O brincar

“A criança fica literalmente transportada de prazer, superando-se a si mesma tal ponto que quase chega a acreditar que realmente é esta ou aquela coisa, sem contudo perder inteiramente o sentido da “realidade habitual”. Mais que uma realidade falsa, sua representação é a realização de uma aparência: é “imaginação”, no sentido original do termo” (trecho de Homo Ludens, Johan Huizinga).

Depois do parto e cuidados iniciais com o recém nascido Rávi, a segunda questão mais séria que me aparece na maternidade é sem dúvida o desenvolvimento da criança. Como isso acontece, o que é importante, qual direcionamento devo dar, etc?

Todas as minhas pesquisas e um olhar atento ao bebê Rávi crescendo me levaram à uma resposta: o brincar. Observar como ele é levado por sua própria natureza em direção ao brincar, diz muito sobre ele e sobre nós, seres humanos.

A imaginação, o lúdico e a representatividade são princípios do desenvolvimento da criança, fazem parte de sua atuação no mundo e é brincando que a criança se reconhece enquanto pessoa e onde encontra os elementos necessários para construir os significados para o mundo que a rodeia.

É interessante observar como a criança é absorvida pela brincadeira, como se no momento do jogo estivesse imersa na representação e totalmente tomada pelo brincar. As crianças levam a brincadeira a sério, enquanto brincam aprendem.

Contudo o brincar não pertence somente ao universo da criança, faz parte do mundo adulto. A brincadeira e seus correlatos (o jogo e a festa) são aspectos intrínsecos de nossa cultura, desde os primórdios o jogo junto com a humanidade. Podemos dizer que a jogo está para a humanidade assim como o calor para o fogo, um não existe sem o outro.

O bebê a partir dos 4, 6 meses já se interessa pelas cores, sons (desde a vida intra-uterina) e objetos e à medida que cresce descobre as próprias mãos/pés e assim inicia a descoberta espacial, ampliando a cada dia sua percepção do seu corpo e do mundo. À partir dos 12 meses quando já consegue segurar os objetos mais firmemente, conseguindo encaixar, jogar, pegar e empurrar e depois a partir dos 24 meses, quando a consciência corporal se manifesta de fato, corre, pula, deita, agacha (fazendo isso inclusive nos momento de raiva e angústia).

No decorrer de seu crescimento a criança toma consciência de seu corpo e isso se dá essencialmente pela brincadeira, no qual ela adquire “maior domínio e conhecimento sobre seu corpo, contribuindo para a promoção do conhecimento de si e do mundo com experiências sensoriais, expressivas, corporais, que possibilitem a movimentação ampla, a expressão da individualidade e o respeito pelo ritmos e desejo da criança”, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil.

Enquanto cuidadores e educadores nosso papel é viabilizar e mediar o brincar da criança, lembrando-nos que o brincar acontece de maneira espontânea e efêmera. Muitas vezes confundimos o brincar com o brinquedo. Atualmente existe uma crescente diminuição do espaço do brincar livremente da criança, mais precocemente elas estão sendo submetidas à uma cultura que valoriza demasiadamente o brinquedo industrial — isso dá um texto a parte!.

Oferecer materiais que possibilitem o expandir do brincar enquanto aspecto de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, motor, sensorial, social e emocional da criança, com o qual a criança é capaz de criar diversas configurações do brincar é bastante interessante é importante.

Podemos perceber quando uma criança está criando, fica imersa pelos materiais, buscando significados e quando está repetindo a brincadeira para a qual aquele brinquedo foi feito, principalmente se é um brinquedo vendido na TV. Não acho que utilizar esse tipo de brinquedos seja prejudicial, mas não podemos chamar isso de brincar no sentido que estou pretendendo expor nesse texto.

Podemos perceber as crianças brincando livremente quando estão em contato com elementos da natureza, como areia, terra, gravetos, água ou mesmo quando estão no parquinho, como gostam de correr, pular, balançar e escorregar. As brincadeiras de grupo como esconde- esconde, queima, pega- pega também ilustram muito bem a relação íntima do brincar enquanto extensão do corpo no mundo e como expressão da individualidade da criança.

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