Tentando me entender (no meio das minhas roupas)

(sobre escolher peças, equívocos fashion e autoconhecimento)

Para alguns, a moda é artigo de primeira necessidade; para outros, é futilidade do começo ao fim. Quanto a mim, posso dizer que tive uma relação conflituosa com ela, oscilando entre esses dois grupos — passando mais tempo com a turma que não liga pra isso. Talvez, excetuando o período (brevíssimo) em que pensei em ser modelo plus size e a fase em que quis fazer minhas próprias roupas, passei muito tempo considerando a moda uma coisa menor, fútil e que não merecia minha atenção.

Quer ser mais “tô nem aí pra essas besteiras” do que responder “sei não” à pergunta “vai vestir o quê hoje?” Pronto, sou eu na maioria das vezes.

Não foi algo que eu tenha levado à terapia — pelo menos não que eu lembre — mas a minha terapeuta podia me perguntar mais detalhes sobre como começou essa minha indiferença ao que vou vestir. A resposta pode se encontrar ali na minha relação com o corpo. Nos anos 90, era complicadíssimo comprar roupas para crianças fora do padrão, fosse muito acima do peso ou mais alta que as outras (eu me encaixava nos dois casos). Na verdade, acho que ainda é. Os responsáveis por crianças nessa faixa de idade podem falar isso melhor do que eu, que não sou mãe. Enfim, só lembro que era complicado mesmo, mas não tem detalhes no chip da memória.

Deixando o passado lá no lugar dele, na caixa das lembranças borradas, voltamos para o meu guarda-roupa presente. Por alguns anos da minha vida adulta (por “vida adulta” entenda-se “trabalhar e pagar todas as minhas contas”) fui terceirizando a compra de roupas e sapatos, deixando tudo na mão da minha mãe. Só que o tempo vai passando, a gente vai ficando mais velha e pela primeira vez, comecei a questionar as roupas que eu uso; por que eu as uso e o que elas dizem sobre mim. Isso aconteceu — coincidência ou não — quando voltei a procurar costureiras para fazer minhas roupas, e quando me arrependi de ter mandado fazer um determinado vestido que tinha visto no Pinterest e pelo qual tinha me apaixonado.

Expectativa… (Fonte: Pinterest)

É o que hoje chamo de equívoco fashion. Na foto, estava lindo, ornando com tudo. Eu me atraí pelo vestido quando vi a imagem. Mas quando a costureira me entregou a peça, eu só pensei “meu Deus, essa gola…”

Realidade: essa gola aí… E minha cara de muita alegria.

Tentei tirar a gola. Na simulação já dava para ver que ficaria péssimo. Acabou que usei apenas uma vez o dito vestido, em um passeio pela Avenida Paulista, e acabou. Já vão quase três anos de vestidinho xadrez com gola branca escondido no armário.

Eis que aconteceu do meu corpo mudar e algumas roupas ficarem folgadas, nível calça caindo, vestido parecendo um saco de batatas, etc. Uma situação inédita na minha vida. Foi o que me levou a botar todo o meu guarda-roupa abaixo pela primeira vez no ano e provar peça por peça de roupa, para ver o que estava bom e o que não seria mais possível usar. Foi aí que reencontrei o vestido esquecido, e o provei de novo.

Ficou perfeito no corpo. Antes, ter simplesmente cabido em mim seria motivo para mantê-lo no armário. Mas essa gola… Esse xadrez… Eu poderia ficar com ele e ser a diferentona com uma peça que ninguém tem. Eu poderia inventar moda, poderia cortar o vestido e fazer uma saia xadrez, só para não perder a peça. Mas hoje eu vejo com clareza que além de não usar gola branca, também não uso peças xadrez, por mais que ache bonito nas fotos, nas vitrines e nos outros, não cabe em quem eu sou hoje. Assim como também não cabem mais as saias longas com estampa tie-dye que eu usava há uns dez anos atrás. Não me traz conforto, não me reconheço quando me olho no espelho. Ou seja, quando a roupa não cabe mais em nós, mesmo que ainda tenha nosso número na etiqueta, é hora de passar adiante.

Hoje, embora ainda não seja nem um pouco antenada com tendências, consigo reconhecer que a roupa que eu visto fala da minha personalidade, do meu humor, é uma extensão da minha voz, de alguma forma. Entender isso faz uma grande diferença na hora de mudar o guarda-roupa e escolher roupas que a gente goste de verdade, que tenham a ver com nosso modo de vida. Assim fica mais difícil responder que não sabe o que vai vestir no dia seguinte.