A transgressão conservadora da sétima arte

O cinema como ferramenta de retrocesso


O nascimento do cinema por si próprio foi uma revolução, tanto no modo de se fazer arte como no modo de apreciá-la. Entretanto, a insurreição artística teve que passar por um processo que transformaria a inventividade, a atitude e o apelo em bem de consumo.

A primeira projeção da história foi o filme “La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon” realizada pelos irmãos Lumière em 1895 no Salon Indien du Grand Café, um centro cultural parisiense frequentado por figuras abastadas. Um ano depois, o também francês, Eugène Pirou projetou na tela a primeira cena de nudez feminina na película “Les Époux Vont au Lit”, na qual uma mulher despe-se para o marido. Creio não precisar dizer que a segunda obra citada caiu no ostracismo comercial.

Uma vez que a obra dos Lumière filma a saída dos funcionários de uma fábrica, concluo que o conteúdo do filme de Eugène Pirou é mais excitante, pois explora pela primeira vez a nudez humana em real movimento. Vou mais longe, garanto que muitos franceses daquela época pensaram o mesmo, porém, as convenções sociais os fizeram mudar de ideia.

O cinema, desde o início, teve de obedecer a implacável regra de atender a demanda de maneira satisfatória. Por esse motivo, hoje em dia, os grandes cinemas estão inundados com blockbusters americanos retratando a saga do herói, seja ele um adolescente excitado ou um asgardiano arrogante. O experimentalismo lírico ou a profundidade existencialista do cinema iraniano e alemão, respectivamente, perdem espaço e investimentos para a violência explosiva.

Os conceitos que regem a produção cultural que clamam pela violência são os mesmos que repudiam o sexo cinematográfico que não é estereotipado. Em 1999, por exemplo, na lista das maiores bilheterias do cinema americano estão títulos como “Star Wars: Episode I — The Phantom Menace”, “The Mummy” e “Austin Powers: The Spy Who Shagged Me”. Enquanto “Eyes Wide Shut”, de Stanley Kubrick, foi altamente censurado e modificado por conter cenas de sexo e nudez frontal, mesmo estas sendo cruciais para o desenvolvimento do roteiro sobre um médico de classe alta que acidentalmente se envolve em um ritual milenar e secreto.

Por mais transgressora que a invenção do cinema tenha sido, desde os Lumière até os Vingadores, existe certo conservadorismo por parte da grande massa que consome as produções. Direções criativas e experimentalismos técnicos ficam restritos a salas acanhadas e escondidas nos grandes centros culturais ou nas prateleiras cheias de clássicos de cinéfilos declarados. Essa é a lógica da indústria onde a violência é aplaudida e a sexualidade é vulgarizada ou escondida.

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