Os esmeros de Leonor: da seara, ao urbano
Numa manhã de quinta-feira, Dona Zozó conta a sua trajetória de vida
Texto e fotos: Éverson Costa
Dona Zozó: senhora de 85 anos, aniversariante do quinto dia de fevereiro, nascida em 1934, a rebenta mais jovem das 4 mulheres e 8 homens do seu pai, Antônio Romão Caldas, e sua mãe,Clotildes Nunes Caldas, tia de aproximadamente 30 sobrinhos, mãe de 9 filhos. Sim, os números não são baixos em nenhum aspecto, porém são bússolas para entender uma matriarca como Dona Leonor Caldas de Matos, o nome que consta em sua certidão.
Autoridade talvez não seja a primeira característica relacionada a alguém que peça dinheiro a seu marido, mas essa afirmação vai mudar sua concepção: “e quando eu pedia dinheiro a João, se ele [alguma vez] me perguntasse o que eu ia fazer com ele, eu ia ‘rumar’ na cara dele” Com humor e convicção de suas palavras, Dona Zozó expõe sentimentos que sempre estiveram presentes em si, mas agora, com o passar do tempo, são trazidos à tona após uma vida repleta de experiências vividas com seu marido,o João, filhos, e confidentes. Ela diz isso com graça e afronta, mas toda a sua blindagem é esquecida no momento em que recorda a sua história de vida e o amor por sua família, que se tornou intrínseco de sua personalidade.
Ela também é filha de Amargosa, município baiano localizado a 235 quilômetros de Salvador. Mas a capital se tornou seu novo lar após a sua migração. A história de Amargosa inclui um passado em que os índios Baitinga tinham tribos no local, porém a sua herança familiar não tem ligação com esse fato, ela alega que os pais são naturais das chácaras desse interior. Neste momento, ela descansa a mão no apoio da poltrona em que está, e sente-se saudosa em relembrar a terra natal. As suas lembranças são sobre as plantações espalhadas por todo o município — as principais eram as de mandioca e café — inclusive a sua família era integrante do ramo.
Mas, a sua memória sobre molecagens feitas pelos campos da cidade na década de 1940 traz gargalhadas: “A gente aprontava na roça, viu? Iam várias moças e rapazes para o rio. Íamos juntos, mas nossos pais não sabiam disso, pois era tarde da noite. O que assustava a gente mesmo, era quando os meninos ficavam imitando lobisomens dentro da mata’’.
A filha de Amargosa
Amargosa não somente representava o lugar de trabalho, nas casas de produção de farinha e beiju, comida típica do interior baiano feitas com a mandioca, mas também de diversão: “a gente fazia de tudo na roça”.
Lavrar, organizar, peneirar. Essas eram práticas comuns para conseguir tratar, com esforço, a mandioca. Quando o relógio marcava 4 da manhã, a jornada se iniciava. Já que saia cedo, retornavam cedo, né? “Oxe, era o dia inteiro fazendo farinha”, adverte Leonor. O penoso trabalho diário era feito assim: primeiro, peneirava a massa; depois, retirava do forno, que funcionava à lenha; e para finalizar, os beijus eram montados e preparados para a venda. A partir daí, vinha mais uma etapa, aos sábados, era preciso levar a mercadoria para a feira: “ Meu pai fazia as cargas de farinha, carregava dois ou três burros para [seguir rumo a] Castro Alves”. Essa outra cidade do interior baiano está a quase 40 quilômetros de Amargosa, mas valia a pena fazer o percurso pois “lá a farinha era vendida mais cara”, conta. E como essa era a principal fonte de renda, os burros tinham que sofrer com o peso, não importava a razão.

Demonstrando responsabilidade, ela continua relatando que todo o serviço não era exclusivamente feito pela força de pais e filhos. Além da seara de mandioca, havia a de café para cuidar “e uma quitanda”, ela completa. Justamente pela grande demanda, seu Antônio, o pai, tinha muitos funcionários trabalhando consigo. Porém, uma das formas de pagamento considerada benevolente, na opinião do líder da família, era liberando comida ,após o serviço, de acordo com a quantidade de grãos coletados e higienizados por trabalhador, ou seja, era preciso muitas horas de esforço para receber o bônus.
Seu pai nunca soube dessa travessura
Entretanto, Dona Zozó discordava dessa rigidez, e desafiava esse aspecto truculento do pai. Nesse momento, ela se agita no seu assento e se lembra de mais essa façanha da juventude: “Minha mãe não estava em casa, e eu fazia isso escondida…Eu pegava pedaços enormes de carne do sol [que teoricamente eram para ser vendidas na quitanda da família] e jogava na brasa. Aí eu enchia uma bacia de 5 litros de farinha e, quando ninguém estava observando, eu distribuía para os funcionários”. Isso era considerado um banquete para o povo amargosense.Entretanto, o pai de Zozó ficava sem compreender a situação, pois ele usava a comida como forma de instigar o recolhimento de grão, mas isso não estava trazendo bons lucros como antes, pois a filha ludibriava o próprio pai com o privilégio que tinha. E, o pior: seu pai nunca soube dessa sua travessura.
Desobediência não fazia parte da vida de Leonor, mas ela brada em conseguir triunfo sobre o egoísmo do pai: “nós fomos criados com fartura, não tinha nada de mais compartilhar”. A sua traquinagem, caracterizada por uma preocupação sincera, rendeu o início de uma amizade com Donana, uma das auxiliares da seara. Donana achava o nome Leonor complicado, por isso resolveu apelidar a menina de Zozó. Logo se tornou popular e todos passaram a lhe chamar assim. Oficialmente, “virei Zozó”, gargalhou.
Essa fase da vida de Leonor é o princípio de uma trajetória na qual as suas raízes podem ser usadas como base para se fundamentar como mulher lida através de afeição, inquietude e até mesmo força diante de problemas da vida.
Embora fosse um sonho de muitas jovens dos anos 50, o casamento nunca foi considerado uma ocasião de suma importância para D. Zozó. Mais uma vez, em tom de riso, ela ironiza a própria situação ao relembrar como a história de se casar com João, que posteriormente seria seu marido, começou em uma roda de amigos. “Eles haviam acabado de me contar que João havia retornado de Salvador, e falei de molecagem: vou casar com João!”
Uma vez que ela aceitou a ideia do matrimônio em si, os seus sentimentos começaram a mudar. João e ela nunca namoraram, mas se aproximaram no período de três meses antes do casamento. Poderia ser um casamento arranjado, mas na verdade foi por vontade própria. Felizmente,o seu pai jamais lhe obrigaria a viver tal situação. Em um curto intervalo de tempo, Leonor percebeu que João realmente era o homem a quem amava, e associado a isso um fascínio: acompanhá-lo para uma vida extraordinária em Salvador. A capital lhe atraiu porque aspirava independência de vida e chances de florescer com novos laços.
João Rodrigues de Matos Nunes, o nome do homem que marcou a vida de Zozó. Isso é tão autêntico, que até hoje exibe as alianças em seu anelar da mão direita. A dela, já está gasta por causa da velhice, mas a sua finura lhe dá ainda mais gosto em usar: “são 64 anos”, ostenta ela. A dele, apesar do tempo, ainda permanece em espessura original e com seu nome completo gravado, ela tem prazer em usar na mão como um legado.
Nova etapa de vida autônoma
O município de Salvador estava em intenso processo de industrialização na década 60, fato que trouxe um grande fluxo de pessoas migrando do interior em direção à capital. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1950 a população era de quase 420 mil habitantes, mas 20 anos depois saltou para mais de 1 milhão de moradores. A maioria estava em busca de qualidade de vida (finanças, saúde, oportunidades). Leonor também procurava por isso ao decidir ser uma migrante, mas a sua situação tinha um fator distinto: seu coração almejava uma nova etapa de vida autônoma — apenas ela, o marido, os futuros filhos.
Inconvenientemente, o desencanto com “a vida melhor” no ambiente urbano lhe golpeou fortemente. Enquanto no interior vivia em um casarão, ela conta que em Salvador estava enclausurada em um quitinete no bairro do IAPI e mesmo após se mudar para Dom Avelar — bairro suburbano localizado no norte de Salvador — nada melhorou, segundo ela. Ao mesmo tempo que, em Amargosa, a abundância de comida era a rotina, na metrópole nem sempre tinha condições de guarnecer a dispensa. Em sua terra natal, a jovem Leonor tinha responsabilidades mínimas comparadas aos novos desafios de sua liderança da casa: lidar com pouco dinheiro, casa pequena e estabelecimentos distantes. Além de tudo, o casal, no mesmo ano, teve a primeira filha — mais uma boca para sustentar. E aflições foram surgindo, pois embora ela tivesse a oportunidade de trabalhar, não podia, já que precisava ficar em casa para cuidar de Antonieta, sua primogênita. Assim, o único trabalhador da casa era o esposo, João. Homem laborioso, mas o seu emprego no setor da limpeza pública não rendia muito. Em momento algum desamparou a família, porém, passaram por diversas dificuldades.

Na casa de Dom Avelar, os seus relatos falam de um péssimo sistema de água — nos dias que funcionava — ,saneamento básico ruim e poucas possibilidades de transportes. Naquela época, a maioria dos bairros periféricos de Salvador eram assim. Mas, as aflições se tornaram suportáveis porque Leonor colocava as suas esperanças na família que estava gerando. O amor do seu esposo e de Angélica, Acilene, Alcione, Aleonora, Ancelmo, Ariston , Antônio e Vaneza, filhos nascidos entre a década de 70 e 80, e lhe ergueram. Os seus rebentos davam ânimo para ser essa chefia na família. Ela tinha o estímulo mais genuíno possível: zelar pela sua família com boa saúde, boa alimentação, boa educação — e é vitoriosa por cumpri-lo. “Quando a gente é mãe, a gente deixa até de comer”, relata.
Finalmente, o marido de Leonor conseguiu uma oportunidade de emprego melhor e isso mudou a realidade da família. Foi a década da prosperidade. Ele começou a sua carreira em cargos públicos: o seu primeiro posto foi de Fiscal Municipal, a sua função era fiscalizar os órgãos e serviços oferecidos pelo município. Trabalhar na Câmara de Vereadores de Salvador foi uma grande mudança em todos os sentidos. Isso implicou diretamente em mais qualidade de vida para toda a família. Eles puderam equipar a casa quanto ao funcionamento e tratamento da água, aumentaram o tamanho da casa, que passou a contar com 3 quartos com camas super confortáveis, uma sala de estar ampla, cozinha bem equipada com diversos tipos de eletrodomésticos, área de serviço grandiosa,compraram móveis melhores. Ela conta que todos passaram a ter conforto e a, de fato, se sentirem em um lar depois disso.
A última ironia se aproximava
Faz duas décadas que João faleceu, mas cada detalhe de sua morte permanece vivo na memória de Leonor. Era início de noite, após a hora da janta, Leonor estava no sofá quando João se reclinou no colo dela pra descansar. Repentinamente, ela sentiu a garganta dele com muita febre, mas ele negou que fosse algo sério. “Deve ser alguma gripe, abestalhada”, disse ele saindo do seu aconchego e indo em direção à cozinha. Essa viria a ser a sua última ironia, porque minutos depois, exclamou: “Me ajuda que eu tô morrendo!”. Quem lhe acudiu foi Ariston, seu filho. Prontamente, colocaram João no carro, tinham a intenção de ir ao posto de saúde da vizinhança, mas a 15 metros da casa ele faleceu dentro do próprio carro. Esse foi um momento de muita dor, pois ao chegar no hospital foi ela quem precisou ser internada. Ela havia desmaiado, e só pode retornar para casa no outro dia de manhã para realizar o funeral.

Hoje, 28 anos depois, quando questionada sobre a saudade do esposo se mostra muito relutante em responder, mas desabafa em poucas palavras e seguidas de um silêncio angustiante: “eu sinto bastante falta de João”. João representava o mundo para ela. Eles não somente guardavam uma relação de marido e esposa, mas, acima de tudo, eram bons amigos.
Embora essa mulher tivesse um forte vínculo com o marido, a sua vida não parou. Continuou a cuidar da família e os netos e sobrinhos passaram a ter sua completa atenção e não parou de visitar a família no interior. Ela se manteve em seus afazeres.
Uma das formas que Leonor mais gosta de se ocupar, é cozinhar. Fazer ensopado de porco foi um costume que começou no interior, mas por conta de cuidados com a saúde, atualmente é raro prepará-lo.
Culinária é uma das maiores saudades que ela sente do interior. Zozó amava ‘moqueca de galinha da terra’, preparava com a galinha criada no quintal de casa e azeite de dendê. Quanto aos doces, se lembra que era apaixonada por cocada, quitute de coco, e também adorava doce de leite. Inclusive fazia uma mistura inusitada: “eu pegava caldo de cana e misturava com mel”. Na opinião dela, era pouco adocicado, mas quando era jovem jamais pensou nas consequências disso. “Naquele tempo ninguém sequer pensava em diabetes”, desafia. Naquela época, o comum era se alimentar de coisas que não tivessem interferência de produtos químicos. Ela menciona que os irmãos sempre traziam “tatu, cotia e teiú”, esses animais selvagens eram os mais procurados durante a caça e também os mais saborosos; todos de sua família se deleitavam com essas carnes.
“Eu venci na vida com o amor”
Apesar de amar muito e sentir falta da terra natal, ela não se vê disposta a retornar. “Se não fossem meus filhos, eu voltava para o interior”, diz ela. Os filhos sempre foram sua inspiração, isso é reforçado pelo cuidado deles com a mãe. Ela explica que o zelo é tamanho que Alenora, mesmo morando na região metropolitana de Salvador, faz questão de ir 2 vezes por semana limpar sua casa. Já Antonieta, embora tenha sua própria família para cuidar, frequentemente dorme na casa da mãe, sendo a única filha a ainda ter um quarto na casa. Ariston, por exemplo, sempre liga para desejar uma boa noite antes dela dormir. Sem contar os outros inúmeros mimos dos filhos.
Leonor semeou amor, logo, por todos os lados, os seus frutos são esses.
Ter esmero em todos os seus relacionamentos consumou no que hoje é uma deslumbrante história, família e legado.
“Eu venci na vida com o amor”, arremata.
