i’m a 90’s kid

eu sou uma criança dos anos 90. na verdade, nascida nos anos 80, mas a maior parte da infância vivida nos 90’s. morando na periferia de uma cidade pequena. com pais evangélicos e pobres. foi em algum momento dos anos 90 que eu comecei a perceber que era ‘diferente’, aquele papo todo. tinha mais interesse em brincar com meninas, o interesse por meninos era de outra forma. era algum tipo de admiração, não lembro exatamente.

nos anos 90 não existia nenhum referencial positivo de homem gay, então não tinha um modelo onde se apoiar. ou pelo menos eu não conhecia nenhum. eu falo isso quase me sentindo um veterano de stonewall. cazuza na capa da veja. aids era doença gay. sim, anos 90, apesar de menos do que na década anterior, ainda existia essa associação entre homossexualidade e aids. se hoje ainda existe, imaginem vinte anos atrás.

então além de não ter um referencial positivo de homem gay, de ouvir o tempo todo que ser gay significava morrer de aids, que aids era punição divina a homossexuais, a única pessoa mais próxima de um gay que conheci era um primo, que frequentava minha casa com muita regularidade, que morreu em decorrência da aids e justamente por isso diziam que era gay. ele era casado com minha prima, que morreu no mesmo mês que ele, com diferença exata de uma semana (sim, ele morreu num sábado e no sábado seguinte ela).

em casa não se falava abertamente sobre sexo, sexualidade, prevenção de DSTs, nada disso. talvez porque, sendo evangélicos e conservadores, nunca pensassem que na adolescência eu já estaria iniciando minha vida sexual e considerassem que eu só fosse transar depois de casado, and all that jazz. mas não, iniciei minha vida sexual sem nenhum modelo positivo de homem gay, de sexualidade gay, de sexualidade gay saudável, de sexo seguro gay ou de qualquer sexo.

ao longo de toda minha adolescência eu passei no armário, tendo a certeza de que tinha aids e sem poder nem ter para quem contar. obviamente não poderia contar aos meus pais: oi mae oi pai talvez eu tenha aids e sou gay. então eu lidei sozinho com a certeza de que todos os discursos estavam certos e que eu era só mais um na fila da inevitabilidade. por anos a fio. eu continuei fazendo sexo e no armário, até mesmo pra mim eu nunca dizia ‘eu sou gay’, apesar de saber que era sim.

tem uma situação que hoje eu acho um tanto patética. entre 15 e 16 anos, no grupo de oração de jovens na igreja, passei cerca de duas horas ajoelhado, chorando e orando, perguntando pra deus o porque eu não conseguia ser normal, qual era o problema comigo etc. essa foi a situação que me fez começar a acreditar que talvez não haja ninguém ouvindo. e se ouve escolhe ignorar. esse foi meu rompimento com a igreja também.

tudo foi pelos ares no fim da adolescência e início da vida adulta, quando precisei fazer um exame de sangue para hepatite e a mulher que me atendeu no centro de testagem pediu que minha mãe se retirasse da sala, procedimento comum, para fazer a entrevista sobre parceiros sexuais. foi quando ela incluiu um teste de HIV. todos os anos de certeza e medo, aquele peso todo, foram varridos dos meus ombros quando recebi o negativo [hoje, conhecendo sobre tratamentos e tudo o que já li sobre o assunto, que não é grandes coisa, eu receberia um positivo de uma maneira muito diferente de 8 ou 10 anos atrás].

durante praticamente toda a minha vida eu “convivi” muito próximo [ou eu pensava que estava] da aids e isso deixa marcas, obviamente. a minha geração teve a sexualidade fortemente influenciada pelo pânico moral causado pela aids. a forma que eu achei pra lidar com isso foi ler sobre o assunto. tornou-se terapêutico pra mim. talvez seja sobre um dos assuntos que mais gosto de ler.

hoje, quando eu olho pra trás e vejo tudo isso, eu percebo que apesar das marcas todas eu me saí muito bem. o eu de hoje diria para o eu dos anos 90 aguentar firme que tem muita pedrada pelo caminho. o eu dos anos 90 certamente escolheria com admiração o eu de hoje como um referencial de homem gay.

[ps.: eu falei em ‘morrer de aids’, ‘ter aids’ etc, também sem diferenciação entre aids e hiv, porque era como eu ouvia os discursos]

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.