Víboras no estômago

Essa e outras histórias escutei nesse encontro improvável…

…com esta senhora que me esqueci o nome, mas cujo encontro, ah, esse eu não vou esquecer.

Estávamos eu e uma amiga francesa na Ilha do Sol, fronteira da Bolívia com o Peru, buscando um dos últimos sítios arqueológicos que o mapa apontava, a chamada Pedra Sagrada. Depois de muito buscar nos apontam pra entrar em uma propriedade privada.

Seguimos e nos aproximamos do que pensávamos que poderia ser a tal pedra e avistamos uma senhora sentada no chão, com uma vaca amarrada próximo e um cachorro; estava debulhando uma semente parecida com feijão. Perguntei a ela o que faziam na pedra, e aí ela me encantou com o que contava, sobre a pedra e mais ainda sobre sua vida.

Na pedra, diz a lenda, eram sacrificadas virgens para o deus sol, além de enforcamentos dos que não cumpriam as três leis da ilha: não roubar, não mentir e não matar. Ao lado estavam as ruinas do templo do sol e da lua, onde as mesmas virgens pediam ao deus sol e deusa lua por bons casamentos.

Ela me conta de uma ilha mágica, cheia de lendas e espíritos. Me conta também de sua vida sofrida, suas bebedeiras e seu marido honrado. Ainda quando pequena, sua mãe a levou pra viver em La Paz. Mendigavam e eram alimentados com cascas do lixo. Não a podendo mais criar, ela é dada pela mãe a uma “chola”, tradicional mulher campesina do país. Apanhou e foi abusada pelo padrasto, e quando me contava essa parte suspirava.

Essa etapa passou e ela conheceu um marido que a levou a viver na ilha. Tiveram seis filhos. Seu marido tinha morrido faziam seis meses de uma causa desconhecida e, segundo ela, foi enterrado com honras por ser muito querido por todos. Me contou, com direito a sons e mímica, de uma ocasião em que estava doente do estômago e seu marido recolheu várias víboras, arrancou suas línguas e a fez engolir. Ela se deitou na relva, se cobriu e as cobras saíram, a curando pra sempre.

Sem vergonha também me contou das vezes que apareciam autoridades na ilha e ela andava por aí bêbada e feliz, nas festas locais.

No final da conversa pedi uma foto, mas queria de verdade um abraço.

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