A CORAGEM RECUSA A HUMILHAÇÃO — II

A LÁGRIMA SEMENTE DOS GUARANI KAIOWA

Texto e fotografias de Rogério Ferrari.

Kunumi Verá, Julho 2016

Clodiôde Aquileu da Silva, de 26 anos, Kaiowa da aldeia Te’y Kue no Município de Caarapó, foi o mais recente Kaiowa assassinado pelos fazendeiros do Mato Grosso do Sul. Tombou no dia 14 de junho, dia seguinte à retomada do território ancestral Te’y Yusu, “fazenda Yvu”. Simião Vilhalva, foi o morto do ano de 2015, na retomada da terra ancestral Ñanderu Marangatu, “Fazenda Fronteira”, no município de Antônio João. Uma moça Kaiowa, chamada Júlia Almeria, foi morta e desaparecida pelos fazendeiros, em 2014. Em outra retomada, no mesmo município de Caarapó, no ano de 2012, Denílson Barros, jovem de 16 anos, estudante na escola da Aldeia Te’y Kue, foi também fuzilado pelos fazendeiros na retomada do Pindo Roky.

A sequência dessa cronologia remontará a um ano pós o outro, até chegar a 1500. Desde que o Brasil é Brasil, crime e infâmia cimentam uma noção de progresso. Nessa lógica, os fazendeiros são os Bandeirantes do momento, e os Governos que se sucedem, sob qual sigla partidária for, a mão cúmplice do Estado que mata e fere.

Todos esse mortos recentes foram mortos porque foi permitido matá-los. Na noite anterior à morte de Clodiôde, os Kaiowa da Aldeia Te’y Kue acionaram a Polícia Federal e o Ministério Público, informando que os fazendeiros estavam cercando a área da retomada. Os Kaiowa foram ameaçados na presença dos policiais federais, quando um grupo de fazendeiros disse que retornaria no dia seguinte para concretizar a ameaça. Todas as pessoas presentes nesse momento confirmam isso. O que parece um desatino daqueles que premeditam matar, anunciar que vão matar na presença de policiais, dá a dimensão da impunidade.

Pois, anunciado e cumprido. Na manhã seguinte, os fazendeiros com um batalhão de camionetes Hi Lux, tratores com pás escavadeiras, pistoleiros, metralhadoras e covardia, executaram o ataque. Mataram um e feriram quatro. Desesperaram um povo. Crianças, idosos. Queimaram várias motocicletas pertencentes aos Kaiowa, destruíram barracos e pertences. Esse ato “solene” de injustiça pelas próprias mãos começou pela manhã e escorreu até meados da tarde. Quando os Policiais Federais e a Guarda Nacional chegaram, e quando Clodiôde já estava morto e outros feridos em estado grave, contam os Kaiowa, os fazendeiros ainda estavam no local. Acaso compartilhavam a perícia?

Na semana passada, há menos de completar um mês do assassinato de Clodiôde, outro ataque com arma de fogo foi desferido pelos fazendeiros contra famílias Kaiowa, em uma retomada vizinha, na terra Guapo’y Guasu, ainda em Caarapó. Essas famílias e crianças que aparecem em algumas das fotos abaixo foram atacadas à noite enquanto dançavam e celebravam. Mais três camionetes Hi Lux, mais um trator com escavadeira, e mais dúzias de fazendeiros e capangas “destemidos”. Com armas de alto calibre, feriram à bala a três Kaiowa “armados” com “poderosos” arcos e flechas feitos de gravetos, pois madeira não existe mais; pessoas atingidas para morrer, mas que teimaram em viver.

Da forma como segue esse conto real, infame e cruel, pode ser que na próxima semana, no mês que vem, ou no próximo ano, outras pessoas e nomes kaiowa constem nessa crônica de mortes prenunciadas e consentidas. Os Kaiowa são os meninos da periferia. Para o Estado, para os desgovernos, para os fazendeiros e polícias, essa é uma parte da população que deve desaparecer e que pode ser morta.

Por que esses senhores do agronegócio teriam motivo para pararem de matar os Kaiowa que ousam retomar o que lhes foi tirado, que ousam não mais aceitar ficar confinados em reservas/aldeias, se eles têm permissão para matar, se até o momento nenhum deles foi punido, sequer indiciado? Nenhum dos assassinos dos Kaiowa, o que matou Clodiôde, o que matou Simião, o que matou Julia, o que matou… se encontram detidos. Por que esses fazendeiros com nome, endereço e culpa teriam problema em seguir disparando se eles representam o poder e a lógica que governa? Por que se sentiriam inibidos se mesmo tendo sido identificados como autores materiais ou intelectuais dos crimes, continuam impunes, vivendo em Caarapó, em Antonio João, em Dourados, em Campo Grande, em Brasília, e tramando novos ataques?

Enquanto isso, L Kaiowa, pai de Clodiôde, está com ordem de prisão decretada, acusado de por fogo em uma viatura da polícia que se encontrava no local onde seu filho foi morto. Enquanto isso, S Kaiowa, também está com prisão decretada porque, inconformado contra as fumigações de veneno sobre seu barraco na Tekoha Te’y Jusu, que envenenou a ele e muitos dos seus, que fez com que seu filho ficasse irremediavelmente sequelado de um olho por causa do veneno químico despejado sobre o terreno, ousou ir até a fazenda e destruir o tanque onde estava armazenado o veneno utilizado para fumigá-los. Enquanto isso…

O Bizarro. Os mortos são culpados por serem mortos e os vivos culpados por serem envenenados.

Senhores assassinos, Governos assassinos, Estado assassino, ocorre o seguinte: vocês perdem de vista o que representa a decisão de um povo que não vai mais pedir licença para ser livre e para lutar por sua emancipação. E que não vai mais esperar para que um Congresso Nacional mafioso, e uma Corte Suprema de moral duvidosa, homologue as terras já demarcadas, os cinquenta e cinco e mil e quinhentos hectares que conformam o território ancestral dos Guarani Kaiowa, na região sul do Mato Grosso do Sul.

Nós não negocia o nosso direito. Nós não aceita viver mais em reservas. Somos quinze mil pessoas vivendo hoje no espaço apertado de três mil hectares, na Aldeia Te’y Kue. Nós não tem espaço pra plantar. Nós não quer viver de cesta básica. Nós queremos de volta a terra de onde nós somos. Nossos antropólogos são os nossos avós. Foi o meu pai que me contou como era e onde era que nós vivia antes.

Eles, os Kaiowa não irão se deter diante do abismo. Mataram Clodiôde, mataram Simião, mataram Julia. Todos eles morreram para viver. Estão mortos e semeados.

A Lágrima Semente

A dor que nós sente não detém nós, nós chora cada morte mas nossa lágrima também é semente. Clodiôde e todos os parentes que eles mataram tão enterrado numa terra de onde nós somos. Nós só vai parar quando conseguir voltar pra toda ela. Nós somos dela. Tudo que tiraram de nós nós vai lutar pra retornar. Nós não tá retomando, nós tá retornando. Nossa lágrima é semente.

Essa palavra tem boca. A de uma, duas, três, quarenta mil mulheres, homens e crianças kaiowa do Mato Grosso do Sul. Soou da voz de uma mulher atônita, revoltada, inconformada após ouvir de um dos representantes do Ministério Público de Dourados, a sugestão de que eles, Kaiowa das retomadas no município de Caarapó, do território Kunumi Pot´y Verá, fizessem um acordo com os fazendeiros, que no mês passado mataram um e feriram quatro Kaiowa. Esse representante do Estado disse, diante do Conselho de anciãos e lideranças: “Façam isso porque assim vocês não serão responsáveis pela morte de mais crianças kaiowa!”

As Fotos que devem desaparecer

Estive mais uma vez com os parentes Kaiowa. Dessa vez em Kunumi Pot’y Verá, ex-fazenda Ivú. Kunumi Pot’y Verá era o nome Kaiowa de Clodiôde, e agora é o nome da terra retomada onde ele tombou. Essas fotos que devem desaparecer e que não deveriam existir mostram o ambiente de mais uma retomada.

Em uma terra devastada pelo agronegócio, nem os grilos cantam mais. Barracos de lona preta, casas de sapé vão conformando um novo espaço. Em mais uma retomada/retorno se reinaugura outro momento de dignidade rebelde. O precedente é o Retorno. Daí, para que os territórios Kaiowa passem a ser terras de árvores, de agricultura orgânica, territórios sob outros parâmetros, é um longo e possível percurso. Os Kaiowa se autoconvocam e nos convocam.

As imagens são os dias. Sucedem. Morrer é um abismo que não os detêm. Chorando se baila, bailando se celebra. Para o frio, fogo. E muitos braços que ousam mais uma vez com a coragem recusar a humilhação.

Fotografias de Rogério Ferrari — jul/2016 (Território de retomada. Município de Caarapó, no Mato Grosso do Sul)

existências resistências

Written by

Fotografias e textos de Rogério Ferrari no Território Guarani Kaiowá-MS. Em Set/2015 e Jul/2016.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade