SELMA

Minha ansiedade se chama Selma.

Selma e eu saímos para passear outro dia e acabou acontecendo algo que não devia acontecer. Fazia tempo que não tínhamos grande problemas. Nós duas estávamos num relacionamento exemplar. MARAVILHOSAS! Não digo que eu era feliz com a Selma, mas ela não me incomodava fazia algum tempo e por isso estava tudo bem.

Estava tudo bem até esse dia aí que saímos para passear.

Eu não a convidei, e também não quis mandá-la embora. Confesso que não me esforcei pra esconder meu descontentamento com a presença dela. Ela é do tipo sensível! E a todo momento - TODO MOMENTO - queria me chamar num canto para tirar satisfações.

É fácil ignorar Selma em público.

Até ela começar a ser insistente.

“PORRA SELMA!” Eu gritei.

Não sei se ficou claro, mas só eu vejo a Selma.

As reações ao redor foram as mais variadas: gente boquiaberta, balançando a cabeça, rezando e girafas.

Selma começou a gritar comigo de forma estúpida. Dizendo que eu não deveria estar ali e que eu era uma vergonha ambulante! Vergonha ambulante? Ah! Maldita Selma. Eu gritei de novo e gritei com muita raiva.

“Não sou merda nenhuma do que você tá falando”, eu repetia.

“Quem?” Era o que os rostos ao redor pareciam se perguntar.

Selma mudou de completamente irritada para demonicamente enraivada. Seus olhos pareciam estar em chamas. Eu suspirei. Aquele drama todo não me atingia mais. Uma lágrima ousou aparecer, mas com muita autoridade não permiti que escorresse. Me vi num campo de batalha onde Selma era minha inimiga principal. Vestíamos roupas de guerra. Selma sempre brega e eu… Eu também. Empunhávamos espadas.

Franzi o cenho.

Selma mostrou os dentes.

Corri em direção à Selma. Selma correu em minha direção. Minha habilidade com espadas é limitada. Na verdade sou ridícula com espadas, então Selma atingiu meu braço esquerdo e eu só consegui tirar alguns milímetros da pena rosa que enfeitava seu capacete. Com o ferimento levantei com dificuldade. De pé, olhei ao redor e percebi que estávamos no mesmo campo de batalha, mas agora a decoração era futurística com LEDs coloridos e lasers. Nós duas estávamos vestidas com um preto básico e armadas com algo de alta tecnologia que eu não sei definir. O funcionamento da arma parecia ser como o de um revólver.

APONTEI!

Repetimos a corrida uma em direção da outra. Em câmera lenta. Pulei despretensiosamente e lancei minha bota de couro contemporâneo na mão em que Selma empunhava sua arma. Com o golpe ela deixou o objeto cair no chão. Seu tom de voz mudou, ela parecia estar perdida.

Fitei-a.

“SELMA ESTÁ TUDO TERMINADO ENTRE A GENTE!!”

Eu tremia.

Apertei o gatilho.

Aquilo parecia um aspirador portátil. Sugou Selma para dentro dele e toda a poeira ao redor foi junto.

Assoprei a ponta da arma.

Guardei-a no bolso.

Ainda escuto murmúrios de Selma vindo de dentro da arma e tento não dar atenção.