Trintei

Passei a vida inteira ouvindo sobre a assombração da meia-idade (e 'no meu tempo', isso significaria chegar aos 30 anos idade). A meia-idade seria o pico da montanha, um divisor das águas da vida, onde a vista poderia ser a mais bela de todas, mas qualquer passo a frente seria inevitavelmente na direção mais conhecida como ladeirabaixo, assim tudo junto mesmo, via de mão única, sem espaço pra retorno, sem freio, sem choro. É fato, e as estatísticas de expectativa de vida me dão cobertura, que o conceito de meia-idade já não é o mesmo. Trinta anos e estamos, via de regra, longe da metade das nossas vidas.

Sim, eu sei, se formos analisar boa parte da população brasileira que vive às margens do que consideramos ser a sociedade, principalmente os mais pobres, os negros, os invisíveis, talvez o conceito antigo de meia-idade esteja mais do que atual, talvez não só atual, mas otimista também. No meu caso, permitam-me ser um pouco mais pessoal, porque o motivo desta primeira fala é simplesmente pra dizer que: hoje eu cheguei lá! Seja lá a meia-idade, seja lá simplesmente os 30 anos, o início de uma nova década ou apenas mais uma idade qualquer. Fato é que quando a gente cresce com essa mística em torno dos 30, não há forma de simplesmente ignorar. Tanto não dá para ignorar, que foi a data escolhida para voltar a fazer algo que há tempos não fazia e que há tempos eu amo fazer: escrever. Resta saber se essa nova idade me dará determinação para continuar, ou se foi uma chama solitária no meio de toda a brasa que, aos poucos, se apaga.

De antemão, me desculpo por erros de português, concordância, nova ortografia (oi?)... Como diz a minha bio, eu sou apenas um engenheiro que ousou escrever. É minha obrigação moral (e profissional) ter mais destreza com os números do que com as normas ortográficas, embora um bom português cairia bem em qualquer profissão. Enfim, diz a lenda que engenheiro não sabe escrever e me serve muito bem de escudo sempre que algum deslize acontecer. Sigamos assim.

A verdade: eu estou longe do topo da montanha, a vista não está tão bela assim e eu acredito que qualquer passo a frente nunca será limitado a apenas uma direção. Chegar ou não sequer me parece importante, mas o objetivo é o de ir o mais alto possível, enquanto for possível. Algumas, não poucas, frustrações me acompanham nessa data. O Éverton de antes via esse Éverton mais velho como alguém minimamente estruturado na vida. Nada de exageros, fortunas, felicidade plena, nada de excessos, apenas encaminhado: com uma linha sólida a ser seguida, com estratégias montadas para o percurso dessa linha e, principalmente, sabendo exatamente onde essa linha iria me levar.

Outra verdade: minha vida nessa meia-idade fajuta mais se parece com os vários livros que tenho espalhados pela casa e que aguardam pacientemente pelo dia no qual eu vou, finalmente, terminá-los. E eu quero muito terminá-los, e eu prometo a mim mesmo que vou terminá-los e prometo a eles também, e aos seus personagens - e eu me apego tanto a esses personagens - e aos tantos novos que quero comprar, porque estes sim eu vou terminar. A vida são esses livros e eu sou eu mesmo, tentando decidir pra que lado ir, enquanto ela me espera logo ali na esquina. A tarefa de decidir um caminho só se torna mais complicada quando a gente sequer consegue enxergar as bifurcações que deveriam estar logo ali na frente, claras e devidamente sinalizadas.

Talvez eu faça parte de uma geração que viveu em cima de expectativas e hoje precisa sobreviver à realidade. Porém é cômodo demais encarar os problemas como sendo parte de um coletivo. Afinal, combater sozinho um estado coletivo não é coisa mais esperta a se fazer, é o tipo de luta que já nasce perdida. Embora na minha percepção do mundo eu encontre ecos a cerca do fato de que essa sensação de não saber pra que lado correr pertença a boa parte da minha geração, eu prefiro assumir responsabilidade e não me acomodar com alguma situação que possa aparentemente ser maior do que eu.

Entre crises políticas, econômicas e de representatividade, provavelmente a crise mais urgente seja mesmo a pessoal, cabendo a cada um de nós se apossar da própria vida, abrir os caminhos e sinalizá-los para, enfim, poder vê-los logo à frente. Nos ensinaram a procurar e seguir caminhos que supostamente já estariam ali a nossa espera, ao invés de nos ensinarem a construir novas estradas que nos levem para onde quisermos e não para lugares pré-concebidos. E talvez esta seja a raiz da minha própria frustração e da inércia de tanta gente ao redor.

Trintei. Sinto saudades de coisas que perdi no caminho, orgulho do que aprendi e ansiedade frente ao que ainda está por acontecer. Minhas expectativas já não são as mesmas que um dia foram. Hoje eu só quero uma boa noite de sono, um tempo pra assistir minhas séries favoritas, me manter saudável, planejar minha próxima viagem, um dinheiro extra para que eu possa planejar minha próxima viagem, ver o Grêmio tri da Libertadores, um abraço apertado da minha mãe, a alegria da Yuna quando me vê chegando depois de tanto tempo sem me ver e, finalmente, decidir qual livro terminar primeiro. E terminá-lo.

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