Tecer

Quantos fios soltos tem o seu novelo de vida? Sabe aquelas experiências que você pediu, a vida trouxe e você rejeitou? Pois é desses fios que estou falando. Nós somos como crianças na loja de doces, pedimos facilmente tudo e mais um pouco, e de fato, por colocarmos atenção, a vida nos traz as oportunidades pra vivermos o que desejamos experienciar. Mas tão logo a experiência se mostre, como ela não corresponde à nossa expectativa, ou porque semear não basta, descobrimos que temos que regar, cuidar até que aquela flor nasça, desistimos, viramos sem dó pra vida e dizemos: “ah, não quero mais”, ou pior, “eu não pedi isso não, aconteceu comigo, não sei por que, eu não tenho nada a ver com isso”. A gente chega ao ponto de dissociar nosso desejo da sua própria realização, parece que a vida é uma fatalidade, não mais uma escolha.

E o que acontece com essas experiências abortadas? Você acredita que a energia se dissipe sozinha? Ou será que ela fica em algum lugar em você, ainda pulsando pra se realizar?

Hoje muita gente diz que quer se reinventar, mudar radicalmente de carreira, recomeçar a vida… é típico do nosso tempo, estamos vivendo mais, temos um mundo mais confortável, podemos mesmo escolher mais e de modo mais diverso. Mas o que parece é que pra viver algo novo as pessoas tendem a rejeitar tudo o que já viveram. Parece mesmo que precisamos começar do zero. Existe até um elogio a isso. Mas como começar do zero numa cultura de 2000 anos cristãos? Você pretende ser original num mundo em que os gregos já pensaram tudo? Você supõe possível negar sua aprendizagem familiar? Vai se comunicar em esperanto? Inventar uma nova forma de se alimentar? O que de novo você espera?

Você pode se reinventar, porque na verdade seu corpo tem feito isso e só por isso você continua vivo. Não é bem uma escolha, a reinvenção faz parte da natureza que você partilha com os demais animais, plantas, com o ecossistema que você compõe. Então esse desejo nem é novo, ele é a continuidade, talvez agora consciente, do que você tem feito a vida toda.

E pra se reinventar você não precisa jogar fora o que você tem sido e feito. É uma ilusão, além de ser uma burrice. Você pode ser professor hoje e amanhã trabalhar com plantação de alface. Ok, algum método você usará pra plantar, isso te lembra algo do seu ofício de dar aulas? Ou você nunca preparou uma matéria? Percebe que você utiliza tudo o que vive e aprende? Por isso o novo é a perspectiva, não a matéria em si. E que bom! Pra que voltar pro zero se você já sabe um monte de coisas, já caminhou um tanto?

Agora voltemos aos fios soltos. Tudo o que você desejou ser e fazer está em você de algum modo, porque tudo nos impacta, assim como nós impactamos tudo e todos a nosso redor. Nós somos energia, e isso não é papo de esotérico. Basta ver como você altera o ambiente em que vive e como ele te altera também. Estamos nessa constante troca, somos bem mais permeáveis do que costumamos admitir. Então tudo o que você deseja tem mesmo potencial pra se realizar, uma civilização inteira está construída nisso, nos desejos de alguém que levou até a materialização essa vontade com empenho. O que muitas vezes se dá é que somos bons em semear, mas desistimos diante da primeira minhoca que vemos na terra, diante do primeiro rabanete que não vingou. Desistimos muito e de modo fácil. Mas aquele desejo continua sendo um potencial de realidade. Por vezes vemos exatamente aquele desejo, ideia que tivemos realizado por alguém. Tem gente que pensa que é cópia, mas muitos estão pensando e desejando o mesmo ao mesmo tempo, em algum lugar e momento, isso vai se materializar. E para além da cópia, tem aqueles desejos que não realizamos mas também não liberamos, eles ficam em nós, pulsando e consumindo energia, nem sempre de modo consciente. Por isso te convido a refletir sobre todas as coisas que você desejou e quando estava prestes a se realizar ou em início de manifestação, você rejeitou. Veja o que te fez agir assim, sinta de novo o que você havia escolhido experienciar com aquilo, ou com aquela pessoa. Minha proposta é que você se reconcilie com esse desejo abortado, traga-o pro agora, mesmo que você hoje não queira do mesmo modo, por inteiro, isso na sua vida. Veja o que tinha de essencial ali. Por exemplo, não estou sugerindo que você ligue praquele ex pra tentar um novo começo. É simbólica essa reconciliação, basta que você, para além do ressentimento, reconheça que antes de ser um desencontro, aquela relação foi um bom encontro, desejado por você. Você mereceu aquela relação e aquela pessoa, porque você escolheu essa experiência, não caiu na sua vida feito um coco na cabeça.

E aquele curso que você largou pela metade? Por que mesmo você o começou? Não, não foi um erro, foi um desejo pautado em algum sentimento. O que você queria quando se matriculou? E antes de desistir dele, o que você conseguiu aprender? Não precisa tê-lo transformado em profissão, talvez você use até hoje uma frase que ouviu em uma aula, talvez esse curso tenha te trazido uma boa amizade, que ainda dura na sua vida…

Compreende o caminho? Você pode voltar nas suas escolhas pra reconhecer a motivação delas, a sua motivação diante delas. E não se surpreenda se você encontrar no hoje muito do que você trilhou nesses pedaços de caminho que você considerou erro ou tempo perdido. Eles sempre foram bons porque sempre foram seus. Não, não adianta dizer que fez Contabilidade porque seu pai queria. A gente só faz o que quer, inclusive realizar o desejo dos outros. No mínimo foi uma demonstração de amor a seu pai, então você escolheu fazer essa homenagem. Você escolheu sempre, tudo, inclusive o que depois você julgou errado. E é aí que mora o nó do novelo: você julgou, e por isso rejeitou sua própria criação. Seus parâmetros de escolha podem ser diferentes hoje, podem mudar sempre, ok, mas uma escolha nova só tem lugar numa alma reconciliada com seu passado. Faça as pazes com quem você foi e tem sido, orgulhe-se das suas escolhas, não se julgue pelo que resultou da experiência, sem ela você não teria essa percepção. Isso é aprendizagem! É normal que a gente veja as coisas como são por dentro e daí perca o encantamento, mas elas sempre foram o que já eram. O problema não está nas coisas, nem nas pessoas, está na sua perspectiva. Se você viveu a experiência e a partir dela mudou a perspectiva, ótimo, seguirá pra outra experiência, mas não rejeitando esta, e sim, integrando-a. Caso contrário, esses fios soltos ficarão te chamando de volta. É como jogar fora pratos descartáveis e fingir que não está construindo um aterro. O aterro está lá, crescendo a seus olhos, e você fingindo que agora é saudável e reutiliza pratos. O aterro é seu, se você o construiu. E quando você reconhece isso, pode construir uma composteira, uma cooperativa de reciclagem, você pode transformar o aterro na sua melhor força de criação.

Isso é o que fazemos com as dores, com os supostos erros, porque passamos por essas experiências marcantes é que viramos amor. Pelo menos esse é o amor humano, porque como me ensinaram um dia, o amor não tem limites, mas a gente tem. E quando nos espantamos com os limites das experiências e por isso as rejeitamos, estamos na verdade rejeitando os nossos limites. É uma decepção que temos não conosco, mas diante do nosso ego idealizado. Às vezes você sonha que ser bailarina é lindo, mas com que bailarina você sonha? Com a que está no palco, linda, dançando o Lago dos Cisnes. Daí você se matricula no balé e não demora muito pra sentir nos pés o peso da sua escolha. Essa é a bailarina real, que um dia vai sim dançar no palco, mas pra isso, no dia após dia, ela sente os pés que doem até transformarem essa dor no amor de uma dança.

Você está compromissado a transformar sua dor em amor? Seu desejo-semente em flor desabrochada? Faça chuva, faça sol? Senão, aprenda, nem semeie. Cuide daquilo que escolhe semear, porque você nasceu numa terra em que tudo dá! Quando você deseja, o mundo se apronta. Quando você se dispõe, as pessoas contam com você. Quando você se compromete, alguém, em algum espaço de consciência, está botando fé em você.

Então minha sugestão é que você, sem pressa, reveja suas escolhas passadas, reconheça sua autoria nelas, não importa o que outros tenham feito, reconheça sua parte, é de você que estamos falando. Honre essas escolhas sem julgar, agradeça, retome aquelas em que você ainda sente desejo pulsante, encerre aquelas que já te deram tudo o que podiam.

E assim, com o terreno arado, você naturalmente, com o dom de criar que lhe foi dado, semeará novas escolhas, numa terra fértil, prontinha pra receber seu desejo e compromisso.