“O que nós, da esquerda, faremos para evitar a vitória da direita? ” — Lançamento de Claudio Katz

O economista argentino Cláudio Katz, em lançamento do seu livroNeoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Expressão Popular/Fundação Perseu Abramo), em 21 de setembro, na livraria da Editora Expressão Popular, discute, junto com Gustavo Codas, coordenador da Área de Produção do Conhecimento da Fundação Perseu Abramo, o contexto do avanço da direita na América Latina, em particular do golpe no Brasil, e as alternativas de retomada de um projeto de esquerda para a derrota do neoliberalismo e transição ao socialismo.

Confira, a seguir, trecho do debate, gravado pela TV Perseu Abramo (http://novo.fpabramo.org.br/content/restauração-conservadora-e-neoliberalismo-na-al-são-tema-de-debate), em que Cláudio Katz debate o contexto atual do avanço da direita na América Latina e o golpe no Brasil.

“Quando eu escrevi o livro, eu não tinha uma previsão de que isso iria ocorrer, mas que isso era uma possibilidade que ocorresse. E como um marxista clássico de tradição otimista, desses que sempre pensam que o pior não vai ocorrer, que há uma esperança de que triunfem as forças de esquerda, como parte dessa geração, minha expectativa era que ao invés de retroceder do neodesenvolvimentismo para o neoliberalismo, que se avançasse para o socialismo. Bom, parece que ocorreu o contrário, passamos para trás, para o neoliberalismo.

Me parece que esse desenlace era previsível, porque, em primeiro lugar, as economias entraram num estancamento muito profundo, já há muitos anos, e diante desse estancamento, havia um questionamento: o que fazer? A direita dizia :“Apliquemos medidas de ajuste”. A esquerda dizia: “Radicalizemos o processo”. E os governos diziam: “Não façamos nada”. E criou as condições para o triunfo de um dos dois adversários. A direita, obviamente, estava em melhores condições e preparava seu retorno ao poder.

No caso da [presidenta] Dilma[Roussef], no Brasil, ela começou o próprio ajuste, mas não como a direita queria o ajuste. Começou um ajuste em cotas: colocou um ministro neoliberal, aprovou lei regressivas, mas não era o ajuste da direita. No caso da presidenta Cristina [Kirschener], na Argentina, não aplicou medidas de ajuste, simplesmente permitiam que a economia se degradasse com a inflação, com a fuga de capitais. E a direita vai se dando conta que está se preparando o cenário para voltar. E eu creio que no governo desse tipo, quando enfrentam situações assim tem a opção de apoiar-se nos movimentos sociais e a adotar medidas radicais, ou a capitular diante da direita.

Me parece que, no caso argentino e brasileiro, nunca esteve na mente dos governos recorrer aos movimentos populares, aos movimentos sociais. São governos já muito amarrados à estrutura institucional, não raciocinam com a possibilidade das ruas, não raciocinam com a possibilidade dos movimentos sociais e sindicatos.

E esta é uma diferença importante com relação à Venezuela. Por isso eu caracterizo o governo da Venezuela como um governo nacionalista radical, e não como um governo de centro-esquerda, porque mesmo com as enormes limitações que teve Chávez e que tem Maduro, sempre esteve presente apelar para o movimento popular. Nunca tiveram medo das pessoas nas ruas. Não têm pavor de enfrentar a direita com os métodos que ela desafia. Se a direita ameaça, se chama os movimentos sociais. O problema do chavismo é outro, é o verticalismo: convoca o movimento popular, mas impede que o movimento atue como movimento popular, quer guiar permanentemente. Não permite que o poder comunal aflore com força suficiente para derrotar a direita.

Por isso, na Venezuela, diferente da Argentina e do Brasil, a luta está sempre presente. A direita não pode fazer um impeachmentao Maduro, como fez aqui, nem fazer nas eleições, em certa medida, como fez a Lugo, em Paraguai, que foi um governo tolerante, que não está disposto a responder com força.

E a esquerda não foi suficientemente forte para que a nossa opção triunfasse. Não basta dizer que previmos algo. Eu me recordo de muitos intelectuais que se sentem satisfeitos quando se confirma o que eles previram. Eles dizem: “Vejam, este livro confirmou o que eu disse. Bem, isso é um consolo. Se confirmou e é algo negativo, qual é a satisfação pessoal? Eu, pessoalmente sou muito inteligente, mas o que ocorreu é um desastre. Então, a confirmação negativa do que eu já previa, não me causa nenhuma gratificação.

Para mim, me suscita um problema, se se confirma que a direita ganhou, o que nós, da esquerda, faremos para evitar a vitória da direita? Creio que em cada país há distintos problemas, mas em todos, a esquerda não consegue formar um polo nítido, com ideias nítidas, com programas explícitos. Concordo com o que o Gustavo Codas disse, em muitos casos, uma esquerda complacente com estes governos e não criticou no momento que deveria criticar. Não basta dizer: “Se o governo não se radicaliza, vai capitular”. Há momentos difíceis de dizer isso quando a gente não quer ouvir isso. E quando se disser isso vai se chocarde uma maneira muito dura com os velhos companheiros, os velhos camaradas, porque vai ter que se separar dele. Essa complacência é um ponto claro em muitos países, não atrever-se a dizer: “Até aqui cheguei, companheiros não estou disposto a aceitar isso. Não estoudisposto a aceitar um ministro neoliberal em um governo progressista”. Essa complacência é um problema da esquerda.

Outro problema que muito bem colocou Gustavo Codas é ter muitas boas ideias, mas fora do movimento. Elaborar um bom panfleto, um bom jornal, uma boa opinião, mas não se preocupar se essa opinião está gerando um movimento de massas, pior, se esse movimento de massas aparece, criticar de forma violenta. Não buscar uma aproximação. Supor que o chavismo ou Evo Morales são governos iguais aos da direita. Este é outro erro. A esquerda complacente é a esquerda sectária.

A esquerda que tenta trabalhar com consequência dentro do movimentosocialé um terreno que teremos muito o que corrigir, muito o que melhorar e para avançar. Eu creio que esta nova geração de jovens que está tendo a primeira experiência política está ávida por buscar outra experiência política, não estão vivendo esta frustração, como nós os mais velhos, que já vivemos outras frustrações antes, anos 1970, a União Soviética, e outras mais, estão vivendo como a última experiência. Esses jovens são a base para uma construção política de esquerda radical forte, contundente, no último período. E acredito que teremos grandes oportunidades de fazer uma nova experiência política”.

De acordo com João Pedro Stédile, Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo, a obra de Cláudio Katz é uma interpretação necessária sobre a luta de classes em nosso continente: “Nas últimas décadas, nosso continente foi testemunha de uma dinâmica situação da luta de classes, alternando-se os projetos, as vitórias e as derrotas entre a classe trabalhadora e os capitalistas da classe dominante. Este livro, mais que necessário, é imprescindível para que cada militante estude e debata com seus companheiros. Este livro é um instrumento que reflete uma visão compartilhada por todos nos, dos movimentos populares, que lutamos pelo socialismo, cujo caminho é o modelo de integração popular continental, como sonharam José Martí, Che, Fidel, Chávez, e tantos militantes que já deram a vida, em todo continente”.

Livro: Neoliberalismo, neodesevolvimentismo, socialismo (Claudio Katz, Expressão Popular/FPA), R$35.

Para aprofundar as questões levantadas sobre a resistência ao avanço da direita no Brasil, a Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes convida para o debate OS EFEITOS DO GOLPE com a participação de João Pedro Stedile (direção nacional do MST) e Maria Carlotto (Associação dos Docentes da UFABC), dia 8 de outubro, sábado, às 10h, na Rua Abolição, 167, no Sindicato dos Advogados de São Paulo.