Contações no alpendre

Meu avô e o Rosa

Nonada.

Confesso que Guimarães Rosa é meu “eterno retorno”. Terminei o Grande Sertão Veredas para meu primeiro vestibular, em 2006, e atravessei um conflito. Algo me tocava bem fundo, macio e doído, mas eu não sabia, absolutamente, de onde vinha. Olhava e não sabia ver. Essa angústia silenciosa que ele me deixou, só se resolveu sete anos depois, quando entreguei minhas horas à Sagarana.

Desde o primeiro conto, pareceu que eu tinha ido me sentar novamente diante de meu avô (falecido em janeiro de 2004), naquele alpendre de madeira gasta, porém décadas resistente (e que ainda resiste sem suas histórias), que se projeta sobre a estrada de terra, no Córrego do Tigre, comunidade rural do interior de Minas. A gente se assentava nos bancos tortos de madeira, a mesma de que era feito o alpendre. Seu colorido era por conta da poeira e do barro do caminho.

A gente se assentava. Este era o preciso indício que a narrativa esperava, à espreita, no ‘rabo de olho’ do meu avô. Sua mise-en-scène se limitava a erguer-se sobre a bengala de madeira e olhar longamente o caminho de quem vinha pela estrada, ou sentar-se na beiradinha de um dos bancos e olhar comprido para o caminho de quem ia pela estrada. A gente sabia que algo estava por chegar pela cadência de sua contação. A gente sabia que era verdade quando ele baixava a cabeça e esfregava com sua mãozona a careca. A gente sabia que era deboche ou armadilha, quando ele lançava as meninas para os cantos dos olhos e suas rugas se juntavam a um sorrisinho de canto de boca. A gente sabia que ele tinha saudades, quando ele erguia sua massa octogenária sobre a bengala, mirava firmemente sua frente e nessa posição ficava estático. A gente sabia pelo brilho dos olhos. Foi quando eu aprendi o que era nostalgia. É o que sempre brilha nos olhos das pessoas exatamente daquela maneira.

“- Sua avó já era professora naquela época…”

Aí, então, eu aprendi a ler o Rosa. Aprendi que o Rosa não se lê com muita gramática e acordo ortográfico. O Rosa se lê com a experiência. O Rosa se lê com todas as contações que você já ouviu. O Rosa se lê com todas as conversas de beira de estrada, com todas as histórias de pescador. O Rosa se lê com todas as travessias que você já atravessou e que já te atravessaram nesse ‘mundão véio sem porteira’. O Rosa se lê com nostalgia. O Rosa, o García Marquez, a Carolina de Jesus, a Agnés de Lestrade, o Maurício de Sousa, aChristelle Vallat, a Clarice, o Rubem Alves, o João do Rio, a Nívea Sabino, o Patativa do Assaré. Tod@s el@s.

A gente experencia e apreende o mundo por meio de todos os nossos sentidos. É muito simples se dar conta disso, basta observar por um pouco de tempo uma criança em seus primeiros anos. Primeiro ela é atraída pela audição ou visão, depois ela quer pegar, sentir em seu corpo, então ela aproxima do rosto, sente o cheiro e leva à boca. Logo ela começa a escalar tudo também, inventa e arrisca com o equilíbrio, busca entender como ela ocupa o espaço à sua volta e sua capacidade de transformá-lo.

A genialidade da escrita de Guimarães Rosa habita nesse entendimento do ser/estar do humano no mundo. Não se trata apenas de letra sobre uma superfície. É mais. É a palavra. E não apenas a palavra, mas a palavra como ela é dita sendo dita. E mais ainda, é a palavra sendo construída. Ela está carregada de expressão, repleta de identidade e de pertença, repleta de sertão, repleta de ser. Ela é sinestésica. Ela é o próprio sertanejo no alpendre contando, fazendo suas pausas para dar tempo à estrada, sinalizando sutilmente as artimanhas das histórias, as reviravoltas.

Seja no papel ou no ‘olho no olho’, seja na ponta do lápis, nas pontas dos dedos ou dos pincéis, recortando a vida com lentes e dispositivos móveis ou com a voz, o que fica de uma boa narrativa é o quanto de experiência ela vem trazendo pela estrada que percorre. Mergulhada em experiência, tudo significa nessa narrativa. Por isso, todos os sentidos de um contador precisam signi-ficar durante uma contação, por isso também, os textos (das diversas possibilidades de escritas) que guardamos em nós com afeição são aqueles que nos lançaram numa jornada de sensações e exploraram os nossos sentidos até a beiradinha de um deslumbramento ou de um colapso.

*Originalmente publicado no Blog da Editora Aletria