De parcerias e ilustraciones

Vinda diretamente das terras de Jorge Luiz Borges, de Julio Cortázar, do Quino e da Mafalda, a argentina Anabella López encontrou pouso nas calmas piscinas naturais de Porto de Galinhas, com seus coqueiros dançantes, areias branquíssimas e o sol que vem se alongar naquele horizonte indescritível bem cedinho.

A ilustradora de “De parcerias e trapaças: histórias de ontem para sempre”, fica namorando esse paraíso todo de sua janela, enquanto cria desenhos misteriosos que, durante a maré baixa, pulam de sua tela diretamente para as jangadas em repouso na praia e vão ganhar mundo. Alguns deles já navegaram para os lados do México, dos Estados Unidos, de Portugal, da França e chegaram até aos Emirados Árabes. Outros mais destemidos e curiosos resolveram ir no sentido contrário do que a seta da bússola apontava e pegaram destino boreal para conhecer a terra natal da autora-mãe. Boa parte dessas ilustrações foram entretecidas durante a escuta de lendas e mitos de povos que existiram em tempos tão distantes quanto às origens da arte de contar histórias.

É que mora dentro da ilustradora, uma Anabella menorzinha. A pequena fica saracoteando dentro da grande, desenhista, toda vez que esta lhe lê uma narrativa de tempos longínquos. Aí acabou-se… A pequena fica bulindo com a grande até seus pincéis começarem a se agitar sobre alguma superfície.

Ilustração do livro Iyá Agbá, por Anabella López

E a Anabella convidou a gente para entrar por essa janela com vista para peixes incríveis de cores desconhecidas e dar um mergulho nas águas — às vezes calmas, às vezes caóticas — que banham os arrecifes de suas criações.
 Então respire fundo e vamos lá!

Anabella, o que você traz da Argentina para seus trabalhos e o que tem de Brasil em seus traços?
É um pouco difícil fazer essa divisão tão marcante. Acho que meu trabalho é uma mistura muito viva de várias culturas, não só a argentina ou a brasileira. Quando estudei design e ilustração na universidade, as fontes de inspiração e estudo eram fontes europeias, das escolas de ilustração mais antigas como a inglesa e a francesa. Mas também, a maioria dos meus ilustradores favoritos são italianos e iraquianos, e essas são as fontes que olho e pesquiso hoje em dia. Ao mesmo tempo, como um dos recortes no meu trabalho é sobre mitos populares, também acabo me nutrindo muito das culturas originárias americanas, e seus valores visuais. Portanto, acho que não poderia fazer uma divisão tão clara do que no meu trabalho corresponde a Argentina e ao Brasil, na verdade acho que não poderia fazer isso nem comigo mesma.

Anabella López

Em seu trabalho sobre mitos populares, você já ilustrou obras que derivam da tradição oral de diferentes povos. Tratam-se de contos, fábulas, lendas, memórias transmitidos de geração a geração. Você tem um apreço especial por ilustrar essas histórias?
Tenho sim, e muito. O que mais me comove, além da pesquisa e procura da beleza e do feio, são justamente aquelas perguntas eternas, aqueles assuntos que preocupavam o homem do ano 1000 e continuam ocupando nossa mente hoje, em 2016. O eterno retorno nietzschiano. Nesses tipos de histórias, nos mitos principalmente, essas perguntas reaparecem constantemente. E isso, justamente porque se tratam de uma memória viva que vai se transformando, mas que ao mesmo tempo nos faz lembrar como não somos tão diferentes daqueles que moraram na Terra a muitos milhares de anos.
 Acho os mitos fascinantes pela sua atemporalidade e especialmente por serem universais. Eles tocam em questões tão profundas e da raiz humana, que podem se aplicar a qualquer um, a qualquer tempo e em qualquer cultura.

Como foi seu contato com a obra de Maria Inês? Quais foram suas primeiras impressões? Quais imagens foram aparecendo a partir de sua leitura?
 Meu primeiro contato foi pela editora, quando fui chamada para ilustrar o livro. Ela me enviou o texto, que li e gostei na hora. Maria Inez trabalha com o relato de mitos e a pesquisa dela é justamente sobre a memória nos mitos, os arquétipos, tudo que eles trazem e revelam para a gente. Achei maravilhoso porque o que motiva a Maria Inez à palavra, é o mesmo que me motiva à imagem. Então soube na hora que o livro ia ser muito rico.
 As imagens que foram logo aparecendo na cabeça foram os primeiros animais protagonistas dessas histórias. Adoro desenhar animai
 Ilustração do livro De parcerias e trapaças, por Anabella López

No livro há um texto de apresentação em que a autora explica que as histórias são protagonizadas por diferentes bichos da floresta, mas suas características e sentimentos, bem como o desfecho da narrativa são bem parecidos com situações em que a gente se encontra de vez em quando e com afetos e desafetos que vivemos. Você se encontrou um pouco nas tramas da Onça e o Veado, da Aranha e o Quibungo e do Jabuti e a Raposa?
Encontrei-me muito. Até nas histórias que são mais cruéis. Infelizmente — ou felizmente — a gente vai acumulando experiências ao longo da vida e muitas delas não são tão felizes. Acho que essas histórias colocam isso em jogo, o que justifica o título “De parcerias e trapaças”. Trata dos níveis mais baixos de manipulação, egoísmo, interesse e competência. Coisas que a gente enfrenta entre os humanos dia a dia. Querendo ou não, são energias que se manifestam e que a gente tem que aprender a reconhecer e aceitar.

Desafio Calango
E a ilustradora Anabella López também aceitou o nosso Desafio Calango. Esse divertido nome a gente emprestou da cantoria popular de origem mineira, que vem lá da Zona da Mata, em que os contendedores se desafiam no improviso. Cantando quadras e sextilhas em compasso binário sobre o dia a dia da vida no interior. É derrotado o competidor que esgotar primeiro suas rimas. No nosso Desafio Calango, lançamos uma série de perguntas para os nossos convidados e os provocamos a contar um pouco de suas próprias histórias. No final, você leitor é quem acaba desafiado a embarcar em uma viagem pelas obras preferidas dos entrevistados, os locais onde produzem e as aventuras em que mergulham na hora de criar.

Para os destemidos que se aventuram por suas ilustrações, quais surpresas eles podem encontrar?
Acho que aqueles que gastam um tempo vendo minhas imagens e analisando-as em livros, podem ter a real e profunda experiência de me conhecer. Acredito que as ilustrações de uma pessoa são como reflexos dela. Então quem quiser me conhecer, fica convidado!
Qual o livro mais fantástico pelo qual você se aventurou? Quais aventuras você encontrou por lá?
O meu último livro, em que estou trabalhando agora. É um livro só de imagens, uma viagem ao interior do meu mundo.
Em quais peripécias você se envolve na hora de
Eu me deparo com um caos total na primeira semana de contato com um texto. Sofro muito, pois acho tudo que faço péssimo e quase sempre fico pensando que não sou boa o suficiente e que deveria desistir da ilustração. Só que essa cena se repete a cada dois meses, cada vez que encaro um livro novo. Então já acabei entendendo que isso é parte do meu processo criativo e aprendi a dar um jeito para que, pelo menos, não seja tão conflituoso. Meu desafio maior é que, não tendo um estilo definido, todo livro é um novo mistério. Não tenho nada antecipado, e me permito liberdade absoluta de poder fazer qualquer coisa. Daí as técnicas mudam, as cores mudam, muda a metodologia para chegar às composições e aos personagens. Tudo novo a cada vez! Esse começo é bem estressante e sempre me sinto perdida, mas ao mesmo tempo é muito delicioso. Já sei que vou achar o caminho no final, pois já aconteceu outras vezes. Então, é só festa!

Coisas que me ajudam a começar é
- Propor-me um cronograma forte,
- Escutar muita música,
- Litros de café,
- Ficar olhando pela janela os coqueiros,
- Tomar banho de mar,
- Dançar um pouco no escritório,
- E correr 7 quilômetros, 3 vezes por semana.
- Mas principalmente ficar escutando música, enquanto pinto as páginas do livro. Isso é mágico!

Quem é a criança provocadora que te instiga a encarar o desafio de criar uma nova ilustração?

Eu!!!

Ilustração por Anabella López

Como é o lugar onde você cria? Está mais para uma floresta encantada, uma mansão mal assombrada, um grande sertão, ou a Terra do Nunca?
Eu crio na minha casa, que fica a 100 metros do mar. Pertinho de umas piscinas naturais maravilhosas. Quando o mar desce, elas ficam cheias de peixes coloridos.

*Originalmente publicado no Blog da Editora Aletria