WILSON

Uma noite. Uma festa. 3 horas da manhã. Frente de fábrica. 3 de março de 2013. 5 coisas, e uma relação entre si gigantesca para mim.

Mas vamos ao começo, até porque toda boa história começa do início. 1° dia de aula, escola diferente, sensação gigantesca de exclusão e de deslocamento. Vivia apenas de escrever o conteúdo das aulas no caderno e de dormir. Alunos já entrosados, pois todos eram provenientes da mesma escola.

Hora do intervalo. Todos os garotos e garotas corriam desenfreados em direção da cantina. Menos duas pessoas: Eu e Wilson. Wilson da Silva Cardoso, garoto proveniente de Campo Grande (mesma cidade em que eu nasci, mas isso é história para outro dia), morador de periferia, mas por decisão dos pais, ele começou a estudar em escolas mais proximas do centro. Algo dentro de mim mesmo disse que ele seria um cara legal de se conversar.

– Essa escola é sempre correria?

– Você não viu nada ainda, mano

Sim, foi uma conversa totalmente besta, mas foi nesse momento que eu descobri que eu ganhei um grande amigo.
Dias passavam, e a amizade ganhava cada vez mais força. Futebol 9 horas da manhã? Claro que eu vou! Churrasco fim de semana em casa? Conta comigo! Olhar seus cachorros enquanto ele ia buscar a irmã na escola? Sem sombra de dúvidas!

Era cada vez mais nítido o quanto eu e ele éramos parecidos. Brincadeiras, problemas, lugares, tudo isso ele estava ao meu lado. Uma das melhores lembranças que eu tenho é o fato de todo o dia ele trazer 3 bolovos em um pote de sorvete. Bolovo, para quem não é paulista, é um bolinho de carne com um ovo cozido no meio. Segundo sua mãe, era "para cortar os gastos e economizar". Dia após dia, até o final do período letivo, éramos eu, Wilson, a iguaria de bar e uma boa conversa (inclusive, eu o apelidei de bolovo).

Fim do ano letivo. Minha mãe decide morar em Charqueada. Você sabe que está indo para um buraco quando a decisão é de morar em uma cidade que é do interior de uma cidade de interior. Foi complicado; Abandonei tudo o que eu tinha em Piracicaba por questões econômicas. Mesmo com tudo isso, como um bom irmão e conselheiro, ele conversava comigo todos os dias via MSN. Me senti deslocado por longos 6 anos, e todo meu tempo livre eu passava discutindo de como as pessoas da minha escola eram fúteis, ou de como ele estava de saco cheio dos seus professores. Como bons amigos. Como irmãos.

Começo do ensino médio, meus pais decidem voltar à Piracicaba para iniciar meu curso e o ensino médio, devido a longa distância entre as duas cidades.

Início de aulas, felicidade total: Wilson estava na mesma escola que eu. Tudo ao normal novamente, talvez até nos eixos. Nada poderia ser melhor que isto.

Porém, essa é a parte engraçada da vida. Quando tudo se encaminha pra felicidade, acontece algo que te derruba.

2 de março de 2013, 21:40. Uma ligação. "Vamos pra uma balada?" "Claro! Passa aqui me buscar!". Fomos. Não estava tão legal assim pra falar a verdade. Esta festa foi constituída em amendoim, cerveja e uma roda de amigos.

3 de março de 2013, 02:00. Saímos. "Eu te levo embora, ja tá tarde." "Não esquente comigo, pode ir". Fui. Porém fui com um nó na garganta, prevendo desgraça. E ela aconteceu.

3 de março de 2013, 04:40. Inúmeras ligações de um número desconhecido. Atendo. A notícia me dá o ar do choque: "Everton, aconteceu uma tragédia, o Wilson foi baleado e não resistiu. Eu sinto muito.". Meu mundo desabou, literalmente. Perdi tudo o que eu tinha. Perdi meu melhor amigo. Perdi meu irmão.

Hoje, com 18 anos, eu levo seu apelido comigo. Mais que um apelido, um estilo de vida. Com intensidade. Independente de onde ele estiver, acredito que ele esteja em algum lugar muito melhor, jogando conversa fora com alguém, comendo um bolovo e me desejando o melhor. Não tive a oportunidade de me despedir. Jamais terei a possibilidade disso. Cabe então a minha missão de carregar esse apelido. Com honra. Com dignidade. Com respeito. Como ele sempre levou.

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