Eu cresci enquanto mulher, e enquanto uma mulher que luta ao lado de outras”. Larissa reconhece: “Hoje sinto que consigo debater estes temas com mais domínio, com mais maturidade”.

Cena da peça. Três meninas, de vestidos vermelhos, encontram-se enfileiradas numa diagonal.
Cena da peça. Três meninas, de vestidos vermelhos, encontram-se enfileiradas numa diagonal.
Nessa cena, Larissa Cardoso toma a frente do coro de mulheres / Foto: Eva Pacheco

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Após 11 horas de voo, Una chegou ao Brasil para o relançamento de Desconstruindo Una, na Ugra Press (editora, livraria e loja virtual especializada em quadrinhos e contracultura, localizada na Rua Augusta, em São Paulo). Depois, seguiu para Mauá, onde prestigiou a peça adaptada de sua graphic novel.

Nos dias 25 e 26, Una e o Coletivo Rubra promoveram outros dois encontros: o primeiro, um bate-papo com a SOF — Sempreviva Organização Feminista, na Casa do Hip Hop de Mauá. O segundo, um “sarau literário”, na Casa Helenira Preta de Referência da Mulher (Rua Almirante Barroso). Esta última trabalha tanto na prevenção quanto no atendimento a mulheres vítimas de violência.

Um dos êxitos da adaptação teatral foi transpor os números coletados por Una para a realidade nacional. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2015, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. A cada duas horas, uma é morta em decorrência da violência contra o gênero feminino (G1 e Núcleo de Estudos da Violência da USP, 2019).

Infográfico “Violência de gênero no Brasil” / Eva Pacheco (Canvas)

No ABC, existe apenas uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Ela fica em Santo André, e fecha durante a noite. O “Casa Abrigo” — programa que oferece moradia, saúde, emprego e auxílio jurídico para mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos — recebe, desde agosto, verba 28% menor do que a do ano passado. Atualmente, a Casa funciona em dois endereços na região, mantidos em sigilo para proteger a vida de mulheres ameaçadas.

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Após o término do espetáculo, que se iniciou com um coro de “lamentação”, elenco e plateia entoaram o nome de Una, até que a autora subisse ao palco. Visivelmente emocionada, abraçou as meninas e meninos que haviam se entregado ao projeto. E o teatro transformou-se numa grande “roda de conversa”.

Por cerca de uma hora, os quase 200 presentes tiveram a oportunidade de fazer as suas ponderações a respeito do tema e da montagem da peça. “Esforços linguísticos” foram somados para que Una pudesse compreender a todos (e vice-versa).

Sentados em cadeiras e ajoelhados no palco, Una, Felipe Galisteo e parte do elenco feminino batem papo após a peça.
Sentados em cadeiras e ajoelhados no palco, Una, Felipe Galisteo e parte do elenco feminino batem papo após a peça.
“Bate-papo” após a encenação: Una, Felipe Galisteo e atrizes do Coletivo Rubra / Foto: Eva Pacheco

Em alguns momentos, foi quase impossível conter o choro. Atrás de mim, uma garota — fui saber depois — vítima de abuso sexual, soluçava incontrolavelmente. Na primeira oportunidade, correu em direção ao palco e deu um abraço apertado em Una. Aliás, todos demos.

“Una, obrigada por contar a minha história.”

Os vestidos vermelhos foram todos costurados à mão, pela mãe de uma das atrizes. Orgulhosa, a senhora se prontificou a dividir o feito com Una. Ela não falava Inglês, mas sua filha ocupou-se da tradução.

Porque se despiertan, todas las mujeres. Irán recobrando sus grandes poderes. [Porque se levantam, todas as mulheres. Irão recobrando seus grandes poderes.]

Eva Pacheco

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Brasil. 23 anos. Jornalismo PUC-SP.

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