Quando o melhor é desistir

Todo dia minha timeline no facebook está repleta de frases motivacionais que elogiam a persistência, a superação de limites, a força do ego pra alcançar objetivos, o que já é um julgamento sobre a desistência como algo de fraqueza, covardia, falta de vontade.

O que é essa moralidade sobre as escolhas, que são igualmente possíveis? Não é uma crença generalizarmos que sempre temos que vencer, ganhar e conseguir o que queremos? E num mundo com 7 bilhões de pessoas, não é uma guerra de desejos todos quererem o que julgam melhor pra si? Não estou dizendo da caridade, da irmandade, não. Dentro da lógica egoísta mesmo, adianta só querer e motivar-se e convencer-se de que o melhor é persistir naquilo que deseja?

Pode parecer pessimismo, mas ao contrário, aprender a desistir é talvez mais sábio que aprender a persistir. Quem vai em busca de um desejo tem que saber que nem sempre irá conseguir e que talvez isso seja o melhor, mesmo que no momento não se possa entender.

Outro dia li um texto de um Lama em que ele dizia que construímos nossas identidades como quem equilibra bambus: sua família pode ser um bambu, seu emprego outro, aquele amor que você acredita ser o ideal outro, o dinheiro outro, e quando você entra em crise, o que percebe é que está cheio de bambus nas mãos e não consegue mais equilibrá-los. Você terá que desistir de algum deles, e em crises realmente verdadeiras, todos eles caem. Porque é do bambu cair. O que fazemos na sequência, na maioria das vezes, é tomar outro bambu nas mãos, só substituímos. Mas vamos imaginar o que seria hoje se abríssemos as mãos e deixássemos todos esses nossos bambus caírem. Como seria nos vermos com as mãos vazias?

Experimente isso por um instante. Você de mãos vazias, sem nenhuma dessas identidades que criou pra se apresentar: oi, sou esposa do fulano. Olá, sou coordenadora de marketing na empresa XPTO. Bom dia, sou homem, sou negra, sou brasileiro, sou solteira, sou mãe do fulano, sou de Libra, …

Como se sente? Sem desejar ser nada, sem desejar ter nada, sem estar em busca, sem a falta que nos move… você não quer mais o que os outros te disseram pra querer, nem o que os outros tanto dizem querer.

Isso, de que muitos fogem se medicando, se motivando, preenchendo o tempo inteiro do dia, isso que permanece quando os bambus caem é você. Você para além das máscaras, você para além do desejo, que há de se reinstaurar, mas por um momento pode ficar suspenso para que você veja o que permanece quando você simplesmente não insiste, não persiste, não resiste.

Para além desse exercício, reflita quantas vezes foi sábio você bater em retirada, desistir de algo ou de alguém. Ter a coragem de admitir que algo acabou, que aquele emprego já não te dava tesão, que aquela paixão não te divertia mais, que aquele sofrimento não valia mais o vinho que você tomava… ter a clareza dos seus limites, ter a honestidade de enxergar que você ou o mundo mudaram.

Desistir de uma convicção dá uma bagunçada no nosso mundo interno, é perder certos referenciais, por isso assusta, por isso é bom.

Então quer dizer que não devemos mais desejar? Impossível, não? Desejaremos e sofreremos as consequências dentro da nossa demasiada humanidade, mas pra brincar a sério é preciso aprender a desistir das nossas próprias ilusões. Pode não se fazer isso à luz do dia, em público, mas lá no silêncio de casa, na solidão livre do nosso quarto, podemos sim dizer: já deu, tô indo, não quero mais. Não preciso esperar uma demissão do trabalho, um término de namoro por whatsapp, uma briga com aquela amiga que não partilha mais o mesmo riso. Não preciso que minha família me jogue na cara que já cresci e tenho que partir. Não preciso que a loja de departamento me mostre que não faz roupas pra pessoas da minha idade.

Eu posso desistir do que já venceu. E contando os ganhos e as perdas, ir embora desse eu que já não serve mais ao meu caminho. Essa roupa já não me cabe. Cresci. Desisto das minhas desculpas, desisto da minha aparente fraqueza, desisto da minha falsa força em manter tudo em seu lugar.

É assunto pra outro texto, mas desistir é fundamental pra sair do Édipo, na visão freudiana. Só encontra o amor quem primeiro desiste dele, dele quando identificado com a figura parental. É preciso desistir pra ganhar. Por isso sábia era Clarice Lispector ao dizer que desistir é uma revelação.

O que irá se revelar se você desistir de algo hoje?

Arrisque-se! Do que você precisa e quer desistir agora?

Desista!

E aguarde o que o Universo pode fazer com esse espaço que você aceitou abrir aí em você e na sua imensa vida.

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