Marçal ilumina a luta dos Guarani Kaiowá

Marçal Souza, líder indígena conhecido como Marçal Guarani (1920–1983) ou Marçal Tupã´i — o pequeno deus do trovão — foi, segundo o antropólogo Benedito Prezia, o inesquecível líder indígena guarani do Sul do Mato Grosso que ousou enfrentar o poder estabelecido com seu pequeno corpo e sua voz de trovão: “Eu deixo aqui o meu apelo de 200 mil indígenas que habitam e lutam pela sua sobrevivência neste país tão grande e tão pequeno para nós”.

No ano do assassinato de Marçal, Prezia havia iniciado seu trabalho junto ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), acompanhando a edição de um documentário sobre esse importante líder indígena. Com base nas informações e documentos organizados no Cimi Nacional e regional Mato Grosso do Sul, Prezia traça o perfil deste lutador do povo brasileiro.

“Marçal Guarani: a voz que não pode ser esquecida”.

No livro Marçal Guarani: a voz que não pode ser esquecida, Benedito Prezia destaca o testamento político do líder indígena, proferido na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), do Rio de Janeiro, no dia 30 de setembro de 1983, com os amigos Darcy Ribeiro e D. Tomás Balduíno, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Mesmo ameaçado de morte, denunciou a violação dos direitos indígenas no Mato Grosso do Sul:

“Mas para onde nós vamos? Neste século, chegamos ao fim da picada. Não temos muita alternativa. Não temos mais mata para fugir, nem floresta para nos proteger do perigo, da perseguição, do massacre. É como se estivéssemos à beira de um grande rio, sem canoa, sem ter como atravessar.

Além de sermos os donos primitivos e legítimos desta terra, temos a lei feita pelos brancos para nos proteger. Mas essa lei não está funcionando. É isso que temos que cobrar do governo que nos deixou no abandono. A lei maior é a natureza… Infelizmente, a natureza é desrespeitada pela lei dos homens. (…) Nós temos grandes amigos aqui, alguns antropólogos, não todos. Muitos só querem se especializar, lecionar… Foram na aldeia, tiraram tudo que nos é sagrado e nos deixaram só com o lixo…

Tenho uma tristeza em minha vida: o fato de ser bastante idoso. Eu queria ser um moço bem novo, com todas as forças que tive em minha juventude. Mas gostaria de ter tido essa consciência, esse amor que tenho em meu coração, agora, nesta idade avançada.

Mas levantarão outros que terão o mesmo idealismo, que continuarão o trabalho que hoje nós começamos. Isso eu deixo pra vocês!”

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