Pedro I: A Encarnação do verdadeiro Brasil

Eu, como infelizmente a maioria dos brasileiros, enxergava Dom Pedro I apenas como um medíocre irresponsável que teve sorte do Brasil cair em seu colo e depois teve a incompetência de perdê-lo e quase destruí-lo.
Entretanto quando passei a estudar sobre ele me espantei quão complexo era sua pessoa e como, provavelmente não por acaso, ele encarnava perfeitamente as características históricas do Brasil.
A primeira semelhança que salta aos olhos era que nosso primeiro Imperador era um conjunto de contradições :
Educado para ser um Absolutista, tinha tendências liberais; apesar de possuir frágil saúde, adorava cavalgar e guerrear; era normalmente amigável e carismático, mas tinha explosões de raiva e violência; oficialmente era católico, mas sempre esteve rodeado (e influenciado) por não católicos (como maçons e luteranos); etc
Outra característica marcante é que ele não era considerado intelectual nem mesmo cortês para um príncipe da época (mas estava longe de ser burro, dominando 4 línguas e um exímio músico). Em vários momentos ele conversou com escravos e livres comuns (plebeus) sendo muitas vezes nem mesmo reconhecido como o Príncipe. Isso se deve a sua infância: Quando a Família Real chegou no Brasil, Dom Pedro tinha 9 anos. Na infância e adolescência ele passou mais tempo brincando com plebeus cariocas como uma criança comum. Não à toa, os portugueses pejorativamente o chamavam de “rapazinho brasileiro”.
Muito semelhante ao Brasil que (infelizmente) nunca prezou pela intelectualidade e é até hoje marcado por um comportamento autentico, sem muitas regras de etiqueta.
Todas essas características foram marcantes em sua vida e lembram nosso país contraditório, amável, religioso (pero no mucho),violento, inculto e autêntico. E explicam também vários eventos que são muito mal ensinados.
Por exemplo, na elaboração da Constituição de fato nosso Imperador dissolveu o Congresso Constituinte e mandou amigos próximos redigir uma Nova Carta. Mas antes disso acontecer ele permitiu o livre debate, mas os problemas dinásticos (no acordo da Independencia feito com Portugal, Dom Pedro I continuava como sucessor legítimo de Dom João VI que já se aproximava da morte) e inclusive Bonifácio insinuou que havia um movimento português para retornar Brasil ao status de colônia, sendo o Imperador parte disso. Além disso, os irmãos de Bonifácio e grande parte dos constituintes queriam criar na prática uma República, com o Imperador sendo apenas simbólico. Como acha que um cara explosivo e que literalmente colocou o pescoço a prova pela Independência agiria?
Assim o Imperador desfez a constituinte e mandou amigos redigirem o mesmo projeto de Constituição dos Andradas, dando-lhe poderes bastante significativos (Poder Moderador). O resultado, foi muito próximo da personalidade contraditória do Imperador: Apesar de manter características do Antigo Regime, com Rei com poderes e Igreja Ligada ao Estado, a Carta dava liberdade de expressão (algo raro para época), descriminalizou o homossexualismo (um dos primeiros países do mundo a fazer isso), protegia propriedade privada etc. Além disso, apesar de outorgada violentamente, ela antes passou pelas Câmaras Municipais e foi aceita pela grande maioria. Ou seja: Teve validação popular indireta.
Inclusive pudermos avaliar na prática se a Constituição de 1824 seria melhor com ou sem Poder Moderador: Durante os Governos Monarquicos (1822–1831 e 1838–1889)e Regencial (1831–1838). Apesar de todos os problemas com os governos monarquicos, eles de sobra foram melhores que o regencial marcado por revoltas, instabilidade, golpes etc. Isso não ocorreu por uma suposta superioridade da Monarquia, mas por problemas estruturais daquela Constituição: Inicialmente ela nem tinha a função de Primeiro Ministro e não havia nenhuma lei ou condicionamento que obrigasse o Parlamento ser fiel ao Governo escolhido (chamado de Gabinete), fazendo assim que em poucos meses sempre havia uma mudança da liderança de maneira radical (algo natural já que a prática republicana ainda era nova para época). Já o “Poder Moderador” trazia estabilidade mesmo com a troca de Gabinetes, uma vez que o Imperador quase tudo se envolvia.
Por fim, devemos entender os motivos da sua renuncia: Dom Pedro I era criticado por ter perdido o Uruguai (Cisplatina), seu caso extraconjugal com Domitila, centralismo, divergências com o Parlamento e perdeu sua popularidade quando foram espalhados detalhes do acordo de Independência. Tudo implodiu quando Miguel, seu irmão,quebrou o acordo com Pedro I (depois que Dom João Vi morreu, Dom Pedro I renunciou ao trono português e passou para sua filha mais velha e pediu que Miguel fosse seu tutor até ela chegar a maioridade, mas na primeira oportunidade ele surrupiou o trono).
O jovem Imperador poderia continuar no Brasil e pela violência continuar no poder. Isso poderia suscitar uma guerra civil violenta que poderia destruir o país, além de Portugal continuar Absolutista. Mas com a renuncia de Dom Pedro I, ele se tornou uma espécie de Bode Expiatório e toda impopularidade foi para ele, não para Coroa e inicialmente nem para o Governo que inicialmente teve facilidade para fazer as reformas que queria (mesmo as ruins).
O importante é que seu movimento manteve a unidade nacional, as Instituições e inclusive sua dinastia já que o futuro Pedro II continuou aqui protegido e educado por grandes líderes brasileiros. E assim Dom Pedro pode retornar para Europa e usando seu carisma característico conseguiu formar um pequeno exército de voluntários e avançou para Portugal, para libertar sua terra-mãe.
Dom Pedro I lutou na linha de frente, cuidou de feridos, cavou trincheiras e mesmo em menor número conseguiu superar as forças de seu irmão e depô-lo salvando Portugal. Mas com grave preço: Ferido, com ataques epilépticos e tuberculose teve uma longa e dolorosa morte. Em seus últimos momentos passou o trono para sua filha,que governou constitucionalmente,pediu comoventemente o fim da escravidão no Brasil (já no Brasil ele sempre militou pelo fim gradual da escravidão, como por exemplo não usando e libertando escravos, além de negar que seu sangue fosse diferentes de negros) e passou o trono para a filha. Morreu no quarto que nasceu que é ornamentado até hoje com gravuras de Dom Quixote. Por seus feitos foi batizado pelos portugueses como:” Dom Pedro IV, o Libertador, o Herói de dois povos”
Portanto, longe de ser um irresponsável sortudo, Dom Pedro I foi um grande líder que não só no salvou da anarquia de uma separação como salvou Portugal do Absolutismo, e ainda era marcado pelas mesmas características, boas ou ruins, que parecem ser a essência de nosso ser. Ou como diria Evaristo Veiga, liberal que foi opositor ferrenho de Dom Pedro quando este ainda era Imperador do Brasil:
“ O antigo imperador do Brasil não era um príncipe de medida ordinária … e a Providência fez dele um poderoso instrumento de libertação, tanto no Brasil quanto em Portugal. Se nós [brasileiros] existirmos como um corpo em uma nação livre, se nossa a terra não foi dilacerada em pequenas repúblicas inimigas, onde predominava apenas a anarquia e o espírito militar, devemos muito à resolução que ele tomou em permanecer entre nós, ao fazer o primeiro grito pela nossa independência.[…]Portugal, se libertado da mais escura e humilhante tirania … se goza dos benefícios trazidos pelo governo representativo aos povos eruditos, deve-se ao D. Pedro de Alcântara, cujas fadigas, sofrimentos e sacrifícios pela causa portuguesa lhe renderam em alto grau o tributo da gratidão nacional. “
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