53 — Vamos falar um pouco sobre programadores

Quem são essas criaturinhas de grande valor

Que os programadores são pessoas especiais e que o GitHub é o maior repositório de idéias e a rede social mais produtiva que existe nós programadores já sabemos mas quem são os programadores? O que eles pensam e porque são como são?

Eles são na deles, não são os pegadores mas tem o seu charme e não mudam o seu curso durante a jornada. Estes são os programadores.

Eu já programei muitos anos (por certo por mais de uma década) e já gerenciei códigos de mais de 100.000 linhas de código em sistemas das mais variadas formas e sei muito bem quais as dores dos programadores. Sei das dores de ontem e de hoje. Antigamente não havia muito a quem recorrer, não havia o Stackoverflow nem o GitHub, o que havia e que há ainda hoje eram pessoas que se escondiam por trás de um monitor e um teclado para desbravar o mundo.

Descobrir uma nova linguagem é algo reconfortante. É uma declaração de independência, é poder se expressar de mil novas formas e para mil novos públicos. A noite eu dormia ao lado do meu PC-XT em 1988. As olimpíadas de Seul estavam começando no quarto do meu pai e eu havia ganho um PC destes. Ele só tinha um joguinho que se chamada Digger e eu ficava fissurado nele. Ele demorava uma meia hora pra ligar mas quem se importa? Desde então dormi muitos dias dizendo pra mim mesmo que um dia iria entender como aquela coisa magnífica funcionava.

Apesar de toda essa paixão percebo hoje que não havia maneira mais confortável de visitar o mundo e trocar idéias sem conhecer as pessoas pessoalmente, sem sentir o seu calor e o seu olhar, sem se deparar com o contraditório ali, na real, ao vivo, do que através das telas dos computadores.

Estas máquinas revolucionárias caíram como uma luva em pessoas tímidas e com um ego muito massageado (talvez por suas mães) para não suportarem receber um não, ou um “isso está uma bosta” e não poder virar as costas ou fechar a tela do seu desktop/notebook tão facilmente como resolvemos nossos problemas na descarga do vaso sanitário. Penso onde as pessoas tímidas se escondiam antes dos computadores, será que na arte ou como pastores de ovelhas?

Creio que a arte (muitas pessoas acreditam que a programação seja uma arte) é outra forma de você não ter que conviver diariamente com a rejeição. Artistas só querem estar no seu palco, só querem conviver com seus pares. Vemos muitas pessoas tímidas no palco, ali, diferente do que pensamos é o seu refúgio e não sua exposição.

Eu como um tímido de carteirinha vim perceber só depois de um tempo que havia escolhido a profissão que me colocaria lado a lado com um não humano que nunca iria me contrariar. Nunca iria fazer nada diferente do que eu queria. Mas vamos parar com essa conversa autoral e falar um poco mais sobre quem são os programadores.

Recentemente li dois livros do Uncle Bob (Robert C. Martin) que recomendo a todos os programadores do mundo. Na verdade recomendo a todas as pessoas de bem. Primeiramente vamos separar as coisas aqui. Assim como existem os bons e os maus jornalistas, os bons e os maus empacotadores de supermercado, os bons e os maus astrofísicos, os bons e os maus abridores de cancela também há os bons e os maus programadores.

He is my man

No meu início de carreira eu cometia muitos erros, copiava e colava código, não criava testes, colocava meu nome no código, o que só depois aprendi que isso apenas server para que os maus programadores possam criticar o que você fez. Apesar de ter feito muita bobagem em minha vida profissional, não fico por aí falando mal do trabalho “código” das outras pessoas.

Essa é uma prática que maus programadores fazem muito. Valendo-se da plateia (porque não o fariam privadamente) eles criticam o código dos outros achando que assim se tornarão melhor avaliados por seus pares. Já vi muito isso na minha vida. É antiético pra dizer o mínimo. Seria como se um ator ficasse criticando a atuação dos seus pares. Seria como se os médicos ficassem falando em público que seus concorrentes são menos qualificados que eles.

Isso é de um retrocesso homérico. O Uncle Bob menciona muito a ética no código, ele critica em outra abordagem aquele programador que faz tudo que o seu chefe manda ou aquele que faz as coisas pela metade pois o chefe não mandou. Em “O Codificador Limpo” ele expõe muito essas mazelas. Um bom programador precisa saber dizer não e enfrentar a pressão dos superiores para não por produtos “código” de má qualidade no mercado.

É claro que existe código mau e devemos combatê-lo, mas pior do que o mau código, o código mal cheiroso cheio de comentários, sem classes bem definidas, com complexidade ciclomática alta, sem testes e com nomes de variáveis sem sentido, mesmo assim o código gerado por pessoas desonestas consigo mesmas e com os outros ainda é a pior coisa. Se você é um programador e fala mal dos seus colegas de trabalho entenda que você é um péssimo exemplo para esta classe de trabalhadores.

Programar dá trabalho, entender as pessoas dá muito mais. Eu amo programar mas só programar não faz mais minha cabeça. Quero compilar a complexidade humana ao máximo mas olhando nos olhos e não através da tela de um computador.

Falar de código mal escrito em público só se for pra educar

Ezequias Rocha é líder de desenvolvimento e gerente de projetos na Tecgeo — Tecnologia em Geoprocessamento Ltda.