Inundações em São Carlos: Tragédia piorada pelo descaso político

Ezequiel Luztosa
Mar 2, 2019 · 5 min read

Apesar de esse problema ser do tipo extremamente complexo e que não pode ser totalmente resolvido, apenas atenuado, ele não estaria num nível tão calamitoso se as autoridades responsáveis tivessem agido com antecedência. Entretanto ainda é possível reduzir os atuais impactos, mas por um alto custo.

Eu, como quase toda minha família materna até pelo menos 3 gerações atrás, nasci em São Carlos numa época que literalmente “era tudo mato”. Assisti uma pequena e pacata cidade se tornar uma cidade mais populosa, complexa e urbanizada. Hoje não reconheço bairros que visitei quando criança e nem conheço todas as lojas e empresas que abriram. Apesar de toda essa transformação ser boa, trazendo mais empregos, por exemplo, ela naturalmente também tem seu preço: Como dificuldade para assistir toda a enorme população, maior violência, mais inundações, etc.

Sim, mais inundações. Desde a fundação da cidade, em 1857, São Carlos foi por um século basicamente um povoado dependente da agricultura, especialmente café, concentrado no interior enquanto a periferia era despovoada. O primeiro registro de inundação no Mercado só ocorreu em 1930, entretanto a partir de 1940 o número de inundações começa a crescer até se tornar algo comum em toda a cidade.

O motivo disso é bem evidente: A partir da década de 40 a população cresce, são desmatadas áreas importantes para equilíbrio ecológico e mais recentemente pavimentadas e asfaltadas áreas próximas aos ribeirinhos. Também recentemente as chuvas tornaram-se mais torrenciais (mais intensas num pequeno espaço de tempo), especialmente no período de Dezembro a Fevereiro como mostra a dissertação de Mendes Heloisa pela USP em 2005 e o artigo de Trindade Amorim e Porfirio Lima na Revista Brasileira de Climatologia. Tornando as inundações cada vez mais frequentes e impactantes nesse período.

Isso implica que diferente do que é propagado, inundações não são fenômenos naturais inevitáveis de nossa cidade, mas sim um problema gerado e maximizado por falta de planejamento urbano nos últimos 70 anos. Além disso, se não fizermos nada, o quadro deve se agravar e inundações serão frequentes em mais pontos. Então a ideia de simplesmente ignorar ou sair do centro não pode ser nem cogitada.

Entretanto, diferente de se preocuparem com um problema tão grave que já estava piorando há décadas, só a partir de 2000 houve alguma atenção das forças públicas. Como comprovou a então mestranda de Engenharia Andrea Monteiro Lira pela USP (em 2003) não havia muitos estudos e análises constantes da bacia hidrográfica dificultando até o estudo sobre tema, além de todo o sistema de drenagem da cidade ser defasado. Ela resumiu na sua dissertação:

“O sistema de macrodrenagem de São Carlos se encontra em condições precárias de funcionamento devido às inundações, falta de manutenção de canalizações e com seções estranguladas inadequadas […]”.

Logo depois (em 2007) foi incluído no Plano Diretor, que é obrigatório para prefeitura segui-lo apesar de poder modificá-lo, metas para melhorar a drenagem, saneamento e arborização da cidade. Isso até resultou em algumas melhorias, como uma arborização da cidade e números até bons em comparação a nossa região. Mas isso ainda é muito pouco.

Por exemplo, segundo o professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Mário Mediondo, só há metade dos bueiros necessários para fazer escoamento eficiente de toda água numa cidade de nosso porte. E para piorar, só metade dos atuais estão em boas condições. Além disso, a própria arborização da cidade foi mal feita, havendo concentração desnecessária na área norte.

Todavia, não estamos num caminho sem volta. É possível reduzir profundamente os impactos e prevenir maiores, mas com um árduo trabalho de longo prazo.

Por exemplo, é necessário aplicar medidas estruturais, como barragens, canais de escoamento entre outros, assim como medidas não-estruturais, como sirenes, normas e educação para corrigir erros da população. Uma vez que estudos mostram que só essa combinação minimizaria profundamente as inundações na cidade. Atualmente no máximo temos placas dos pontos de inundações e mensagens na internet, o que não antecipa o evento para motoristas e comerciantes que já estão próximos.

E falando em arborização, porque não fazer isso nas regiões suscetíveis a inundações? Praças com gramas já tem solos permeáveis e, portanto é mais urgente modificar regiões asfaltadas para ter áreas com solo exposto para absorver águas da chuva. Por exemplo, o Calçadão da General Osório poderia ser todo arborizado, algo semelhante à Praça da XV. Isso não só melhoraria esteticamente o local, aumentando inclusive o comércio por atrair mais pessoas, como aumentaria a absorção da água. Assim como isso ser aplicado ao máximo possível na região.

Falando em arborização, precisamos também urgentemente em áreas de baixada,recargas de rios e lençóis freáticos, entre outros pontos, renaturalizar. Isso significa plantar espécies naturais da região, retirar e desfazer todas as alterações humanas (como asfalto, diques, canos etc). Literalmente tentar tornar a região como Deus a criou. Pois só com a mata ciliar que rios terão sua vazão e capacidade de absorção suficientes para escoar a água das chuvas e reduzir inundações.

Assim como os bueiros precisam ser limpos e criados mais na cidade. Além disso, poderíamos usar os “bueiros inteligentes” que já são usados em algumas cidades, que “filtram” a água que chegam segurando pedaços grandes de sujeira, evitando entupimento nas tubulações. Porém essa medida implicaria em maior fiscalização

Bueiro Inteligente

Entretanto todas essas medidas teriam que ser acompanhadas de constante fiscalização, não como vem ocorrendo com praças abandonadas e permitir que árvores grandes apodreçam até cair.

Claro que várias pessoas já pensaram em tudo isso antes, mas sempre foram vencidas com o argumento: “Precisa de muito dinheiro e apoio do Governo Estadual”. Entretanto essas medidas podem ser aplicadas aos poucos, logo não sendo tão caras, além de que quando é para benefício próprio nunca falta dinheiro. Ou vamos esquecer-nos do aumento de funcionários custando 3,5 milhões aos cofres públicos?

Contudo, para aplicar tudo isso seria necessário ajuda do Governo Estadual, mas infelizmente nosso sistema não ajuda, tanto que na atual ALESP não teremos nenhum são carlense. Mas para resolver isso só com voto distrital como expliquei aqui e aqui. Mas isso é outra é questão.

*Se gostou, compartilhe com amigos e parentes da região, e se inscreva no meu canal onde pode aprender mais sobre biologia, política entre outros temas: https://www.youtube.com/channel/UChmtx2HFJ-96qYVwtURfj7Q

Ezequiel Luztosa

Written by

Fundador da página/canal Biologia Política. Amante da Biologia, História e Política

More From Medium

Related reads

Related reads

Dec 24, 2018 · 12 min read

132

Related reads

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade