Onça

Naquela manhã

Seu Itamar olhou bem os meus olhos.

Levantou o indicador e apontou à direita, através da janelona de madeira:

“O rio tem a natureza dele que é mais forte que a da gente. Não adianta tentar pôr pro rio o que ele vai ser. Ele é o que é, uai. Leito, margem e água que corre… Não é concreto armado, não adianta botar cano, ele não vai ser rua.”

A sua contação apaixonada da história do Ribeiro me embalou e eu me deixei levar por suas correntes. Quando me dei conta, já não era mais sobre rio.

Era só eu.

“Ó menina, escuta bem o que eu vou te dizer!

Num vale a pena desesperar se tem lugar que o córrego é mais raso

e

de

repente

fica

fundo.

Não adianta sofrer porque ele corre aqui — e não acolá.

Você tem que respeitar o rio

e deixar ele correr

pra onde ele tiver de ir.”

Eu antes chorava o Onça em temporal de janeiro.

Mas as lágrimas de agora são chuviscos.

Criança com graveto na beira brincando de fazer onda.

Só pra me

lembrar

de

escorrer.