16 — Não há espaço para a vida na morte

A vida não se ocupa em pensar a morte

Dentre os escritores que abordaram brilhantemente o tema da morte e da decadência humana eu tenho, por minha experiência familiar, uma observância maior pelo poeta naturalista mineiro Augusto dos Anjos. E uma das suas mais icônicas poesias é destacada a decadência e a inevitabilidade da frustração humana. Destaca ele em seus versos:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.

Acostuma-te à lama que te espera!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

A despeito de todo o seu brilhantismo não creio que haja beleza na morte, na melancolia, na derrota. A morte é apenas um espaço em branco, ou em preto, como queiras. A morte, assim como a pobreza, não carece de boa reputação, não de gozar de glamour nem atenção.

Não há morte na vida. Quando a morte chega à vida já não interessa mais. Ela pode estar sozinha ou acompanhada mas não há nada que conhecemos na vida dentro do compêndio abrangente da morte. Ela por sí só não se mistura com a vida, que é tudo que existe para mim.

A morte não existe, ela somente é.

Ah mais e a vida? a vida é tão mais interessante pois a segunda só fala por um único segundo e não é uma palavra, uma frase ou ao menos uma letra. A morte é só um sinal, um sinal de pontuação, o ponto final “.” ponto. Diferentemente do ponto final daquele parágrafo, o ponto final da morte não nos remete a vida, não nos remete a reler aquilo que escrevemos a pouco, mesmo que ele tenha sido o mais belo parágrafo já escrito. O ponto final da morte é apenas vácuo, “é ferida que dói mas não se sente”.

Como lembra o grande escritor Ledo Ivo Thomas Browne também fala sobre a morte. Diz ele:

A morte, que tem a arte de reduzir tudo a pó, sepulta até os túmulos.
Thomas Browne

Dito tudo isto não me ocupo mais da morte. Não quero viver a morte nem morrer a vida. Cada uma no seu lugar e sem conversinhas. Este, pretendo eu, deve ser meu último texto sobre a morte, tudo que eu tinha pra falar sobre ela vai estar aqui.

Mesmo em meu leito de vida (pois não existe leito de morte posto que a ela não tem leito já que não pertence a este mundo) não vou me ocupar dela. Não que eu queira fugir das dores da vida mas porque, nem você nem eu, não vamos saber se vai doer mesmo.

Quero acabar minhas 500 palavras falando do que realmente interessa. A vida, que é pra ser vivida sem a presença da morte e mesmo antes que falem da morte de quem amamos ou admiramos (que reside em nossas almas e nossos corações) lembro que não é ela traz lembranças de uma vida querida apenas findada como esse parágrafo aqui.


Antes também de falarem que a morte é o estado natural e que o que a natureza quer de você apenas que morra eu digo:

Viva para desbancar a natureza. Enfrentá-la com toda a sua vida. Ria para a morte e se abrace com a vida.

A vida é um privilégio. Não a desperdice em um quarto rosa com comida quente e lençóis gelados.

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