
Sair para caminhar às dez da manhã foi a coisa mais legal que eu fiz na última década.
Digo na última década porque além de latino-americano, sou também apenas um rapaz. O que implica no fato de que há pouco eu era uma criança. Todo mundo sabe que, quando se é criança, um banho de banheirinha vira uma viagem de além-mar em direção às Índias, mas, é claro, sem as doenças de convés e a prepotência rude portuguesa. Qualquer futebol na rua virava um Corinthians e Palmeiras no Itaquerão lotado e ensandecido. Criança sabe ser descolada.
Digo às dez da manhã porque coisas peculiares estão acontecendo nesse horário, e eu quase nunca posso vê-las de perto. Aprendi a amarrar o cadarço na época em que aprendi a acordar cedo, e desde então passo as manhãs ocupadas. Até os dezessete anos, na escola. E depois dessa idade, no trabalho. Até hoje dou o nó errado no cadarço com aquele sono matutino maldito. Às vezes eu erro o troco dos clientes também. Quase nunca.
Eu tenho folgas e finais de semana, mas prefiro ficar na cama de preguiça, tocando violão. O ponto é que quando saí pra caminhar no meio da manhã, numa quarta-feira amarga, percebi que nem tudo estava num ônibus, numa sala de aula ou num balcão de comércio. Enquanto eu passava na entrada dos fundos de uma igreja, ouvi duas simpáticas senhoras falando sobre como o Brasil é uma república comunista que precisava da salvação de um presidente militar. Dei bom dia e segui em frente, disfarçando o riso. Com em frente eu quero dizer a praia, onde ouvi as ondas quebrando salgadas, como se estivessem com raiva dos corajosos que decidem surfar no inverno. Uma criança jogava frescobol com o pai na areia, um jovem andava de skate no calçadão e os pássaros voavam baixo enquanto cantavam alto. Resolvi comprar uma água no único barzinho aberto na orla, e lá dentro Paulinho da Viola — através das caixinhas de som, claro — cantava:
Ai, minha Portela
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Retornando pro banquinho de frente pro mar, encontrei uma amiga da época da escola que passeava com o cachorro. Ele era um pitbull marrom com branco, cego do olho esquerdo e, apesar de velho, com muito apetite sexual pela minha panturrilha. Jogamos uns quinze minutos de conversa fora sobre faculdade, emprego e amigos antigos. Eu e ela, não eu e o cachorro. Minha relação com o cachorro foi só coisa do momento. Na volta pra casa, cinco ou seis crianças brincavam no parquinho completamente despreocupadas, repletas de areia e gritando como loucos. Criança sabe ser descolada.
Enfim, ouvi e vi tantas coisas que não eram o dedilhar das cordas de aço ou minha cama revirada de bagunça que me deu vontade de fazer isso mais vezes.
Nietzsche chama de vontade de potência essa coisa típica dos bons cronistas que agarra a gente lá na alma e diz: “Meu parceiro, a vida é bonita e há pessoas por aí dispostas à vivê-la.” Eu chamo de tesão. A gente tem que estender o campo semântico do tesão para além do sexo. E a gente também tem que estender o tesão pela vida. Nada me traz mais essa ânsia pelo viver do que esses pequenos momentos minúsculos que passeiam pelas nossas rotinas. Espero não ter que ir andar na praia sempre que quiser presencia-los. Acho que eles estão sempre por aí, escondidos nos cantinhos mais óbvios. Os cantinhos que a gente só olha com atenção quando tem tempo livre, igual criança. Criança sabe ser descolada.