Domingo ainda era carnaval

Foram três mortes num dia só. Dois morreram com a hipocrisia bem apertada em volta do pescoço, e a outra com um tiro na cabeça. Foi necessário muito mais que um maço de cigarros pra me fazer esquecer tudo, e algumas doses fortes de vodka me fizeram lembrar que eu havia apostado todas as minhas fichas na história de amor errada.

O bondinho desceu a ladeira numa quinta-feira à tarde; as crianças brincavam de cirandinha no final das ruas de Olinda, e eu estava preparada para pular. Meu coração me pedia pra ficar mais um pouco, e meu cérebro implorava para que eu me jogasse logo daquele bondinho. Então pulei. Foi uma quinta-feira de puro pileque e lágrimas. Acho que sofri o suficiente por um ano inteiro, e o meu só estava começando.

Voltei para casa jurando que não passaria por aquilo de novo, mas na sexta lá estava eu, apostando todas as minhas fichas, novamente. Algumas pessoas são simplesmente sadomasoquistas quando se trata de sentimentos, e olha que meu signo nem permite esse tipo de bobagem. No sábado, de olhos inchados, percebi que era hora de parar de brincar de roleta-russa e simplesmente atirar.

Domingo ainda era carnaval, a criançada que brincava de ciranda estava fantasiada, minha Olinda banhada em ouro com os raios de sol, e meu corpo e alma em paz. Enquanto o frevo tocava, percebi que não valia a pena persistir no mesmo erro, se a lição já havia sido aprendida. Sadomasoquismo sentimental não está com nada, e existirão novas aventuras para viver e novos erros para cometer, assim que o sol começar a nascer. O que importa é tirar uma boa lição de cada tragédia que acontece. “O que importa é o quão bem você anda sobre o fogo”, já dizia o velho Bukowski.

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