Machado de Assis: um péssimo presente de Dia dos Pais

As famílias são, ou devem ser, viveiros de justiça
GUSTAVO CORÇÃO

Este não é um artigo para covardes.

É necessário ter coragem para lê-lo.

Não que outros não tenham tido a coragem de apontar os defeitos da obra de Machado de Assis. De Silvio Romero a Martim Vasques da Cunha, sabemos, muitos de nós, que a crítica à obra de Machado de Assis é um convite ao ostracismo acadêmico.

Cá comigo não dependo de ninguém que por lá dê as cartas — não que Romero o dependesse ou Martim não tenha coragem suficiente. Não.

Longe disso.

Foram minhas duas maiores fontes de inspiração para preencher o vazio deste papel e, de forma impertinente, tentar dar um passo adiante, ir além de onde eles, corajosamente, conseguiram chegar.

Tenho certeza que sem Silvio Romero e sem Martim Vasques da Cunha este texto não existiria.

Mas se hoje ele existe é porque ambos me obrigaram a ir além.

Ir além e mostrar, com todas as letras e cores, o quão repugnante é a obra de Machado de Assis, sob o ponto de vista da mensagem literária e sob o ponto de vista da construção de valores e da edificação de uma civilidade.

Machado de Assis não apenas desfilou tudo o que há de ruim no Brasil — ele foi além: Machado louvou o que há de pior no ser humano e tentou, com as suas molecagens irônicas, dar um certo ar de lente social para mostrar o quanto essa característica de nossa civilidade não valeria a pena ser cantada.

Não — não me venha com a conversinha de que Machado de Assis “fez crítica de costumes”, “retratou uma realidade”, “mostrou a hipocrisia do brasileiro”, “desfilou o quanto a elite é mesquinha” ou “escancarou as mazelas da classe opressora”. Já ouvi isso por muito tempo. Comigo não cola. Machado Assis fez literatura de ódio, sem disfarçar muito no começo, dissimulado no meio da vida e voltando de forma bem explícita antes de se despedir dos palcos da vida.

Machado de Assis, ao meu ver, é o grande pai daquilo que Flávio Gordon cunhou em sua obra máxima como a Corrupção da Inteligência.

Escolho não coincidentemente o Dia dos Pais para veicular este opúsculo de ponta-de-queixo sobre obra de uma das maiores unanimidades nacionais, de um queridinho intocável.

Por fim, cumpre lembrar: aproveita melhor este texto quem leu todos os romances de Machado de Assis e também todos os contos do bruxo — do contrário, querendo seguir daqui pra diante, o faça sem se incomodar com spoilers (inclusive cuidando de capítulos finais de tramas literárias). Se você também leu todos os críticos que cito, entenderá o que tenho a dizer a você, leitor machadiano, leitora capitolina.

Aperte o cinto, leitor; segure-se, leitora. Não pretendo frear nas curvas.

I.

Antes de falarmos da fortuna crítica acerca da obra machadiana, gostaria de traçar aqui um perfil já batido a respeito da personæ de Machado de Assis.

Nascido de origem humilde, mulato, autodidata, discreto, tímido, de saúde frágil, casado com uma única e mesma mulher ao longo da vida, sem nunca ter tido filhos — isso é tudo que vocês já sabem. Mas também é tudo que vocês precisam saber.

Não há nada mais na vida de Machado de Assis que interesse.

Dois detalhes são entretanto muito importantes: Machado de Assis sempre fez questão de esconder sua origem humilde, sempre fez questão de fazer parte da elite, de literalmente vestir-se como alguém da elite, por meio de negações de origem.

Não adianta dizer que Machado foi alvo de uma convenção social ou de um filtro de aceitação típico da sociedade da época. Machado não agiu como um Manuel Antonio de Almeida ou como um Lima Barreto — ambos de origem baixa, não se mostraram preocupados em “ascender socialmente”.

Machado de Assis tinha uma vaidade pessoal de integrar-se em um meio que lhe restou, de certa forma, criticar por meio de piadinhas de salão.

Não foi o caso, também, de um Cruz e Souza, cujos obstáculos na ascensão social (bem maiores que os enfrentados por Machado de Assis) não o levaram para a pena com a mágoa destrutiva de Machado de Assis.

Machado perdeu os pais muito cedo: a mãe com 10 anos de idade, o que levou o pai a casar com a madrasta. Logo se tornaria órfão de pai e seria criado, então, pela madrasta.

Machado não levou adiante boas memórias de sua relação com os pais quando era apenas o menino do Morro do Livramento.

É exatamente este o primeiro detalhe que irá marcar profundamente a sua obra, como um todo, ao longo de toda a sua carreira.

Machado não foi assim lá muito orgulhoso de seus pais e não fazia questão de apresentar-se socialmente como fruto do casamento de uma lavadeira com um pintor de paredes mulato. Deles ainda carregou a herança de uma “saúde frágil”, que tinha na epilepsia um dos mais marcantes traços que, ainda hoje, não se sabe se estamos diante de um fato ou de uma “lenda urbana”.

As circunstâncias de seu casamento atestam, item, que Machado fez do casamento um meio de acesso a círculos da elite. Dona Carolina, mais velha e de boa formação, abriu-lhe portas.

O segundo detalhe vem depois de seu casamento — um casamento com poucos convidados mas de vida conjugal perfeita ao longo de 35 anos, e que não lhe deu frutos. Ninguém, simplesmente ninguém, nenhum biógrafo sequer, trata do tema da impotência generandi que poderia pairar na vida desse casal. Esse assunto é um tabu.

Mas é justamente desse tabu que extraio a linha, o vetor principal da crítica à obra machadiana que nenhum crítico ousou encarar.

II.

As críticas mais graves e solenes sempre foram em relação ao estilo de Machado.

Esse desapreço começa com Silvio Romero.

É de Romero a famosa advertência: “Machado de Assiz é grande quando faz narrativa sóbria, elegante, lírica dos fatos que inventou ou copiou da realidade; é menor, quando se mete a filósofo pessimista e a humorista engraçado” (cf. original).[i]

Silvio Romero, de vastíssima cultura, faz comparações de Machado com Voltaire, Flaubert, Leopoldi, Byron, Dostoiévski, Juvenal, Molière, Baudelaire, Tolstoi — admira a capacidade de Machado em criar tipos e personagens, mas, irrita-se com aquilo que chama de humour, aquele “mimimi” azedo que se diferencia da sátira ou do cômico.

Machado irrita Romero pelo estilo.

Mas Romero morde uma isca tipicamente machadiana, justamente pela sua característica mais marcante: Machado prima pela correção gramatical, pela elegância, pela erudição, pela astúcia — não seria propriamente o estilo, mas justamente o que o estilo escondia.

Romero falhou nessa identificação.

E por isso foi tão duramente massacrado.

Romero lembrava que Machado era “um distinto prosador pela correção, pela simplicidade, pela propriedade das imagens, pelo adequado das comparações, pelo apropriado dos qualificativos”.[ii] Romero lhe admira como “o artista da frase média, cadenciada, medida, onda a palavra é catada com peculiar interesse, o qualificativo é esmerilhado com especial apuro; onde certos e determinados vocábulos entram como indispensável ornato”.[iii]

Pronto, estava ai trilhado o caminho para levar Machado de Assis para a Poeira da Glória.

E o erro de Romero é notado pelo hábil Antônio Cândido (o coroné Antônio Cândido, como “carinhosamente” João Adolfo Hansen se referiu à maior influência na crítica literária nacional): “Para uma discussão geral do problema, todavia, interessa fixar o seguinte ponto: a teoria literária de Sílvio era determinista; para ele a literatura só pode ser compreendida se a estudamos em função dos fatores condicionantes, e nunca em si mesma”.[iv]

Bem leitor, pois é leitora — sei que essas palavras bonitas podem, em uma primeira leitura não significar absolutamente nada. Mas, confesso, demorei para entender o recado de Cândido ao acusar Romero de determinista e cientificista. Se fosse uma discussão de Twitter de @antoniocandido para @silvioromero, certamente essa afirmação equivaleria a uma respota de Cândido para Romero no seguinte sentido: “fascista!”.

Algumas páginas depois Cândido ainda acusa Romero de proferir “bravatas aos vinte e três anos”, um rapaz que se esqueceu de “verdades fundamentais”, um escritor que abriu mão da “crítica honesta” e que apesar de tudo, Romero teria sido um “bom historiador e um mau crítico” e por ai vai.

E suspeito, por ai virão as críticas a esse trabalho, pois faço exatamente o que Cândido acusa em Romero como ato de desonestidade: investigar a obra a partir da origem de suas ideias e no âmago da pessoa de quem a formulou, algo que, já imagino, taxarão o texto de “obra de olavete”.

Para minha defesa, “pau que bate em Silvio, bate em Santos”: se para fazer crítica ao estilo de Romero, o coroné Cândido pode desancá-lo, por que não posso eu usar dos mesmos recursos, contra Cândido, que ele mesmo usou contra Romero?

Enfim, o Cândido de hoje é o Romero de amanhã. Prefiro eu ser Romero em vida e Cândido na morte, se me permitem, leitores e leitoras!

III.

A reação a Silvio Romero não precisou aguardar Antônio Cândido — muitos nem sequer sabem, mas meses depois da publicação das observações de Romero, o Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira, jurista de borla e capelo, escreve sob o pseudônimo de LABIENO para publicar o seu Vindiciæ (Belo Horizonte: Amigos de Livro, 1934) — obra hoje raríssima e que custa uma fortuna em sebos desta vida.

Sob o subtítulo O Sr. Sylvio Romero — Crítico e Philosopho, o Conselheiro Lafayette, sob pseudônimo (algo como abrir uma conta falsa no Twitter ou no FB para atacar algum desafeto sem se identificar ou usando foto de Spectroman ou algo que o valha) divide a obra em duas partes: a primeira, intitulada Machado de Assis, alvo deste opúsculo e a segunda, intitulada Ensaios de Philosophia do Direito, destinada a dizer bobagens em outra seara que apreciaria zombar, mas economizarei o casto leitor nestas páginas.

Fiquemos com a primeira parte, apenas.

Assim abre um dos mais toscos ataques pessoais da história da crítica literária, com o intuito de acusar em Romero a feitura de uma fraude onde criticava Tobias Barreto e, na última hora, teria substituído o recheio por um mutatis mutandis da obra machadiana: “O annuncio de que o Sr. Sylvio Romero publicara um estudo crítico sobre Machado de Assis despertou em nós um vivo sentimento de curiosidade. Conhecemos a victima, um espírito elegante com as delicadezas de um filho da cidade de Minerva, fino observador das fraquezas e ridiculos do seu tempo, engenhoso e habil em urdir contos e histórias que encantam e prendem pelo interesse e vivacidade do entrecho e pelo desenho firme e limpido das figuras. Conhecemos também o sacrificador barbaro que veiu lá das regiões Cimmerias. Estudou rhetorica em alguma escola da província; fez um grosso peculio de theorias, de formulas, de canones, pilhados aqui, alli, que, embora ele os diga novos, têm, pelo tom e geito com que são expostos, uns rasaibos, uns olores de Quintiliano, de Vida, de Soares Barbosa” (cf. original).[v]

Conselheiro Lafayette se vale a condição de mediador, de que teria proximidade com ambos para fuzilar a reputação de Romero.

Mas para atacar, não mede palavras e sugere que Romero sofresse de um gosto peculiar por poesias ruins, coisa que só se vê em “homens copróphagos” (p. 34, sic).

Mas é no dabate sobre estilo que Labieno identifica em Romero a “falta de senso e sagacidade do crítico”, ao mostrar “ignorar os segredos da arte de escrever”.

Nesta convenção de estilo (que não se pode negar), Labieno sai-se vitorioso do debate onde não economizou termos chulos para defender Machado e atacar Romero. Mas se sai vitorioso mais pela acidez dos comentários do que pela solidez dos argumentos.

Mas é no detalhe onde vemos que tanto um, quanto outro, erraram na leitura de Machado: “Todos que têm alguma cultura litteraria sentem bem o que é humor. É mais ou menos esta capacidade de perceber os desconcertos, os ridiculos, o lado comico, as baldas, os séstros, as fraquezas, os falsos juizos e opiniões, os costumes e práticas dessarrazoadas do homem e da sociedade, unida ao talento de fazer tudo isto resaltar por um gesto, por uma palavra, por uma proposição, pela allegoria, pelo conto e até pela caricatura, sem odio nem paixao e com uma espécie de desineteresse, pelo menos aparente. É mais uma malicia do espirito que uma perversidade de coração: uma cousa que faz rir, que ‘never fails to make company laugh’, mas que não provoca, nem revela indignação e colera”.[vi] Estava ali plantada a falácia de que Machado era um franco atirador contra “as elites”.

Pois bem — a obra machadiana não é perniciosa pelo que ela diz mostrar, mas pelo que ela deliberadamente esconde por trás de suas piadinhas infames. Os “desconcertos e ridiculos” são maquiagens de um aspecto sombrio de sua obra; seu lado cômico joga cortina de fumaça sobre um gravíssimo leitmotiv em seus escritos e peças.

Sim — Machado aproveitou-se de seu talento para fazer uma obra com um tema central repugnante e, ao contrário do que a leitura ingênua de Labieno faz sentir, a alegoria pinta de “azul da cor do Céu” um ódio, uma perversidade elevada, uma indignação moldada em puro recalque de quem não foi um digno filho e também não logrou ter filhos.

IIII.

Com Labieno a crítica de Romero já estava morta desde o nascimento; com Cândido tornou-se proibida.

Não que Romero tivesse lá algum brilhantismo digno de nota, mas era dono, sim, de uma vasta cultura e percebeu nessa ironia machadiana algo que a obra escondia de ruim.

Calar Romero foi uma tática no mínimo sagaz, pois revestia com a capa de palhaço todo aquele que desejasse se enveredar pela crítica machadiana e notar que naquela ironia morava algo de podre.

De José Veríssimo recebeu as mais elevadas notas: “Efetivamente ninguém jamais nesta [língua] contou com tão leve graça, tão fino espírito, tamanha naturalidade, tão fértil e graciosa imaginação, psicologia tão arguta, maneira tão interessante e expressão tão cabal, historietas, casos, anedotas de pura fantasia ou de perfeita verossimilhança, tudo recoberto e realçado de emoção muito particular, que varia entre amarga e prazeiteira, mas infalivelmente discreta. Histórias de amor, estados de alma, rasgos de costumes, tipos, ficções da história ou da vida, casos de consciência, caracteres, gente e hábitos de toda a casta, feições de nosso viver, nossos mais íntimos sentimentos e mais peculiares idiossincrasias, acha-se tudo superior e excelentemente representado, por um milagre de transposição artística, nos seus contos” (grifei essa barbaridade)[vii].

Machado é pintado por Veríssimo como um ser de dons extra-sensoriais: “E sem vestígio de esforço, naturalmente, num estilo maravilhoso de vernaculidade, de precisão, de elegância”.[viii]

Romero havia escrito em 1897, Lafayette soltou o seu Vindiciæ em 1899 e os efeitos desse contrataque perduraram por anos, até que Veríssimo pavimentasse um caminho de glória absoluta para Machado em sua obra de 1912 (publicada em 1916 na íntegra).

Cândido degolou de vez Romero em 1945.

O que restaria a crítica subsequente?

Nada mais que escrever capítulos de obra com o título “Machado acima de tudo”, como o fez Afrânio Coutinho em seu desserviço cometido em Processo de Descolonização Literária[ix], para quem: “Ninguém pode negar a grandeza de Machado como romancista. Dom Casmurro é o maior romance da língua”. Veja: ele não disse “maior romance brasileiro”, ele disse “da língua”. E crava proibindo leitores de achar ruim qualquer coisa de anômalo que possam perceber na obra do bruxo: “ninguém pode negar…”, dá a ordem o capitão da crítica literária, autor da Filosofia de Machado de Assis, obra pra lá de polêmica de 1940.

É nesse clima que lemos Machado de Assis no Brasil.

Exceção seja feita, Rodrigo Gurgel é o primeiro, junto com Martim Vasques da Cunha, a rever essa confusão iniciada a partir do fuzilamento acadêmico que sofreu Romero: “Silvio Romero desancou Machado de Assis o quanto pôde. Acertou ou errou? Não importa. Importa que ambos agiram, cada um em seu campo, de maneira independente, autêntica, certos de estarem fazendo o melhor. Até este momento, Machado parece ter vencido a batalha. Mas isso não diminuiu o valor da ampla obra que Romero deixou, da mesma forma que não garante que a avaliação da obra machadiana permanecerá, no futuro, imutável.”[x]

Até hoje, é simplesmente proibido criticá-lo, devendo a crítica apenas louvá-lo de maneira gnóstica e absoluta.

V.

Apenas vozes autorizadas como a de Sérgio Buarque de Holanda colocavam um pouco de freio nos desatinos de um Coutinho.

Certa vez, ao ler Machado dentro desse contexto proposto por Coutinho, Holanda já havia notado as ideias perigosas dentro da obra machadiana e que, louvadas por uma crítica gnóstica e apocalíptica, nota alguns desserviços à noção de Pátria que Machado tanto atacou. Ao contrapor interpretações a trecho do Memórias Póstumas em que pergunta, “e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesmo, matando-me?”; responde Holanda: “O ‘ódio a vida’ explicaria, segundo o sr. Afrânio Coutinho, o empenho de Machado em desmoralizar os bons sentimentos. ‘É, portanto, uma intenção geral em Machado — diz-nos expressamente — a desmoralização dos bons sentimentos, todos eles como lhe ensina Pascal, vãos e mentirosos, simples capa de hipocrisia sobre a realidade egoística’. Até onde é exato semelhante conceito nesses termos cabais? E ainda admitindo que os bons sentimentos são deliberadamente negados pelo romancista, até onde é lícito admitir que ele só enxergou maldade no mundo? O que parece certo é que a maldade, os maus sentimentos, são a seu ver tão inexistentes, ou melhor, tão absurdos como a bondade. E tão ridículos, se quiserem”.

Note que Holanda não se insurge contra o fato de haver, na obra de Machado, um “ódio a vida”, mas cobra de Coutinho as “provas”, a leitura correta, o trecho cabal onde esse “ódio a vida” se transparece.

“Diante dos aspectos que procurei apontar no livro do sr. Afrânio Coutinho, de fragilidade tão patente dos seus argumentos em favor de um tese artificial e forçada, não sei esconder a impressão de que o autor não chegou a formar uma convicção bem definida a respeito do que sustenta”, sentencia Holanda. “Suas frases sucedem-se como um pensamento ainda nebuloso, mal descansado, à procura de um ponto onde se arrime e ganhe segurança. O resultado é que se deixa a última página com uma intensa decepção”, segue Holanda em seu descredenciamento de Coutinho. E assim sepulta o trabalho mirim de louvação machadiana: “Tanto mais intensa quanto essa insegurança dogmática, ao que me parece, não costuma ser característica do sr. Afrânio Coutinho”.[xi]

Por onde andaram, entretanto, críticos do talante de um Carpeaux, de um Wilson Martins vis-a-vis a obra machadiana?

Pois bem — não posso assegurar que o fantasma de Machado acovardou Carpeaux, mas a Poeira da Glória deixada pelo bruxo, de certa forma, intimida até hoje os espíritos mais cambaleantes.

Carpeaux, que não era tolo, sabia do tamanho da briga que poderia comprar se entrasse nessa discussão ao lembrar astutamente que “Machado de Assis, embora espirituoso, não foi um cético”[xii] — frase que por si só provaria o desencanto natural de Machado com o verdadeiro conservadorismo de “matriz burkeana”.

VI.

Wilson Martins[xiii], mais livre para pensar do que Carpeaux, seja por atrair menos perseguição, seja por sua condição como membro da prestigiada Magistratura Paranaense, seja ainda por transitar nos jornais em período posterior ao de Carpeaux, talvez tenha sido não apenas o que mais escreveu sobre Machado, mas certamente o que mais leu e com algum louvor, o que mais profundamente comentou sobre sua obra nesse tempo.

Em sua coletânea Pontos de Vista, Martins teria falado de Machado entre 1955 e 1994 (pelo menos) e suas abordagens oscilaram ao longo dos anos. Interessante, entretanto, é notar que apesar das oscilações, o mérito machadiano é sempre formal, estilístico.

Em longa análise oferecida para o jornal O Estado de São Paulo (chama-lo-ei apenas de “OESP” daqui pra frente), na edição de 19/5/1955 intitulada “Seleções de Machado de Assis”, Martins analisa livro da autoria de Otávio Mangabeira publicado no ano anterior pela Civilização Brasileira de nome Machado de Assis. “No universo machadiano, convivendo com o homem em sua realidade mais profunda, Otávio Mangabeira terá, provavelmente, embora não o diga, conhecido um pouco do tédio que as aparências do homem cotidiano não deixam de provocar em quem procura o essencial”[xiv], assevera Martins, antes de descredenciar com a sua habitual elegância a tentativa de Mangabeira em elaborar um rider’s digest de Machado.

Doura a pílula, naquele mesmo jornal e naquele mesmo 1955 (na edição de 25/8), ao comentar Machado de Assis Desconhecido de R. Magalhães Junior[xv], a que enche de louros pela análise biografista um tanto quanto ponderada. Magalhães Junior teria visto na biografia de Machado não um homem alheio aos acontecimentos de seu tempo, mas do contrário (contrapondo-se a Alfredo Pujol), um homem do seu tempo que fez esse tal tempo observado, estar refletido na obra. Martins concorda com certos detalhes da obra machadiana percebidos por Magalhães Junior e que seriam caminhos para ainda revelar um Machado desconhecido. Mas vê na obra de Magalhães algo incompleto na análise mais profunda de Machado, um livro “sobretudo, muito falho no que se refere às exatas perspectivas dos valores” (grifei).

Essa preocupação com os valores acompanha Martins quando comenta, em 1956, uma reedição de obra de Lúcia Miguel-Pereira, contraposta a um lançamento de J. Galante de Souza. Martins lembra que por ocasião do lançamento de obra de Miguel-Pereira, por ele classificada como um estudo pretensioso, “certas imprecisões ou juízos menos ponderados demonstram igualmente que a ‘revisão’ do volume para novo lançamento não compreendeu uma severa leitura crítica”.[xvi]

É em 1958 que Martins começa a se abrir, ao tratar, naquela edição de 27/9, a Machado como “inseto monstruoso”. Sem ainda dar pistas desses valores que Martins afirma não terem sido notados pela crítica, pinta Machado de forma tenebrosa: “ele é, na literatura brasileira, o ‘escritor em si’, sem parentescos explicativos e sem compromissos com as ‘escolas’, sem contactos essenciais com o tempo e singularmente desligado da história literária. Sem ‘pertencer’ à literatura brasileira, fez com que a literatura brasileira o pertencesse”.[xvii]

Não há pista maior de que Machado seria a nossa Poeria da Glória por excelência do que essa misteriosa observação de Martins. Trata Machado como “Império Literário”, mas doura a pílula novamente equiparando-o a Cervantes, Dante, Shakespeare e Goethe. Mas Martins, nesse texto misterioso, finca uma no cravo e outra na ferradura: “Os poucos ‘entendidos’ que se arriscavam a discordar desse coro unânime, um Sílvio Romero, um Hemérito dos Santos, fizeram-no, significativamente, por motivos que nada tinham de literários; e que essas discordâncias destoavam desagradavelmente como uma espécie de erro moral verifica-se, por exemplo, na insanável condenação que de então por diante acompanhou o nome de Sílvio Romero, na reparação póstuma que representou a edição expurgada do seu estudo sobre o romancista”.

Naquele tempo a obra demolidora de Antônio Cândido já flanava como um dos pilares do processo orwelliano descrito por Martins, no processo de construção de um “Machado para vestibulares”. Martins sabia claramente do risco que estaria correndo se ousasse pôr na ponta do lápis, o incômodo moral e de valores que nas entrelinhas apareciam em suas críticas.

Em 1960, novamente lembra na edição do OESP de 06/2, que “a crítica machadiana caracteriza-se, precisamente, pela dispersão e pela desorientação, pelas reações emocionais em face do autor e pelo medusamento que a sua biografia provoca nos espíritos”. Se a essa observação não bastasse, Martins testemunha: “Na literatura brasileira, ele tem sido objeto predileto dos biógrafos ou santo de uma religião que o espírito crítico, justamente, não encontra muitas ocasiões de exercer-se” (grifei por minha conta).[xviii] Neste longo estudo em que analisa a edição das obras completas pela Nova Aguilar, Martins sutilmente lança a questão personalíssima de Machado em relação ao seu meio e a sua evidente dissonância social, aliada a uma “consciência do valor fundamentalmente biográfico, de biografia espiritual”.

Esse mistério que Martins não enfrenta assombra novamente quando comenta obra de Josué Montello de 1961 intitulada O Presidente Machado de Assis, naquela edição de 04/11, salientando que sempre haveria ainda algo a dizer sobre Machado. Parece que Martins esperava que outro o dissesse a respeito daquilo que, de certa forma, ele sugeria estar enxergando: “Todo enigma, todo o mistério, foram criados pela crítica e consistem, essencialmente, na obstinação de não querer vê-lo no que foi, de não querer aceitá-lo como um escritor semelhante aos demais, como se a originalidade literária correspondesse necessariamente a qualquer monstruosidade de caráter”.[xix]

Ato contínuo, lembra da Academia e do embate Romero-Labieno e borda elogios colaterais a Machado.

Mas é na análise de uma das obras mais ingênuas sobre a crítica machadiana que Wilson Martins põe na mesa o problema machadiano que exploramos aqui e já exploramos em outro texto publicado neste mesmo Medium (vide “Machado Afiado”, que deu publicidade ao trabalho “São Tomé e Santiago”). Em 1962, na edição do OESP de 15/9, Martins comenta a obra de Helen Caldwell, que compara o Dom Casmurro ao Otelo e cai na esparrela fuleira de investigar se Capitu traiu ou não, se Ezequiel era filho de Escobar e tolices afins. Naquele texto expus o óbvio (que, pasme-se, passa “batido” por inúmeros estudos atuais dessa obra central da produção machadiana): trata-se de um romance policial (policialesco, até) sobre um homicídio consumado e uma tentativa de homicídio do próprio filho. Vejam Martins: “Os juristas dirão, à luz do Direito e de suas regras impessoais, se o homicídio por ele cometido, de toda evidência, em estado de perturbação mental, merece ou não a absolvição; na escala humana, como todos os que partiram em busca do Absoluto, o malogro de Otelo era inevitável e só poderia ser total. Ora, nada está mais longe das alucinações e ímpetos otelianos do que a frieza determinada de Santiago; o personagem [sic] shakespeareano é um apaixonado (mais no sentido temperamental do que no sentido amoroso da palavra), enquanto o personagem [sic] machadiano é um lógico imperturbável”.[xx]

Martins evita deixar mais transparente ainda essa aproximação de um homicídio (no caso, de Otelo) com os delírios homicidas de Bento Santiago, legando a este apenas a sua característica notoriamente paranóica, sem lembrar ao seu turno dos assassínios envolvendo a personagem machadiana — “o problema crítico do escritor é o que ele escreve, não o que seja ou tenha sido”. Mas, acrescento eu — tudo o que ele escreve é fruto, no caso de Machado, do que ele tentou ser e não conseguiu, como veremos, em uma a uma de suas obras.

Atenho-me mais um pouco, amolando a atenção do leitor e insistindo na atenção da leitora (para não nos distanciarmos do que há de bom da obra machadiana que é esse diálogo quase amigável com quem me lê), para seguir nessa fortuna crítica e no que noto ser um receio fulgurante de “tocar na ferida machadiana”.

Algo começa a mudar quando, a partir de 1970, Wilson Martins, no auge do aparelhamento gramisciano pós-64 nas faculdades de extrema-humanas (termo cunhado pelo colega de FFLCH, Flávio Morgenstern, e, de fato, algo extensamente relatado por outro grande Flávio, o Gordon, em seu insubstituível A Corrupção da Inteligência[xxi]), começa a mudar o discurso de sua leitura machadiana.

Pouco antes, em 1967, Martins solta o seu famoso texto “A Revoluçao Cultural” (na edição d’OESP de 22/4/1967): “A República das Letras organizou o seu governo no exílio com a mesma nostálgica eficiência e a mesma representatividade de tantos outros gabinetes fantasmas: tem um Grande Ideólogo, na pessoa de Alceu de Amoroso Lima; o Crítico Literário, posto atualmente ocupado por Otto Maria Carpeaux; a pasta da Poesia, confiada a Tiago de Melo (…); o Diário Oficial é a revista Civilização Brasileira, publicada pelo Departamento de Imprensa confiado à Editora do mesmo nome; o poder Espiritual foi entregue a d. Hélder Câmara, cardeal a latere, e há um Líder da Minoria em Carlos Lacerda, além de grande número de secretários e subsecretários de Estado, jornalistas e figurantes. Como todo governo no exílio, esse detém apenas a força moral, que é abstrata e respeitável; e, naturalmente, não tendo de emaranhar-se nas responsabilidades mesquinhas da administração, pode pronunciar em cada caso, com altaneira severidade, o princípio irrespondível dos imperativos categóricos. E, como todo governo no exílio, deve-se dizer que o da República das Letras está em atraso de um fato histórico e de uma doutrina, assim como os grandes generais estão sempre em atraso de uma guerra. Com efeito, na Constituição extremamente sumária por que se orienta, o Gabinete determina, no art. 1º, que toda Revolução será marxista ou não será, e isso no mesmo momento em que a Grande Pátria da Revolução Socialista demonstra por seus atos e palavras que já se meteu em cheio pelos caminhos esconsos do Revisionismo. Quanto ao art. 2º, declara que a verdadeira função do escritor é engagement sartriano”.[xxii]

Esse candente texto, um depoimento que confirma cada linha de Flávio Gordon, mostra que já em 1967 a inteligentsia havia sido tomada de ataque pelo gramiscismo e posto pra fora da universidade, dos jornais e das midia toda a intelectualidade conservadora. E a ameaçava de expurgo intelectual com a violência com que viemos a conhecer apenas depois da década de 2010 com traços mais explícitos e desabridos. Wilson Martins lista todos os intelectuais, aos quais estava junto também Gustavo Corção, em um verdadeiro exílio. Certamente havia sentido esse peso e tido a necessidade de lançar esse texto fabuloso e candente, pois na semana anterior Martins havia publicado o que haveria de ser talvez a sua última estocada de sabre à obra de Machado de Assis, em um texto intitulado “Da Família Machadiana”.[xxiii]

Foi n’OESP de 15/4 daquele ano que Martins trata do “mito machadiano”, que fez com que Machado de Assis se tornasse um objeto de admiração gnóstica (para ficarmos aqui com um termo de Voegelin), e “de que atingiu [Machado] um nível de qualidade vedado a qualquer outro escritor brasileiro do passado, do presente ou do futuro” (grifos de Martins). Sobre isso Martins acrescentou: “vê-se que o conceito, pertencendo mais ao mundo das emoções incontroláveis que ao da inteligência raciocinante, não tem relação nenhuma com o julgamento crítico do escritor, nem encontra lugar no quadro das ideias estéticas, para não falar no absdurdo histórico que automaticamente contém”.

Revolve do túmulo um pensamento tipicamente romereano ao afirmar: “Machado de Assis não pode continuar imune ao tipo de apreciação crítica a que se submetem em geral os escritores”. Sob a lente de Oliveira Lima contrapondo-o a Josué Montello e a José Geraldo Vieira, Martins dá o exato percurso da Poeira da Glória e parece tomar fôlego para, em próximo texto, pôr na mesa o que há de negativo na proposta machadiana, escondida em seu estilo ora rebuscado, ora engraçacinho.

O apelo em “A Revolução Cultural” na semana seguinte (descrito acima), emudece Martins em relação a Machado por 3 anos. E desse mutismo amadurece uma mudança conceitual.

Não coincidentemente essa mudança se dá em exato instante quando ele vai analisar a obra de José Veríssimo, cuja defesa de Machado e o caminho aberto para a desconstrução romereana foram fundamentais na construção do Mito machadiano que será explorado na crítica pós-Cândido. “O ano de 1966 marca a primeira tradução brasileira dos escritos de Antonio Gramsci”, lembra Gordon. Entre 1966 e 1968 há um período de circulação das ideias gramscianas, e, portanto, do aparelhamento universitário, quando, “naquele primeiro momento, as ideias de Gramsci repercutiram tão somente no interior de um restrito círculo de intelectuais e professores universitários de ciências sociais, sobretudo da USP”, noticia Gordon.

Portanto, ao tempo do artigo “O Passado Útil”, já tínhamos transformado o linchamento intelectual em prol da louvação machadiana, uma regra de inclusão acadêmica ou de expurgo definitivo. Em 1970 não havia outra saída para o intelectual que não fosse louvar esse Santo Machado, a quem Martins já colocava a medalha da universalidade (que aqui ousarei retirar-lhe do pescoço — medalha essa de tanto valor quanto o Título Mundial de Futebol do Palmeiras conquistado em 1951): “a literatura brasileira, no sentido largo da palavra, está constituída quando surgem os grandes livros de Machado de Assis”.[xxiv]

Essa mudança é percebida quando Martins volta ao Dom Casmurro, em 1970, por transcrição de Colóquio dado em Lisboa em outubro daquele ano, pouco depois de ter publicado em 8 de agosto, no OESP, aquela resenha sobre José Veríssimo. Longe dos estertores do gramiscismo uspiano, Martins, comparando o Dom Casmurro à Guiomar de A Mão e a Luva, espanca novamente a idiotice que paira em torno do Dom Casmurro na questão da possível traição de Capitu. Não era disso que se tratava o intento machadiano, desde o início de seu ofício como escritor quando lança o seu leitmotiv de que trataremos abaixo.

Martins vê tensas semelhanças entre Guiomar e Capitu e ainda faz paralelos com as tensões envolvendo a Flora de Esaú e Jacó — o conflito entre as mãos Guimoar/Capitu/Flora e as respectivas “luvas” Estevão/Bento/Pedro&Paulo escancara o aspecto fraco e covarde destes últimos.

Este talvez seja o mais explícito e talvez o primeiro crítico que reconhece em Machado de Assis um escritor que louva a covardia e a fraqueza (de espírito e de caráter), a quem Martins lembra que “dir-se-ia que o Humanitismo, mais que o delirante sistema filosófico de Quincas Borba, é a própria filosofia de vida de Machado de Assis”.

Dessas fortes invectivas pouco se ouviu no Brasil, a salvo estava Martins daquele juízo crítico que poderia limá-lo da posição que possuia n’OESP.

A observação de Martins é tão precisa que a mim caberá apenas fazer prova, logo abaixo, dessa constatação quase isolada da obra machadiana (conforme conferiremos também).

De volta ao Brasil já publica, n’OESP, em 1971, naquela edição de 21/11, sob o título de “Desleituras”[xxv], novo estudo sobre nova obra de Helen Caldwell, que vem novamente a dissertar sobre Machado em termos ultra laudatórios em seu Machado de Assis — the Brazilian master and his novels, de 1970.

Essa obra de Caldwell é novamente um esforço infantil em torno da questão da traição em Dom Casmurro, onde ela apresenta provas adicionais da inocência de Capitu. Uma obra, desta vez, para falar do “orgulho feminino”, algo que seria “objeto de seu estudo e admiração”. Mais frakfurtiano que isso, só se Machado fosse analisado pelo próprio Horkheimer…

Enfim — caberia a Martins voltar ao tema que tinha palestrado em Lisboa e dar ali alguns contrapontos de Dom Casmurro, com A Mão e a Luva e Esaú e Jacó e algo de Iaiá Garcia a mais. Martins acompanha a interpretação simbólica caldwelliana e nesse contrato de termos definidos, embarca na chave de interpretação de H. Caldwell pegando inconsistências no ponto em que a própria Caldwell vê traços heróicos nas mulheres de Machado. É n’Os Lusíadas que Martins vai buscar seu argumento para dizer algo sutilmente parecido com “não é bem assim…” ao se referir ao “delírio das fontes literárias” como “pecado menor de Helen Caldwell”.

Nesse texto Martins expõe a um verdadeiro ridículo certas interpretações de Caldwell, sobretudo a sua bestial intepretação léxica sobre o “significado” de “Rua do Ouvidor” como lugar de fofoca, pois é a rua “onde tudo se ouve” (ignorando que “Ouvidor” era, naquele tempo, um cargo da magistratura brasileira): “Reduzir a interpretação literária a esse nível, em nome da erudição acadêmica, é tanto mais melancólico quanto ninguém melhor do que Helen Caldwell poderia reivindicar a qualidade de machadiana. A sua leitura de Machado de Assis, que é minuciosa e constante, assenta, contudo, em tantos mal-entendidos e incompreensões, em tantos equívocos e suposições gratuitas, em tanta reconstrução mental e em tanta deficiência no que se refere à história da literatura brasileira, que é possível perguntar se realmente possui com relação a Machado de Assis e às nossas letras, e até com a criação estética, aquela ‘afinidade inata’ sem a qual a crítica e a história literária não passam de um jogo estéril de fichas”.

Note que ao criticar Caldwell, Martins não recupera o eixo de sua exposição em Lisboa — critica a crítica sem precisar criticar a obra de Machado em si. É verdade que a superficialidade do trabalho “a la Escola de Frankfurt” de Caldwell facilitou-lhe a tarefa, mas espanta a proximidade do evento com a publicação do texto onde Martins esconde no que foi publicado no Brasil a sua verdadeira visão sobre o tema.

Depois desse absoluto descredenciamento (praticamente um desafio ao establishment acadêmico que começava a feudalizar Machado de Assis), Martins fica exatos 14 anos sem tocar no assunto.

Em 1978 deixa O Estado de São Paulo e vai para o Jornal do Brasil, onde toma conta de uma coluna mais modesta. Em 1984, na edição de 17/3, solta texto simples, curto e soando falso ao ponto de elogiar e reconhecer em Caldwell um marco importante na leitura machadiana. A pena da galhofa passa para as mãos de Martins, que termina aquele “Romancista de Vanguarda” com a frase: “Daqui por diante, e por mais surpreendente que pareça, será preciso lê-lo como romancista moderno”.[xxvi]

Em 1989, no auge do feudalismo machadiano já praticado na USP sob a mão de ferro do coroné Cândido, Martins analisa estudo de Enylton José de Sá Rego, onde os aspectos menipeicos de tradição luciânica da obra machadiana são investigados. Já falei aqui neste Medium sob o funcionamento da sátira menipeica (vide o meu “A Importância do Riso”) — Martins, habilmente capta o erro de Rego: “toma a espécie pelo gênero”. Além disso, Martins repisa em erro de Caldwell “endossado pelo autor”, dando-se ao trabalho de apenas desviar sua concepção dos erros em que a academia persiste: “Os mesmos fundamentos autorizariam situar o romance na tradição não menos venerável de Poncio Pilatos: o que é a verdade?”.[xxvii]

Em 1991, Martins dá sua última nota sobre o tema, por escrito, em “texto original, publicado com mutilações”. Foi texto sobre Astrojildo Pereira, em que dá sua tacada final em John Gledson e em Roberto Schwatz, aquele que viria, naquela década, a herdar o trono de Senhor Machadiano Supremo.

Nesse texto intitulado “Realismo Machadiano”, Martins lembrava: “Dir-se-ia que o reaparecimento de Astrojildo Pereira (1890–1965) com o primeiro volume de sua biografia por Martin Cezar Feijó (Formação Política de Astrojildo Pereira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990) e com a reedição de Machado de Assis (mesma editora, 1991) corresponde a um ajuste de contas faccionais no interior do falecido Partido Comunista Brasileiro mais do que ao propósito de finalmente fazer justiça a um dos seus numerosos intelectuais sacrificados no choque de rivalidade ideológica ou simplesmente pessoais que marcaram a história”.[xxviii]

Martins, nesse texto final, desmascara essa captura de Machado pelo establishment que tomou conta da academia para, orwellianamente oferecer à burocracia partidária um “realista socialista”, plasmado na imagem do “aprendiz de tipógrafo, o baleiro, o menino miserável do morro, o filho de um pintor pobre e de uma lavadeira”, mal compreendido pelas “elites” e símbolo daquela ideia gramisciana de ter-se um operário, na forma de Cavalo de Tróia entre as elites, para delas escarnecer e “transformá-las”. Martins é preciso ao dar as cores contemporâneas dos engodos envolvendo Pereira: “Escrito confessadamente ‘sob a ótica de Schwarz’, este livro é um mostruário algo constrangedor e irônico das ‘ideias fora do lugar’, desta vez no que se refere à sua acuidade crítica”.

Já no finalzinho da vida, em entrevista dada para João Antonio n’A Gazeta do Povo do dia 07/4/1994, ao ser indagado se “Machado de Assis é, como querem alguns, o maior caso da nossa literatura até hoje?”, responde:

Podemos inverter as perspectivas da resposta anterior e situar Machado de Assis na ‘ordem’ do romance brasileiro, para usar uma expressão cara ao crítico francês Albert Thibaudet. Na admiração convencional que muitos lhe votam para transformá-lo num caso, se não inexplicável, ao menos prodigioso, está embutido um racismo instintivo: como pode ser grande escritor e mulato ao mesmo tempo? Não há ‘caso’ nenhum: trata-se de um menino pobre e mestiço, intelectual e moralmente bem dotado, como tantos outros no Brasil, que realizou nas letras a carreira que muitos levaram a cabo, com sucesso, em outras atividades.

Ante a resposta, nunca foi endereçada a questão: sendo inexplicável o seu sucesso, por que razão, então, seria ele inexplicável? Melhor posto: parece ter algo de ideológico (e por ai seria explicável) esse tal sucesso, no mérito de sua obra (inquestionável, entretanto, no campo do estilo) — sendo assim, o que esconde essa ideologia mostrando apenas como uma virtude “aparentemente inexplicável”? Martins rebate a falsa causa racial ou étnica — pois então, o que há de subliminarmente encantador em Machado, para aquela turba progressista, ao ponto de colocar-lhe na Poeira da Glória?

Pois bem — esse era o tempo, já, de Roberto Schwarz e Alfredo Bosi, sob os quais peço a atenção do leitor e da leitora em dois dedos de prosa.

VII.

Wilson Martins notava algo de estranho, de imoral, de espiritualmente abrasivo na obra de Machado de Assis. Nunca revelou sua percepção.

Suspeitamos que essa percepção, depois de “A Revolução Cultural” e inclusive ao tempo da entrevista para A Gazeta do Povo em 1994 tinha algo de autopreservação.

Wilson Martins, assim como Carpeaux, sabia das coisas.

Sabiam de muitas coisas.

No caso de Wilson Martins, sabia coisas em relação ao que se sabia sobre Machado de Assis.

Não se sabe se convinha contar ou calar, ou se de fato notou o aspecto mais horkheimereano da obra de Machado de Assis (perdão pelo anacronismo àqueles que sabem ser impossível termos um Machado de Assis na linha de Horkheimer).

Fato é que a crítica que se sedimentou a respeito de Machado de Assis, tão logo Wilson Martins deixa de lado os escritos após sua aposentadoria como Magistrado e como Professor de Literatura no Brasil e nos EUA.

Saía em 1991, de Roberto Schwarz a obra considerada derradeira na interpretação machadiana de matriz uspiana: Um Mestre na Periferia do Capitalismo.

No ano seguinte sairia Ao Vencedor as Batatas. Em 1997, em uma edição de luxo pela Cia das Letras, com capa elaborada por Sebastião Salgado, sai o best-seller da crítica machadiana Duas Meninas, integralmente dedicado a Capitu.

Com Schwarz, Capitu se tornaria a heroína da literatura brasileira e Machado de Assis, pelas mãos gnósticas da leitura uspiana, atingia o grau apoteótico que Wilson Martins anunciou em 1967 ao dizer que o autor estaria sendo conduzido pela academia a um “nível de qualidade vedado a qualquer outro escritor brasileiro do passado, do presente ou do futuro”.

Bosi, em 1999, com o seu O Enigma do Olhar completa essa aura divina em torno de Capitu e seu demiurgo, Machado de Assis.

A partir desse ponto estava proibido mexer em Machado de Assis sem a autorização do establishment. Pois desse momento em diante, Machado de Assis, o mulato pobre mas astuto, desmascara a trama das malvadezas liberais a serviço do grande capital…: “O interesse estrutural que têm os setores europeizados da sociedade em desconversar — em sustentar o caráter civilizado do país, por oposição a sua formas de dominação incivil — constitui o solo da universalização deste mecanismo, cujo ponto de aplicação crucial não é o adultério, como aliás o adultério, embora esteja no centro do livro, não é o tema profundo deste”.[xxix] Para Schwarz o tema central é a “funcionalidade social deste esquema no caso brasileiro”, que transcende e se torna assim universal, como num passe de mágica.

Lembro-me que em sala de aula, até um marxista de primeira ordem como João Adolfo Hansen zombava dessa leitura hegeliana. De fato, faltava-me leitura e sobravam-me cabelos para entender a fineza da ironia de Hansen, menos ao modo machadiano e mais naquela linha de um Stanislaw Ponte Preta mesmo.

Mas o que essa louvação de fato queria esconder na obra de Machado, a indiscrição de Schwarz não soube filtrar: “Como se articulam a primeira e a segunda parte de Dom Casmurro? Vimos que na primeira a realização pessoal de um casalzinho está em luta com o nosso Ancien Régime, com as duas famílias de proprietários mandões, supersticiosos e senhores do casamento (ou celibato) dos filhos” (marquei).[xxx]

De repente a palavra filhos ressoava em minha mente como que uma Bala de Estalo.

Precisava reler integralmente a crítica e a obra de Machado de Assis.

Estaria eu delirando?

Teria localizado aquilo que essa linha de intérpretes fazia até certo côro?

Por que razão esse tema energúmeno da traição se repetia a cada ano, sendo então tão óbvio que Dom Casmurro não tratava disso (ainda que Schwartz viesse a endossar esse como sendo o tema central)? Cheguei até a fazer um trabalho sobre isso, bem elogiado, “com nota 10”, mas tudo ficava por isso mesmo. A mim Dom Casmurro mais parecia um romance policialesco escrito por um advogado (ruim).

Em Bosi (por exemplo) o tema sob ângulo que confirmasse a visão de Cândido voltava: “Relações assimétricas compõem a maioria dos enredos machadianos; e levando em conta a dimensão subjetiva da assimetria, pode-se afirmar que esta se encontra em toda parte e dentro de cada personagem. A experiência do gradiente social é aqui fundamental. Não há romance de Machado que não colha algum aspecto ostensivo ou alguma dobra mal escondida desse tecido de fios existenciais cuja regra geral é a disparidade. A imagem da escada feita de degraus de diferentes alturas talvez esclareça melhor a lei imanente dessa formação social: os seus atores, na medida em que a roda da fortuna os colocou em posições objetivamente assimétricas, nunca podem olhar-se ou falar-se como verdadeiros pares”.[xxxi]

Era o mestre da literatura que escancarava a opressão do capitalismo periférico sobre os negros, os perdidos, as mulheres, os gays, os bestializados, os coitados, enfim, a miríade de oprimidos que ao crítico literário caberia defender. Essas coisas que me eram ditas em sala de aula, juro, eu buscava na obra de Machado de Assis mas sempre encontrava outras coisas: um crime, um assassinato, uma tortura, uma corrupção, um roubo, uma depressão moral — não assim como constatação ou crítica, mas as vezes até naquela ironia dúbia, próxima a uma doentia sensação de satisfação e regozijo (ressoando um risinho medíocre ao fundo).

Até o queridíssimo Valentim Facioli me pareceu, relendo recentemente o seu Defunto Estrambótico[xxxii], ter se deixado levar por esse discursinho de ler coisas na obra de Machado que mais estão na cabeça do crítico do que nas letras dos romances e contos: “Essa ironia estratégica machadiana, também chamada de ‘ironia que emprega a tática da ação’, se funda na dissimulação e na simulação, como ‘armas do engano’, visando ‘manter, em estado definitivo, o mal-entendido’, até que se desse uma mudança da situação” — que passagem perfeita![xxxiii] Mas logo vem o que eu entendo ser um metaengano: “qual seja, que a sociedade escravista — e seus terríveis males — acabassem”. Ora, não me parecer ser isso. Mas sigo acompanhando o querido mestre: “porque assim Machado de Assis não tornava sua posição e suas ideias abertamente conhecidas e não acreditava, naquele momento, na eficácia de sua própria opinião” — sim, fato; concordo. Mas o que será que esse método, esse estilo machadiano, estava a esconder? “além disso, evitava fornecer argumentos que a classe proprietária escravista poderia utilizar para manter e defender sua posição e privilégios” — não… não! De fato não me parece ser isso que Machado desejava esconder, escamotear, simular, dissimular como seu grande leitmotiv presente em todas as suas obras.

Eis, portanto, a situação imediatamente anterior à de Martim Vasques da Cunha e Rodrigo Gurgel diante da fortuna crítica machadiana — uma bem orquestrada estratégia de reafirmar fora da obra o que Facioli notou como uma técnica por assim dizer da ironia estratégia, que visa simular e dissimular a respeito de um status de decadência moral e valorativa que Machado de Assis faz questão de pintar em todos os seus romances e contos. E não tem a ver com essa bobagem fácil do “discurso do oprimido”, do “mestre na periferia do capitalismo”, “da forma literária e do processo social no alvorecer do romance brasileiro”.

É mesmo Martim Vasques da Cunha, em seu já clássico Poeira da Glória que acerta o ponto dessa dissimulação: “Taunay usa um procedimento que depois seria abusado por Machado de Assis: ele se dissimula em uma série de descrições que esconde o juízo moral do fato a ser relatado — o leitor começa a acreditar que o que está lendo foi o que realmente aconteceu” (itálicos meus)[xxxiv]. Sobre esse mecanismo dou exemplo cabal no trabalho postado aqui no Medium sobre o Dom Casmurro de Machado e sua hábil dissimulação de criar um romance de traição para esconder sucessivas tentativas de homicídio (que por muitos, até por Wilson Martins, são analisadas como “tentativas goradas”) ao que defendo ter sido concluídas por tentativas que acabam se consumando em dois cadáveres naquele Dom Casmurro — um, da ex-esposa; outro, do próprio filho.

VIII.

Pois então, chegamos ao que considero o ápice da obra machadiana e que não fora antes explorada nesse sentido de conteúdo das coisas narradas.

A partir de Dom Casmurro, romance central e divisor de águas de seu percurso literário, temos a certeza que se trata de um romance sobre o ódio que um pai sente, inexplicavelmente, pelo seu filho.

Lê-lo, para mim, é vomitivo, digno de embrulhar-me os intestinos.

Machado de Assis cria deliberadamente um romance de ódio cujo resultado final é a destruição completa da própria família, tema muito caro ao hediondo Horkhaimer, autor de uma das obras mais infames já escritas, Autoridade e a Família.

É nessa veia horkheimereana que Machado Assis constrói, antes mesmo do próprio Horkheimer, seu leitmotiv literário, escondido atrás desse estilo próprio, de ironias confusas, que Martim Vasques da Cunha irá notar como “enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”[xxxv]. Vou mais longe — disfarça mesmo o baixo estro moral do autor.

Do Dom Casmurro, notamos então esse leitmotiv do profundo desprezo que Machado de Assis fez transparecer pela instituição da paternidade.

Machado foi, usando aqui palavras de Schwarz, um autor incivil, pois fez questão, de maneira bem dissimulada mas constante em todas as suas obras, de mostrar um profundo desprezo pela relação pai/mãe-filho; algo que, de certa forma, transparecia o desprezo que ele mesmo manifestava em sua vida pessoal diante de sua origem que tanto dissimulava (e sutilmente desprezava) bem como pela sua possível esterilidade, que o impedia de gozar da sensação de paternidade. É uma ojeriza específica — a do pai (ou da mãe) contra o filho (ou a filha).

Esse lado trágico da vida de Machado não é capturado ao um modo épico ou trágico em sua literatura; Machado não tira desse amargor pessoal uma forma edificante de literatura cívica — pelo contrário, extrai dessa ironia estratégica, de piadinhas absolutamente desprovidas de qualquer graça, um certo desprezo pela situação que Deus lhe privava na vida real.

Essa constante, essa ideia fixa pela paternidade em sentido negativo, está presente em todas as suas obras de romance e contos.

O ápice de seu desprezo e ojeriza pela relação {pai/mãe versus filho} tornando a sua obra um grande canto contra os valores da paternidade, é atingido em Dom Casmurro.

A observação atenta em ordem cronológica das novelas machadianas mostra exatamente o movimento em crescendo dessa repulsa ao status familial e à louvação da família como valor central de qualquer sociedade que tenha superado o canibalismo e os estados bestiais coletivos.

É de se notar que uma defesa dostoievskiana de Machado definitivamente não se aplica: Dostoiévski, embora tenha passado pela miséria que certas relações desse jaez façam parte do teatro do mundo, assim também o fizeram Shakespeare e até Sófocles, nota-se em Machado que o assunto se tornou leitmotiv e está presente em todas as suas obra, algo que em Shakespeare e Doistoiévski não há. O leitmotiv de ambos é definitivamente mais universal que o de Machado e se há algo universal na obra de Machado, é justamente essa sua mensagem de desprezo pela paternidade.

Senão vejamos.

Comecemos com o seu romance de estreia no gênero das novelas, Ressurreição, de 1872.

O volúvel e inconstante Doutor Félix e a semente da desconfiança barata e gratuita como desculpa para destruir relacionamentos vai plantada já em seu primeiro romance. Sua relação forçada com a viúva Lívia, mãe do enfant terrible Luis, oferece mais do que mais uma paixão — oferece-lhe uma família, pronta.

Atente-se ao Capítulo IX, intitulado “Luta”, em que Dr. Félix rompe pela primeira vez com Lívia com base um factóide de traição expresso em uma carta “longa e violenta, em que acusava a moça de perfídia e dissimulação”. O narrador conta que “havia amargura na carta, mas havia também ódio e desprezo”. Não nos revela o teor da carta, portanto, fica “no ar” qual seria o objeto de seu ódio. Em menos de 3 parágrafos, a moça resolve visitar o Dr. Felix para lhe tomar satisfação: leva consigo… o filho.

Atente à cena em que após trocas bizarras de juras de amor, “Luis ficou de pé, entre ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem entender”.

Dr. Félix insiste em humilhar a moça diante do filho, colocando, ele sim, de forma dissimulada e sem o menor pudor de fazê-lo na frente de uma criança de cinco anos, desconfianças sobre Lívia. A moça firmemente propõe a ruptura e Dr. Felix hesita.

A quem cabe encerrar a situação? Eis a frase certeira de Luis: “Vamos, mamãe?”.

O mesmo menino a gorar os galanteios repete uma impertinência que visa atrapalhar o jogo dissimulatório de Felix — no Capítulo XV: “Por que é que o senhor não se casa com mamãe?”. Não se sabe se Felix de fato ama Livia. Sabe-se que a quer. Mas a impertinência de Luis termina em rejeição à Lívia, por certo desprezo velado em relação ao filho de Lívia, que, convenhamos, desmascara todo o jogo de persuasão que Felix tenta montar.

Luis safou-se de Felix: “Para consolo e companhia de sua velhice tem ela o filho, em cuja educação concentra todos os esforços. Luís possui as graças da mãe, apenas modificadas por uns toques varonis. Tem só quinze anos; mas como herdou a índole austera da viúva, e pouco, muito pouco, da viveza de imaginação, parece menos um adolescente que um homem”. Bem, quanto àquele que se esperava a hombridade, “a vida solitária e austera da viúva não pode evitar o espírito suspeitoso de Felix. Creu nela a princípio. Algum tempo depois duvidou de que fosse puramente um refúgio; acreditou que seria antes uma dissimulação”. Mas, o que Felix dissimulava? A leitora pia irá querer ler (o que de fato não está escrito), que Felix dissimulou amor (onde o próprio capítulo deixa claro nunca ter existido e, quando existiu, “extinguiu-se como lâmpada a que faltou óleo”). A obra fecha enigmática: “Felix é essencialmente infeliz. A natureza pôs nessa classe de homens pulsilânimes e visionários, a quem cabe a reflexão do poeta: ‘perdem o bem pelo receio de o buscar’. Não se contentando com a felicidade exterior que o rodeia, quer haver essa outra das afeições íntimas, duráveis e consoladoras. Não a há de alcançar nunca, porque o seu coração, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confiança e a memória das ilusões” (Capítulo XIV).

Não se sabe o que dissimulava, de fato. Abstratamente, era infeliz e amargo, mas não se sabe especificamente contra quem. O romance apresenta de maneira sutil um embate, ali, entre o caráter de Felix e o de Luis. Mas não chegam ao confronto; ficam apenas no âmbito do estranhamento. Calma, esse foi Machado estreando.

Querem ver o mesmo problema da atração física versus a repulsa a ideia de família e de paternidade? Vamos então para A Mão e a Luva, de 1874.

Guiomar, que muitos também vêem algum embrião de Capitu, se torna alvo de disputa entre Luis Alves, Jorge e Estevão. Uma sinopse ruim e bastante tola, mas o estilo de dissimular sensações ardilosas começava a evoluir, dentro do que Machado veio a fazer com mais ousadia nos romances seguintes: a repulsa ao valor da família.

No capítulo final em conversa de recém casado com Luis Alves, confessa ter admirado no rapaz, a ponto de substituir Jorge, no último instante, por quem mostrava “resoluto e ambicioso”. Guiomar solta a frase “ambição não é defeito” para pedir, maliciosamente — “mas que me dá você em paga? Um lugar na câmara? Uma pasta de ministro?”, pedia a moça cuja descendência esquisita e a possibilidade de pedir o mesmo para a Baronesa nunca surgiu.

Algo que admira é a lista de mortos que vão sendo enfileirados ao longo do romance. Toda memória de alguma pessoa querida ou que valia a pena ser lembrada é interrompida com a informação, “morreu”.

O mais notável de todos é o caso de Estevão. Anuncia na segunda linha do romance que seu desejo era “morrer”, algo que se completa lá nas últimas páginas: “Estevão afundando no mar vasto e escuro da multidão anônima. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, ai mesmo morreu, quando a fortuna o distanciou deles”; morte essa que, não se sabe se real ou simbólica, ante a habilidade dissimulatória do narrador.

Guiomar e Luis “ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão”.

Tudo ai parece navegar no realismo pueril da crônica de costumes e o ódio ao status familial não é evidente ainda, apenas sugestiva, como o foi em Ressurreição.

A situação se complica em 1876, com o polêmico Helena

O Conselheiro Vale, ao reconhecer Helena como filha, permite a Machado construir um romance que passa todo pela dissimulação de Estácio (seu presumido meio-irmão) e a explícita repulsa de Dona Úrsula (a madrasta). Ao passar do tempo com a conquista do afeto de todos, uma certa relação incestuosa entre Helena e Estácio começam a surgir no ar, haja vista a habilidade da moça nos círculos sociais.

A trama explode quando um certo hábito incomum da moça é descoberto: visitava todas as manhãs um homem de idade avançada em bairro pobre do Rio de Janeiro. Revela-se que o Conselheiro havia mentido, que aquele homem era seu pai verdadeiro a quem Helena mantinha escondido na miséria, por conta de um arranjo tosco havido entre o velho, de nome Salvador, e a mãe de Helena, então casada com Salvador mas amante do Conselheiro. O velho teria concordado em abrir mão de sua paternidade em troca de um “conforto financeiro” para a filha.

Com a descoberta, mesmo Helena tornando-se livre para mergulhar em um relacionamento com Estácio e, por outro modo, assegurar esse “conforto”, vê as portas fechadas pela Igreja, que exige de ambos a manutenção de compromisso com noivados anteriores. Dentro de sete dias, Helena vem a falecer para encerrar o romance de forma abrupta e violenta. Helena sofre tripla rejeição: Salvador, Vale e Estácio.

Aqui em Helena, Machado de Assis faz seu teste mais ousado ao pôr a prova o seu ódio às relações de paternidade, numa trama aparentemente ingênua, mas visualmente repugnante e repulsiva, sobretudo quando a obra é lida sob a perspectiva de Salvador.

Após o sucesso de público desse romance, a crítica destilou-lhe a incapacidade pela total dissimulação, criando uma trama inverossímil. Isso pouco lá importava, pois passou ao gosto do público uma historieta em que a repulsa decorrente do abuso do instituto da paternidade foi de forma exitosa, diluída na compaixão que todos sentiram por uma moça que, pelos fatos, fez troça e aceitou manipular suas origens para ascender socialmente. A morte da moça e a não colocação de seu case em uma trilha de sucesso, funcionou como antídoto para a consolidação desse leitmotiv de repulsa e ódio à paternidade.

Em 1878, com Iaiá Garcia, a repulsa pela paternidade/maternidade se consolida. A diferença para os romances de sua fase chamada de “madura” ou “segunda fase” é que ainda neste caso de Iaiá Garcia, essa repulsa está explícita. É em Memórias Póstumas que Machado de Assis passará a usar a dissimulação com larga habilidade para esconder, escamotear e diluir esse ódio, em meio a detalhes irrelevantes, inverossímeis ou em “causos” que na história suplantaram o conteúdo dos romances: o caso do escravo Prudêncio é um exemplo. Outro, mais adiante, vê-se no caso das tabuletas na Confeitaria do Custódio, aconselhado por Aires, e por ai vai…

Em Iaiá Garcia temos a história de uma mãe que deseja mandar seu filho para a Guerra do Paraguai, para que o jovem rapaz morra por lá. Embora afirmasse não acreditar na fatalidade e justificar essa ideia estapafúrdia para que servisse de antídoto para um amor não correspondido do rapaz, Dona Valéria, a mãe que queria mandar o filho, Jorge, para a guerra, pede auxílio a Luis Garcia, pai de Lina, ou Iaiá. Tanto Dona Valéria quanto Luis são viúvos criando filhos únicos e a ideia estapafúrdia de Dona Valéria contava com o auxílio de Luis, que aceita o encargo de convencer o rapaz a ir para a guerra. Jorge vai a guerra e retorna após a morte de sua mãe. Luis envolve-se com a moça que levou Jorge para a guerra, a tal Estela. Iaiá passa a desaprovar essa relação até Luis vir a falecer também. Jorge e Iaiá, depois de um périplo de relações espúrias, terminam casados, desaparecendo no interior a figura de Estela, a moça que arrebatou o coração do pai e do então marido.

A ideia de ter uma madrasta (agindo como mãe postiça) e interferindo na estabilidade da filha com o ex-namorado é novo teste de Machado para destilar seu ódio a relações estáveis familiais, sobretudo de um ascedente para um descendente. A cena final do cemitério mais confunde do que explicita, sobretudo com o seu desfecho cafajeste: “alguma cousa escapa ao naufrágio das ilusões”.

Em Iaiá algumas técnicas de dissimulação já se constatavam com a perspicácia de um Master Persuader, como na passagem em que Procópio reclama a Jorge que “não o levasse a mal, porquanto era tudo filho de um sentimento que não peca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação” (Capítulo XI). A Iaiá, que confessa sua psicose ao admitir que “ouve vozes”, Jorge diz ver ali não uma loucura, mas “sabedoria, é a grande sabedoria da natureza”. Ao falar do pai, Jorge recomenda a Iaiá: “resista um pouco a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existência. Não é só o coração que lhe fala, é também a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade”. O herói de guerra traz do front onde sobreviveu e “falhou” ao não morrer, uma acidez que vê na loucura uma certa lógica.

Ao brincar com esses limites dentro um argumento de “romance para moças”, Machado treina novamente a sua capacidade de dissimular o seu ódio em face de todas as relações de paternidade/maternidade.

Seu passo definitivo é dado em Memórias Póstumas, quando em uma frase final, sacramenta a virtude fatal de seu defunto-autor: “Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Brás Cubas passa a vida praticamente vagabundeando, trapaceando, dissimulando. Chama isso de nossa miséria. Não é uma miséria dele. Ele socializa seu maucaratismo de forma escancarada. E considera que seu único erro não fora ter usado a paternidade para passar adiante, para qualquer criatura, a sua cartilha de vícios. Poderia resumir essa frase assim: “fui um filho da puta, pena que não tive filhos para meter-lhes em encrencas que culpo você, leitor, pelas sucessivas ocorrências”.

Brás culpa a todos (como um SJW de twitter) pelos seus erros e lamenta não ter tido filhos que sofressem e, em contrapartida, fizessem também outros sofrerem.

Quincas Borba, saído no ano seguinte (1881) ao Memórias Póstumas e partir de uma costela deste último, explora um anti-Brás: Rubião, herdeiro do filósofo Quincas Borba e alvo de um golpe perpetrado pelo casal Sofia e Cristiano. Nesta obra Machado desce a um nível extremo de sordidez ao representar a relação paternal entre Rubião e o “filho” de Quincas, um cachorro.

O golpe se perpetua com a loucura e morte de Rubião, seguida da morte do “filho” de Quincas, o cachorro, nestes termos de absoluta crueldade e sarcasmo sádico e doentio: “Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro, — questão prenhe de questões, que nos levariam longe… Eia! Chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens”.

De Dom Casmurro, o romance que narra a história de um homem que mata o próprio filho, nego-me a falar mais.

Resta agora, na linha dos romances, lembrar o mais ardiloso de todos, tão ardiloso quanto o Memórias Póstumas: Esaú e Jacó.

Lá as tintas de ódio a paternidade são lançadas ao acaso em talvez um dos que mais tenha insistido na questão. Por aparentar constante a normalidade de núcleos familiais, Machado constrói habilmente, sem explicitar nódulos exagerados de ataque às relações de paternidade, como em Helena, em Dom Casmurro ou em Memórias Póstumas e faz desandar relacionamentos em uma pantomima de irmãos que são opositores desde a nascença e vêem na política o seu melhor instrumento de vazão. A obra culmina com a morte de Flora e a impossibilidade, seja pelo lado republicano, seja pelo lado monarquista, de se construir uma família.

Machado se apaixona e joga para todos o conflito.

O conflito é o que importa e a beleza do embate vale mais do que a ideia de que um lado pode vencer. A morte de Flora é a vitória suprema daquele que vê no conflito o destino de toda uma Pátria, representada naquela família de Pedro e Paulo. São as negativas de Brás de Cubas elevadas à dupla potência. Machado ainda revela, ao final, que o ódio entre os dois era algo que deveria ser creditado à mãe, pois já existia in utero (ou ab utero; ab ovo), quando celebra o renascimento desse ódio ao desistirem do trato em leito de morte da mãe em manterem relacionamento harmônico:

“Nada era novidade para o conselheiro, que assistira à ligação e desligação dos dois gêmeos. Enquanto o outro falava, ele ia remontando os tempos e a vida deles, recompondo as lutas, os contrastes, a aversão recíproca, apenas disfarçada, apenas interrompida por algum motivo mais forte, mas persistente no sangue, como necessidade virtual. Não lhe esqueceram os pedidos da mãe, nem a ambição desta em os ver grandes homens.
— O senhor que se dá com eles diga-me o que é que os fez mudar, concluiu o amigo.
— Mudar? Não mudaram nada; são os mesmos.
— Os mesmos?
— Sim, são os mesmos.
— Não é possível.
Tinham acabado o almoço. O deputado subiu ao quarto para se compor de todo. Aires foi esperá-lo à porta da rua. Quando o deputado desceu, vinha com um achado nos olhos.
— Ora, espere, não será… Quem sabe se não será a herança da mãe que os mudou? Pode ter sido a herança, questões de inventário…
Aires sabia que não era a herança, mas não quis repetir que eles eram os mesmos, desde o útero. Preferiu aceitar a hipótese, para evitar debate, e saiu apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna.”

O sucesso não atingido em Memórias Póstumas, de não legar esse ódio para herdeiros, aqui se dá de forma completa e cabal — os irmãos não apenas herdam esse ódio filial-figadal, mas o duplicam.

Esaú e Jacó é um romance descaradamente sobre o tema do ódio — o ódio entre irmãos, o ódio vital entre opositores, a divergência que Machado expõe com tintas religiosas ao lembrar de Esaú e Jacó e de Pedro e Paulo, dois pontos em que as duas espinhas dorsais do conhecimento judaico-cristão se cindem inexoravelmente e com uma dureza profunda. Mas a parte curiosa é que, do primeiro capítulo ao último parágrafo, Machado credita esse ódio a uma simples questão materna — usa deliberadamente a palavra útero.

No romance de crepúsculo, o Memorial de Aires, de longe o mais fraco de todos os seus trabalhos, a vida oscilante do solteirão-isentão, desde a cortina no último ato contra as virtudes da paternidade, é um desfile da falta de civismo deliberadamente pregado nas obras de Machado. Aires é um diplomata, mas usa de sua astúcia para propagar ódio em um país que parece odiar, algo completamente avesso ao espírito de uma carreira diplomática.

O Conselheiro Aires é um Brás Cubas enrustido, até ligeiramente afeminado. Aires é aquele Brás Cubas antes de Jordan Peterson, é o cafajeste da CVN (comunicação não-violenta). Lança em seu diário as suas preguiças e deleites covardes: “Está claro que lhe não falei da filha, mas confesso que se pudesse diria mal dela, com o fim secreto de acender mais o ódio — e tornar impossível a reconciliação. Deste modo ela não iria daqui para a fazenda, e eu não perderia o meu objeto de estudo. Isto, sim, papel amigo, isto podes aceitar, porque é a verdade íntima e pura e ninguém nos lê. Se alguém lesse achar-me-ia mau, e não se perde nada em parecer mau; ganha-se quase tanto como em sê-lo.”

Não contente em odiar as relações de paternidade por si só, a personagem machadiana derradeira confessa no diário que dedica a vida a semear o ódio entre pais e filhos; ou entre irmãos para que o pai odeie, ao menos, um dos filhos.

VIIII.

Nos contos as coisas não são muito diferentes também.

Desde contos mais óbvios como Pai contra Mãe até outros menos evidentes como Miss Dollar, lá está presente esse ressentimento contra filhos, partindo de pais. Neste Miss Dollar, a técnica usada é exatamente a mesma de Quincas Borba, com a cadela morrendo ao final, igualmente de forma bruta e estúpida — a cadela, em Miss Dollar, faz exatamente o mesmo papel filial que Quincas Borba faz no romance homônimo. Em Pai contra Mãe a ideia de aborto e de infanticídio são postas de maneira explícita, cerrada com a frase repugnante, “nem todas as crianças vingam”.

Em A Igreja do Diabo, desilude-se o Diabo quando vê sua igreja dominar o mundo e ter vários de seus discípulos praticando virtudes às escondidas. Dentre tantas, veja esta, em tom de ironia tipicamente machadiana: “A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrara muito. Alguns casos até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas”. Neste conto do absurdo, Machado inverte as capas de algodão pelas franjas de seda para dizer, pela boca de Deus: “É a eterna contradição humana”, que, se aplicada na virtude de salvação dos filhos e genocídio dos pais, não adoça quando o tema é a relação de paternidade: invertendo-se a lógica, temos filhos morrendo e pais sobrevivendo.

No conto Academias de Sião, o ódio às relações de paternidade resvala em subreptício antissemitismo, onde coloca japoneses para dentro do universo sionista e na parte IV, no vai-e-vem da “troca de corpos” entre Kinnara e Kalaphangko, no ato de destroca, funde “ao mesmo tempo mãe e pai da criança”, que antes haviam trocado um beijo que continha “o frio da morte ou do desdém”.

Passando aos contos mais clássicos, como Missa do Galo, fatalmente nada notamos de anômalo na relação pai-filhos, exceto… pelo título do romance: é a Missa do Galo, o evento em que os católicos celebram a vinda do filho de Deus a Terra; dia em que a personagem Conceição capricha nas prevaricações. Para um católico nada há de mais repugnante que prevaricar durante os festejos de Natal, sobretudo a partir do anúncio comemorado na Missa do Galo.

Em A Cartomante, temos Camilo, que “entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público”. Órfão logo depois, aproxima-se daquele que iria tornar-se seu assassino.

Outros há que são mais explícitos até, como o Teoria do Medalhão, em que um pai ensina ao filho como ser canalha na vida. Neste fica evidente que a relação pai-filho, na visão de Machado, serve exatamente para aquilo que Brás Cubas falhou: ensinar vícios, trapaças, saberetes, malícias e espalhar pelo mundo o ócio, os vícios, os enganos e as dissimulações.

Em Casada e Viúva lá está a “filha escondida”, que a mãe Cristiana não reconhece publicamente, a quem incumbia “educar e proteger” e que “fizeram-na resignada ao suplício”. Em Casa Velha, lá está o filho morto depois de nascer, um pai que não é o pai…

Em O Alienista lá está o elemento estéril — o desejo do Doutor Simão de ter filhos e a frustração pelo rompimento de um anelo por paternidade, transformado em loucura absoluta, em totalitarismo e em um purismo gnóstico de dar inveja ao estômago do mais preparado leitor de Voegelin.

Enfim, se passo aqui a analisar um a um dos contos de Machado de Assis para evidenciar essa sua sanha e ódio pela paternidade, precisarei de mais dias e páginas para mostrar, um a um, em cada conto, esse desapreço pelo valor paternal, o seu grande e único leitmotiv literário. Pior — sem encontrar uma virtude sequer sendo cantada ou retratada.

Esse ódio é o que move todo o seu influxo artístico, sob o aspecto que paira por trás de seu rebuscado e intrincado estilo, digno de tantas armadilhas e dissimulações, com o fito único de confundir o leitor enquanto mete-lhe no bolso o bilhete da inconsciência do ódio paternal.

Chamar Machado de Assis de autor patriótico é um escárnio.

Não somente um escárnio, mas sim uma estupidez.

Não foi também homem universal — faltaram-lhe valores a serem cultivados e edificados.

Foi um autor local que tinha uma agenda totalmente voltada para a louvação de um vício multinacional, mas jamais universal. Um dos mais hábeis no estilo da dissimulação para persuadir — eis onde reside o seu mérito, exclusivamente.

Esse vício tão louvado ao longo de sua obra, extraí-se de momentos de sua biografia: Machado negou-se a tirar dessa amargura pessoal a dulcilidade que poderia transformá-lo em um Cervantes ou um Dostoiévski. Preferiu ser Machado, um amargurado pessoal que escondia sua ascendência e se ressentia pela impossibilidade de gerar uma descendência. Fez disso o seu mote literário, com todo o ódio e da forma mais organizada possível, criando personagens que faltam aos deveres para com seus próprios filhos.

Machado não pode ser esquecido, entretanto. Não deve ser esquecido, jamais — por tudo o que escreveu a atentou.

X.

Machado fez padecer em sua literatura o seu desapreço pela paternidade.

Foi antipatriótico[xxxvi], foi verdadeiramente covarde com a pena na mão.

Jogou para dentro de sua obra o desgosto pessoal que carregava por ser filho de quem era, de não ter conseguido ser pai de quem gostaria de ter sido.

Definitivamente, um livro de Machado de Assis é um péssimo presente de Dia dos Pais.

Notas:

[i] ROMERO, Silvio. História da Literatura Brasileira, 5º tomo, 4ª ed.. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949; p. 130.

[ii] Ibidem, p. 118.

[iii] Ibidem.

[iv] CANDIDO, Antonio. O método critico de Sílvio Romero. São Paulo: EdUSP, 1988, p. 101.

[v] LABIENO, Vindiciæ, Op. cit., pp. 15–16.

[vi] Ibidem, pp. 44–45.

[vii] VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira. São Paulo: Letras&Letras, 1998 (reimpressão da obra original de 1916), p. 416.

[viii] Ibidem.

[ix] COUTINHO, Afrânio. Processo de Descolonização Literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, pp. 77 e ss.

[x] GURGEL, Rodrigo. Crítica, Literatura e Narratofobia. Campinas: VIDE, 2015; p. 43.

[xi] HOLANDA, Sérgio Buarque. O Espírito e a Letra — estudos de crítica literária 1: 1902–1947, vol. I. São Paulo: Cia das Letras, 1996, pp. 310–312. O mesmo texto aparece também em Cobra de Vidro (2ª ed.. São Paulo: Perspectiva, 1978, pp. 53 e ss).

[xii] CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos, vol. 1. Rio de Janeiro: UniverCidade/Topbooks, 1999, p. 480. Cf. escrito publicado em 1953, época em que Carpeaux, conforme faz notar em longo prefácio de Olavo de Carvalho, já tinha problemas demais para lidar como vistas a proteger a si mesmo da turba do imbecil coletivo.

[xiii] Se por um acaso o leitor ou a leitora desconhecerem o trabalho de Wilson MARTINS, recomendo a leitura do já citado Rodrigo GURGEL (Crítica, Literatura e Narratofobia, Op. cit., Idem, pp. 245–251) como obrigatória nota de introdução ao trabalho que ousarei aqui explorar com mais vagar.

[xiv] MARTINS, Wilson. “Seleções de Machado de Assis”, In Pontos de Vista, vol. 1. São Paulo: TAQueiróz, 1991, p. 444–450.

[xv] “Um Livro Necessário”, Op. loc. cit., pp. 524–529.

[xvi] “Bibliografia machadiana”, Pontos de Vista, vol. 2, Op. cit., pp. 22–27.

[xvii] “Machado de Assis pelo avesso”, Pontos de Vista, vol. 3, Op. cit., pp. 205–210.

[xviii] “Problemas machadianos”, Pontos de Vista, vol. 4, Op. cit., pp. 25–36.

[xix] “Retoques a um retrato”, Op. loc. cit., pp. 547–553.

[xx] “O Otelo brasileiro”, Pontos de Vista, vol. 5, Op. cit., pp. 176–181.

[xxi] A Corrupção da Inteligência — Intelectuais e Poder no Brasil, 1ª ed.. Rio de Janeiro: Record, 2017.

[xxii] “A Revolução Cultural”, Pontos de Vista, vol. 7, Op. cit., pp. 292–297.

[xxiii] “Da Família Machadiana”, Op. cit., pp. 287–292.

[xxiv] “O Passado útil”, Pontos de Vista, vol. 8, Op. cit., pp. 326–329.

[xxv] “Desleituras”, Op. loc. cit., pp. 381–384.

[xxvi] “Romancista de Vanguarda”, Pontos de Vista, vol. 11, Op. cit., pp. 322–323.

[xxvii] “Ideia Fixa”, Pontos de Vista, vol. 12, Op. cit., pp. 438–440 (saído originalmente na edição de 07/10/1989 do JB).

[xxviii] “O Realismo Machadiano”, Pontos de Vista, vol. 13, Op. cit, pp. 36–38 (saído originalmente com as mutilações indicadas pelo autor, na edição de 23/11/1989 do JB)

[xxix] SCHWARZ, Roberto. Um Mestre na Periferia do Capitalismo— Machado de Assis, 3ª ed.. São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 137. Schwarz, na verdade, navega em águas antes exploradas por Raymundo FAORO (Machado de Assis — a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1974, p. 226 e ss.), para quem Machado escreveu para “denunciar” a luta entre classes e mostrar as faces do estamento burocrático, que para Faoro era a classe dos comerciantes (especialmente os negreiros e traficantes de escravo). Como todo bom advogado esquerdista, escreve difícil, enrola mas não apresenta um gráfico ou estatística sequer das tolices que joga deliberadamente na tipografia da Editora Nacional.

[xxx] SCHWARZ, Roberto. Duas Meninas. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p. 32.

[xxxi] BOSI, Alfredo. O Enigma do Olhar. São Paulo: Ática, 1999, p. 153.

[xxxii] FACIOLI, Valetim. Um Defunto Estrambótico. São Paulo: Nakin, 2002, p. 112.

[xxxiii] Posso até um dia, se a vida me permitir e a paciência não me abandonar, de mostrar que Machado de Assis é um Master Persuader (segundo o termo cunhado por Scott ADAMS. Win Bigly — Persuasion in a world where facts don’t matter. New York: Portfolio/Penguin, 2017), caso se faça uma leitura pelo chamado Filtro da Persuasão (persusion filter, pp. 38 e ss.), sobretudo se utilizamos as armas de persuasão conforme apresentadas por Robert B. CIALDINI (As Armas da Persuasão [trad.: Ivo Korytovski]. Rio de Janeiro: Sextante, 2012). Machado apresenta todas as armas listadas por CIALDINI com uma habilidade incomum (reciprocidade, compromisso e coerência, aprovação social, afeição, autoridade, escassez e influência instantânea). Mas é na autoridade e na aprovação social que Machado de Assis mais profundamente manipula seus leitores. Esse é um lado absolutamente louvável e admirável na literatura machadiana e onde o seu estilo alcança níveis de excelência realmente impressionantes.

[xxxiv] CUNHA, Martim Vasques da. Poeira da Glória — uma (inesperada) história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 73.

[xxxv] Ibidem, p. 25.

[xxxvi] Apelo ao leitor que recorra ao definitivo Patriotismo e Nacionalismo (Rio de Janeiro: Ed. Nacional de Direito, 1957) de Gustavo CORÇÃO. “Os vícios que se opõem à virtude da justiça são aqueles que fomentam as inimizades e que exasperam os ressentimentos (…). No caso do chefe de família, por exemplo, há um modo de faltar ao dever por negligência, por abandono, por desinteresse, por anarquia” (p. 18).