Jacob Gorender: Uma Revolução na Revolução Brasileira (Mário Maestri)

Jacob Gorender: Uma Revolução na Revolução Brasileira

Por Mário Maestri*

Jacob Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de operário judeu ucraniano, socialista e antissionista que, após participar da Revolução Russa de 1905, emigrara para a Bahia, onde viveu humilde. Gorender estudou em escola israelita primária, no Ginásio da Bahia, na Faculdade de Direito de Salvador. Em 1942, foi cooptado por Mário Alves e Ariston Andrade para célula universitária comunista, mobilizada na luta pela entrada do Brasil na guerra. Nesses anos, foi repórter de O Imparcial e O Estado da Bahia.

Em 1943, arrolou-se na FEB e partiu para a Itália, combatendo até o fim da guerra. Na Toscana, estabeleceu contato com o Partido Comunista Italiano. De volta à Bahia, abandonou a Universidade pela militância, viajando ao Rio de Janeiro, em fins de 1946, para trabalhar no jornal A Classe Operária e compor o secretariado metropolitano do Partido Comunista do Brasil (PCB).

Com a Guerra Fria, na ilegalidade, o PCB trocou a colaboração com a classe dominante por política de confronto com o Estado e com o governo Dutra. Orientação esquerdista que prosseguiu, sobretudo retoricamente, após a vitória de Getúlio Vargas (1951–4). Em 1951, entrou no Comitê Estadual paulista PCB e, em 1953, no Rio de Janeiro, participou da organização dos Cursos Stalin de formação e trabalhou no diário Imprensa Popular.

Em fins de 1954, foi eleito suplente do Comitê Central, no IV Congresso do PCB, que reafirmou o caráter “semicolonial e semifeudal” do Brasil e a “luta por governo democrático e popular”, dirigido por “Frente Democrática de Liberação Nacional”. Apesar de proposta de luta pelo poder, o PCB apoiou a candidatura JK/João Goulart (PDS-PTB).

Também em 1955, Gorender participou de escola superior de quadros nas proximidades de Moscou, onde soube do relatório de Kruschev sobre Stálin e conheceu Idealina da Silva Fernandes, sua companheira por toda vida, filha de operário fundador do PCB. No Rio de Janeiro, dirigiu a Imprensa Popular e a Voz Operária.

Em 1958, por inspiração de Prestes, com Giocondo Dias, Passos Guimarães, Mário Alves, Armênio Guedes, redigiu a Declaração de Março, defendendo a aliança com a burguesia nacional e a possível chegada pacífica ao poder. A orientação foi aprovada no V Congresso, em setembro de 1960, quando foi eleito membro pleno do Comitê Central. Mário Alves e Carlos Marighella ingressaram na Comissão Executiva.

Luta Armada Incondicional

Em 1961, a renúncia de Jânio Quadros e a posse de Goulart aprofundaram o atrelamento ao nacional-populismo, através da aproximação da direção comunista ao presidente e a seu governo. No PCB, militantes exigiam mais luta social e mais autonomia ao governo.

Em 1959–61, a direção cubana vitoriosa galvanizou a esquerda defendendo a luta armada incondicional pelo poder — foco guerrilheiro. A direção comunista mudou o nome do partido para Partido Comunista Brasileiro (PCB), enfatizando o rompimento com o internacionalismo e a revolução e dirigentes ligados ao stalinismo fundaram o Partido Comunista do Brasil (PC do B).

Nesses anos, Gorender destacava-se como quadro ligado às questões teóricas, publicando ensaios sociológicos, filosóficos, econômicos, etc. e traduzindo do russo clássicos do marxismo stalinista.

Em 1964, a vitória golpista fortaleceu a oposição de esquerda, capitaneada por Apolônio, Marighella, Gorender, Câmara Ferreira, Mário Alves, etc., expulsos do partido sem participarem do VI Congresso, em dezembro de 1967.

Desde 1967, a recessão propiciou reação popular, acelerando o fracionamento do PCB. Em abril de 1968, Mário Alves, Gorender e Apolônio, etc. fundaram o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Marighella e Câmara Ferreira formaram grupo guerrilheiro — Ação Libertadora Nacional. Comunistas ingressaram no PC do B e em outros grupos armados.

O PCBR negava a aliança com a burguesia, sem propor programa socialista e defendia a ação sindical na cidade e armada no campo. Em janeiro de 1970, a prisão, tortura e execução de Mario Alves abriu o ciclo de quedas que entregou a direção do PCBR a quadros jovens, aprofundando-se o seu militarismo e rápida destruição.

No PCBR, Gorender apontara o ciclo vicioso das ações militares-quedas e investigava a formação social brasileira, rejeitando superação não política do reformismo. Na prisão, expôs a visão de transição, no Brasil, do escravismo ao capitalismo. Em outubro de 1971, em liberdade, não retornou à militância orgânica, filiando-se ao PT apenas em meados de 1990.

Escravismo, Feudalismo, Capitalismo

Trabalhando como tradutor, Gorender concluiu sua investigação em 1976. Lançado em 1978, O escravismo colonial apresentava, em forma categorial-sistemática, as leis tendenciais do escravismo colonial, modo de produção historicamente novo, superando a dicotomia feudalismo-capitalismo e colocando o cativo no centro do devir histórico pré-1888.

A retomada das lutas sociais, em 1977–79, abriu espaço para a forte repercussão, sobretudo entre o público acadêmico, de O escravismo colonial. Em geral, a tese sobre a escravidão foi recebida com estranheza pela militância de esquerda, para a qual fora prioritariamente escrita.

A obra constituía reflexão para compreender o mundo e revolucioná-lo. A seguir, Gorender escreveu textos e livros, como o clássico Combate nas trevas, sobre a luta armada pós-1964. A partir de O escravismo colonial, ampliaria sobretudo em dois ensaios sua reflexão sobre a Revolução Brasileira.

Em Gênese e desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro, conferência de 1979, define a categoria marxista capitalismo como própria também ao campo, ao se organizar singularmente como ramo daquela produção. Defende a precedência do capital ao capitalismo e a acumulação originária no Brasil a partir da escravidão, superada em 1888.

Destaca duas grandes vias no desenvolvimento do capitalismo no campo. A transformação em produção capitalista do “modo de produção latifundiário, apoiado em formas camponesas dependentes”, dominante na cafeicultura pós-1888, com a superação das relações camponesas dependentes, ensejada por exército rural de reserva. A segunda, através do desenvolvimento-superação da produção camponesa familiar.

Caminhos que determinaram contradições não essenciais da burguesia com o latifúndio e seu desinteresse na reforma agrária, sobre a qual propõe o respeito à expectativa do trabalhador rural pela propriedade do lote e a luta pela “transformação das grandes empresas agrárias, plantacionistas e pecuária, já tecnicamente unificadas, em grandes explorações coletivizadas: cooperativistas ou estatais.”

O Capitalismo no Campo e na Cidade

A burguesia brasileira, de 1981, apresenta a gênese/desenvolvimento da industrialização/formação da burguesia no Brasil, a partir da acumulação originária ensejada pela escravidão, acelerada em 1808 e 1822, sob a ação da burguesia industrial e não mercantil. Destaca o escravismo como empecilho ao desenvolvimento do capitalismo, superado pela revolução abolicionista, que poupou o latifúndio, na falta de luta camponesa e mobilização dos cativos pela liberdade.

Na República Velha, a produção/relações capitalistas subordinavam-se à produção agropastoril latifundiária. A produção de bens de consumo não duráveis fracassara no Nordeste, por falta de mercado; assentara-se no Sul, a partir da economia colonial-camponesa; dominara no RJ e SP, de maior de mercado, mais capitais, etc.

Defende que, nos anos 1920, a cafeicultura entravava a industrialização e propõe não ter havido “revolução burguesa” em 1930, categoria “inaplicável à história do Brasil”, onde ocorrera “dominação burguesa”, facilitada, desde a crise de 1929–33, pelo Estado Novo e o getulismo, expressões da burguesia industrial.

Assinala que a industrialização, já forte nos anos 1950, nascera de capitais internos e que o capital produtivo externo produziria descapitalização tendencial e poderia ensejar dinamização do mercado e da produção. Lembra que, nos anos 1960, a produção capitalista e a burguesia dominavam e que o golpe, em 1964, visava aprofundar a acumulação burguesa.

Avança que, na época em que escrevia, a economia brasileira se apoiasse no tripé capital estatal, privado nacional, privado estrangeiro e que os departamentos de produção de bens intermediários e de produção comandavam a expansão industrial. O capital bancário consolidara-se e não haveria ainda capital financeiro nacional. Crescera a capitalização do campo e a média burguesia, não anti-imperialista.

Critica teses tradicionais da historiografia “cafeicultores” promotores da Abolição e da industrialização; enriquecimento industrial pelo trabalho; capitalismo de Estado no Brasil, etc.

***

Nos anos 1970 e 1980, a partir de aplicação rigorosa do método marxista, fecundada pelo impulso revolucionário mundial, Gorender superou impasses históricos da crítica da formação social brasileira, em salto de qualidade na crítica marxista revolucionária orientada à compreensão e revolução da realidade nacional.

Em fins dos anos 1980, o recuo do movimento social e a vitória da contra-revolução mundial contribuíram para que esse esforço pouco frutificasse, no contexto da forte regressão subjetiva e organizacional do já frágil mundo do trabalho no Brasil e de esquerda pouco afeita aos aprofundamentos teóricos.

* Mário Maestri, 63, historiador, e professor do PPGH da UPF, RS. E-mail:maestri@via-rs.net e autor dos livros “Belo Monte: uma história da Guerra de Canudos” (Expressão Popular) e “Linguagem escravizada” (Expressão Popular), além de “Antonio Gramsci — vida e obra” (também pela Expressão Popular, atualmente esgotado).

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