Pedro I: A Encarnação do verdadeiro Brasil

Ezequiel Luztosa
Sep 8, 2018 · 5 min read

Eu, como infelizmente a maioria dos brasileiros, enxergava Dom Pedro I apenas como um medíocre irresponsável que teve sorte do Brasil cair em seu colo e depois teve a incompetência de perdê-lo e quase destruí-lo.

Entretanto quando passei a estudar sobre ele me espantei quão complexo era sua pessoa e como, provavelmente não por acaso, ele encarnava perfeitamente as características históricas do Brasil.

A primeira semelhança que salta aos olhos era que nosso primeiro Imperador era um conjunto de contradições :

Educado para ser um Absolutista, tinha tendências liberais; apesar de possuir frágil saúde, adorava cavalgar e guerrear; era normalmente amigável e carismático, mas tinha explosões de raiva e violência; oficialmente era católico, mas sempre esteve rodeado (e influenciado) por não católicos (como maçons e luteranos); etc

Outra característica marcante é que ele não era considerado intelectual nem mesmo cortês para um príncipe da época (mas estava longe de ser burro, dominando 4 línguas e um exímio músico). Em vários momentos ele conversou com escravos e livres comuns (plebeus) sendo muitas vezes nem mesmo reconhecido como o Príncipe. Isso se deve a sua infância: Quando a Família Real chegou no Brasil, Dom Pedro tinha 9 anos. Na infância e adolescência ele passou mais tempo brincando com plebeus cariocas como uma criança comum. Não à toa, os portugueses pejorativamente o chamavam de “rapazinho brasileiro”.

Muito semelhante ao Brasil que (infelizmente) nunca prezou pela intelectualidade e é até hoje marcado por um comportamento autentico, sem muitas regras de etiqueta.

Todas essas características foram marcantes em sua vida e lembram nosso país contraditório, amável, religioso (pero no mucho),violento, inculto e autêntico. E explicam também vários eventos que são muito mal ensinados.

Por exemplo, na elaboração da Constituição de fato nosso Imperador dissolveu o Congresso Constituinte e mandou amigos próximos redigir uma Nova Carta. Mas antes disso acontecer ele permitiu o livre debate, mas os problemas dinásticos (no acordo da Independencia feito com Portugal, Dom Pedro I continuava como sucessor legítimo de Dom João VI que já se aproximava da morte) e inclusive Bonifácio insinuou que havia um movimento português para retornar Brasil ao status de colônia, sendo o Imperador parte disso. Além disso, os irmãos de Bonifácio e grande parte dos constituintes queriam criar na prática uma República, com o Imperador sendo apenas simbólico. Como acha que um cara explosivo e que literalmente colocou o pescoço a prova pela Independência agiria?

Assim o Imperador desfez a constituinte e mandou amigos redigirem o mesmo projeto de Constituição dos Andradas, dando-lhe poderes bastante significativos (Poder Moderador). O resultado, foi muito próximo da personalidade contraditória do Imperador: Apesar de manter características do Antigo Regime, com Rei com poderes e Igreja Ligada ao Estado, a Carta dava liberdade de expressão (algo raro para época), descriminalizou o homossexualismo (um dos primeiros países do mundo a fazer isso), protegia propriedade privada etc. Além disso, apesar de outorgada violentamente, ela antes passou pelas Câmaras Municipais e foi aceita pela grande maioria. Ou seja: Teve validação popular indireta.

Inclusive pudermos avaliar na prática se a Constituição de 1824 seria melhor com ou sem Poder Moderador: Durante os Governos Monarquicos (1822–1831 e 1838–1889)e Regencial (1831–1838). Apesar de todos os problemas com os governos monarquicos, eles de sobra foram melhores que o regencial marcado por revoltas, instabilidade, golpes etc. Isso não ocorreu por uma suposta superioridade da Monarquia, mas por problemas estruturais daquela Constituição: Inicialmente ela nem tinha a função de Primeiro Ministro e não havia nenhuma lei ou condicionamento que obrigasse o Parlamento ser fiel ao Governo escolhido (chamado de Gabinete), fazendo assim que em poucos meses sempre havia uma mudança da liderança de maneira radical (algo natural já que a prática republicana ainda era nova para época). Já o “Poder Moderador” trazia estabilidade mesmo com a troca de Gabinetes, uma vez que o Imperador quase tudo se envolvia.

Por fim, devemos entender os motivos da sua renuncia: Dom Pedro I era criticado por ter perdido o Uruguai (Cisplatina), seu caso extraconjugal com Domitila, centralismo, divergências com o Parlamento e perdeu sua popularidade quando foram espalhados detalhes do acordo de Independência. Tudo implodiu quando Miguel, seu irmão,quebrou o acordo com Pedro I (depois que Dom João Vi morreu, Dom Pedro I renunciou ao trono português e passou para sua filha mais velha e pediu que Miguel fosse seu tutor até ela chegar a maioridade, mas na primeira oportunidade ele surrupiou o trono).

O jovem Imperador poderia continuar no Brasil e pela violência continuar no poder. Isso poderia suscitar uma guerra civil violenta que poderia destruir o país, além de Portugal continuar Absolutista. Mas com a renuncia de Dom Pedro I, ele se tornou uma espécie de Bode Expiatório e toda impopularidade foi para ele, não para Coroa e inicialmente nem para o Governo que inicialmente teve facilidade para fazer as reformas que queria (mesmo as ruins).

O importante é que seu movimento manteve a unidade nacional, as Instituições e inclusive sua dinastia já que o futuro Pedro II continuou aqui protegido e educado por grandes líderes brasileiros. E assim Dom Pedro pode retornar para Europa e usando seu carisma característico conseguiu formar um pequeno exército de voluntários e avançou para Portugal, para libertar sua terra-mãe.

Dom Pedro I lutou na linha de frente, cuidou de feridos, cavou trincheiras e mesmo em menor número conseguiu superar as forças de seu irmão e depô-lo salvando Portugal. Mas com grave preço: Ferido, com ataques epilépticos e tuberculose teve uma longa e dolorosa morte. Em seus últimos momentos passou o trono para sua filha,que governou constitucionalmente,pediu comoventemente o fim da escravidão no Brasil (já no Brasil ele sempre militou pelo fim gradual da escravidão, como por exemplo não usando e libertando escravos, além de negar que seu sangue fosse diferentes de negros) e passou o trono para a filha. Morreu no quarto que nasceu que é ornamentado até hoje com gravuras de Dom Quixote. Por seus feitos foi batizado pelos portugueses como:” Dom Pedro IV, o Libertador, o Herói de dois povos”

Portanto, longe de ser um irresponsável sortudo, Dom Pedro I foi um grande líder que não só no salvou da anarquia de uma separação como salvou Portugal do Absolutismo, e ainda era marcado pelas mesmas características, boas ou ruins, que parecem ser a essência de nosso ser. Ou como diria Evaristo Veiga, liberal que foi opositor ferrenho de Dom Pedro quando este ainda era Imperador do Brasil:

“ O antigo imperador do Brasil não era um príncipe de medida ordinária … e a Providência fez dele um poderoso instrumento de libertação, tanto no Brasil quanto em Portugal. Se nós [brasileiros] existirmos como um corpo em uma nação livre, se nossa a terra não foi dilacerada em pequenas repúblicas inimigas, onde predominava apenas a anarquia e o espírito militar, devemos muito à resolução que ele tomou em permanecer entre nós, ao fazer o primeiro grito pela nossa independência.[…]Portugal, se libertado da mais escura e humilhante tirania … se goza dos benefícios trazidos pelo governo representativo aos povos eruditos, deve-se ao D. Pedro de Alcântara, cujas fadigas, sofrimentos e sacrifícios pela causa portuguesa lhe renderam em alto grau o tributo da gratidão nacional. “

Written by

Um pobre diabo em busca de autoconhecimento. Amante da Biologia, História e Política

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade