Descobriu, enfim, como se amar.

Eu não escrevo nada sobre o que eu sinto desde o meu segundo ano do ensino médio. Não escrevo porque me falta tempo, me falta criatividade, me faltam paixões avassaladoras por coisas e pessoas totalmente aleatórias, que brevemente passariam e seriam substituídas por novas paixões avassaladoras e aleatórias, também de pouca duração. Eu costumava ter um caderninho, (muito surrado e mal diagramado) que tinha de tudo um pouco. Era uma mistura de diário, com pequenos poeminhas, e letras de músicas melancólicas preferidas estilizadas. (lê-se: i’s pingados com coraçõezinhos e muitas outras baranguices.). Essa fase acabou porque, por algum motivo, começou a faltar tempo para escrever nos benditos caderninhos. Ainda tenho todos guardados, e quando os leio, me lembro exatamente de como se sentia aquela Eva que escrevia, de 14, 15 anos, com a cabeça no mundo da lua e o coração sempre na mão.

Passada a fase do caderninho, a Eva de cabeça no mundo da lua e coração sempre na mão continuava existindo. Agora um pouco mais pé no chão, mas ainda sonhadora. Sonhadora com a faculdade, com o se tornar independente, com ser um fator agente na construção de tudo aquilo que ela sempre acreditou pro mundo. Essa Eva tinha tantos amigos, que mal podia contar nos dedos. E eles eram de verdade, não aquela história de “amigo de verdade se eu tiver 2 é muito”. Não era mesmo. Ela tinha com quem conversar, e COMO ela conversava… Talvez nessa fase a Eva não escrevia porque manter a dinâmica de estudos, amigos e família minimamente funcionando tomava tempo demais, e não sobrava nada pra ela. Nessa época eu adorava o banho de 30 minutos pós aula do cursinho até as 23:00 da noite, porque era praticamente a única hora do dia que eu tinha pra pensar. Era meu happy hour. Eu ouvia minhas músicas favoritas, e colocava em dia os álbuns que ainda faltavam ouvir. Eu cantava (baixinho porque já tinha passado das 22:00), e pensava em mil arranjos pra cada verso das músicas mais cantáveis. Eu pensava nos erros cometidos durante o dia, e também nos de março de 2004.

Passei na faculdade, e essa Eva aí de cima também passou.

A Eva que sobrou foi uma menina totalmente desnorteada no centro de Belo Horizonte procurando uma loja de aviamentos. Que descobriu tudo o que a independência dos pais pode trazer de melhor, e o quanto isso não vale a pena perto de continuar tendo alguém por perto. Descobriu que instabilidade emocional tem muito a ver com o clima da cidade, com as responsabilidades na faculdade e com a administração do dinheiro que nunca tinha na conta. Tem a ver também com a nossa alimentação, com quantas horas diárias nos damos de sono, e o quanto temos lembrado de nos exercitar. A Eva que sobrou não tinha tempo de pensar nela, ou no que ela sentia. Ela mal tinha os 30 minutinhos de banho pra pensar e cantar. Ela não podia -e já não sabia mais- se dar ao luxo de se dar um tempo. De sentar num sábado de manhã e pintar uma tela. Ou aprender uma música nova no violão. Ela mal lembrava de como era conversar com amigos de verdade, e por isso, foi perdendo a prática.

Foi chegando um tempo em que essa Eva não se lembrava mais de como iniciar uma conversa, ou de como se abrir com alguém. Essa Eva não conseguia de jeito nenhum estabelecer novos vínculos ou manter os antigos, e até com si mesma ela já não tinha mais nenhum.

A Eva que sobrou, realmente, eram só sobras.

Uma Eva doente, chateada, e sozinha. Eu sempre me pergunto como a Eva do início do texto se tornou as sobras de si mesma, e pra falar a verdade, até hoje não foi descoberto. Descobriu-se porém que, o 5401 é o busão que leva com mais facilidade até o centro. Descobriu-se também que é possível preparar algo comestível, apesar da certeza de que comida de mãe é melhor. Descobriu-se que instabilidade emocional não se resolve com baladas e mil peguetes, e que o clima da cidade não vai mudar só pra agradar o humor de alguém. Descobriu-se que planilha no excel para organizar finanças muda vidas. Por fim, descobriu-se que cuidar de si mesmo é a única forma de não chegar ao fundo do poço. E com cuidar, lê-se comer frutas e verduras. Tomar banho 1 vez ao dia. Escovar os dentes. Assistir um filme. Dormir PELOAMORDEDEUS 8 horas de sono diárias (não pra que você acorde cantando com os passarinhos e aplaudindo ao sol, mas pra que você não caia desmaiado no meio da aula, em cima da carteira.). Lê-se fazer terapia, estudar a bíblia, meditar, ou seja lá mais o que que existe nesse mundo que nos aproxima mais da nossa alma e de quem nós realmente somos. Lê-se cultivar suas amizades, fazendo um esforço para lembrar o quanto era bom ter alguém por perto pra rir ou chorar, mesmo que isso pareça cansativo ou infrutífero. Lê-se amar a si mesmo.

Posso dizer que a Eva doente, chateada e sozinha está de dias contados. Não porque vai reaver as partes que foram ficando pra trás, mas sim porque, finalmente, ela começou a cuidar das partes que ela ainda tem, e as outras que faltam, como num processo natural, tem se reconstituído sozinhas.

Ela descobriu, enfim, como se amar.

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