O bairro do Jardim Ângela, localizado na zona sul da cidade de São Paulo, possui uma série de peculiaridades. Nascido das invasões de terra nos anos 1960, foi por muito tempo uma das últimas zonas urbanas do extremo sul paulistano antes da chegada de muitas famílias para áreas mais afastadas como o Jardim Jacira, o Jardim Vera Cruz e o Jardim Horizonte Azul, por exemplo. Porém, a própria geografia da região faz com que o Jardim Ângela seja o principal centro urbano. Praticamente todas as linhas de ônibus passam pelo bairro antes de se dirigirem ao destino final.
Outra curiosidade é que há apenas uma grande via que conecta a região ao restante da cidade, a Estrada do M’boi Mirim. Com quase dez quilômetros de extensão, termina em um acesso à Marginal Pinheiros e à região de Santo Amaro. Mas como era de se esperar, ter um único acesso gera trânsito. No trecho que começa a partir do número 5.500 da estrada, entre 5h30 e 8h00 da manhã, o trânsito assume a forma de uma fila de incontáveis ônibus, “lotações” e carros com pessoas apressadas para chegar ao trabalho. Tal fato dá início a uma procissão forçada de pedestres que ao invés de entoarem orações exclamam palavrões e reclamações contra o governo, contra o trânsito, contra o clima, contra o sapato desconfortável ou qualquer coisa que exista. O destino é o Terminal Jardim Ângela, ponto de partida de ônibus para bairros como Pinheiros, Ana Rosa e o Centro.
O último aspecto talvez seja o menos agradável. No ano de 1996 a Organização das Nações Unidas (ONU) apontou o distrito como o mais violento do mundo. Naquele ano a taxa de homicídios era de 98 para cada 100 mil habitantes. Para traçar um comparativo, atualmente o estado com mais homicídios é Alagoas com 66,8 para cada 100 mil habitantes. O maior número de vítimas tinha entre 15 e 29 anos, porém, os 266 mil habitantes da região na época passaram a sentir medo e temer pela própria segurança.
Em 2013, dezessete anos após ter recebido o título pouco desejado da ONU, a realidade dos habitantes do Jardim Ângela mudou. No campo da estatística os números referentes à criminalidade baixaram para níveis aceitáveis em um bairro da periferia paulistana e o índice de desemprego entre os moradores também diminuiu. No cotidiano a paisagem não mudou muito. É extremamente difícil não ver uma fiação elétrica com uma pipa destruída ou uma “rabiola” tremulando ao vento. E, ao olhar para baixo, mesmo com a fiscalização por conta da Lei Cidade Limpa, é comum ver nos postes anúncios de políticos ou de pessoas especializadas na compra de ouro, dólar e euro. Uma menção honrosa para os anúncios de caravanas para o programa Sílvio Santos, que procuram mulheres entre 18 e 25 anos para ficar na plateia (falar com Sônia).
As pichações estão presentes em qualquer lugar que se olha. Desde fachadas de lojas até muros de terrenos inabitados. Algumas poucas em locais tão altos que fica impossível não parar e pensar em como foram feitas (servem como distração durante as procissões forçadas pelo trânsito).
A população, que agora é composta por 300 mil habitantes, se vê entre a rotina cotidiana e a violência da grande cidade. Exemplo disso é Anderson Godói, 32 anos. Morador do bairro por toda a vida, divide o tempo entre três atividades: trabalha no recém-construído Centro de Educação Infantil (CEI) Tiquira, gerencia um bar localizado na frente de sua casa e fabrica chinelos com uma máquina caseira. Casado e com um filho, acredita que nos últimos quinze anos a situação da segurança no bairro piorou. “O grande problema são os de menor”, afirma. Por ter vivenciado os dois momentos do bairro de perto, Anderson diz que na verdade a violência se popularizou. “Naquela época a gente sabia onde estava a violência, agora a gente não sabe o que esperar. Tem muito de menor fazendo besteira e ninguém faz nada”.
Anderson, entre outras coisa, fica na entrada do CEI dando informações. Ele fica ao lado da entrada, entre os murais que informam os dias da distribuição de leite e a lista de materiais. “As crianças devem trazer uma camisa velha do pai para a aula de pintura”. A arquitetura com bastante vidro permite ver as crianças pintando ou em fila indiana, de mãos dadas, descendo as escadas. “Falta participação da família na escola. As crianças nessa idade não tem maldade nenhuma”, diz apontando, “se a família tivesse chance de participar também dessa fase na escola seria melhor”. Anderson acredita que as facilidades de aprendizado que as crianças de hoje em dia tem, em um bairro problemático, favorecem a violência. “Quando eu tinha quinze anos queria um tênis ou uma roupa de marca. Com essa idade tem criança fumando e bebendo agora”.
O terreno em que está localizada o CEI é bastante grande e passou os últimos 20 anos abandonado. Enquanto as crianças entre dois e seis anos brincam em um oposto, no outro começa a ser construída uma escola de ensino fundamental. A casa de Anderson fica exatamente na rua de cima. Enquanto ele trabalha na CEI a esposa cuida do bar, depois do expediente ele assume o balcão e a esposa vai fabricar os chinelos em casa. “Os chinelos estão dando mais retorno, daqui a pouco eu fecho o bar”, diz Anderson apontando para sua casa verde, mais ao alto. “Uma coisa que eu não faço é sair à noite com a minha família. Saio de dia, no sábado ou domingo, mas não arrisco sair depois que anoitece”. Na realidade vivida por Anderson o medo da violência ainda existe.
O Jardim Ângela passa pela mesma dificuldade que todos os bairros afastados dos grandes centros comerciais: a dificuldade de acesso. A Estrada do M’boi Mirim não melhora muito nos outros bairros que corta. Por esse motivo a saída mais fácil para uma boa parte da população é abrir o próprio negócio. Alguns microempreendedores têm condições de alugar grandes salões bem localizados para criar mercados, lojas de roupa, farmácias e lojas de R$1,99 que vendem produtos de R$ 30, 00 que, na verdade, valem menos que R$1,99.
Para outros microempreendedores as condições financeiras são menos favoráveis, mas a facilidade de abrir um negócio próprio é maior. Basta derrubar um muro para inaugurar um lava rápido, abrir uma janela a mais na cozinha para ter uma lanchonete ou limpar uma garagem pouco utilizada para ter um bar.
O mais interessante é que as grandes redes não possuem espaço nesses centros urbanos, com exceção da loja de chocolates “Cacau Show” e da perfumaria “O Boticário”. Em lugares como o Jardim Ângela sobram nomes nos letreiros. “Jô Biju e Perfumaria”, “Cris Lingerie”, “Gabi Modas” e “Antonio’s Bar” são exemplos de que as pessoas, por mais que tenham rotinas agitadas, se conhecem e preferem comprar nos comércios dos vizinhos. Ou que os donos gostam e tem orgulho de ver seus nomes nos letreiros.
Os bares tem uma presença constante no Jardim Ângela. São lugares em que os vizinhos se encontram para conversar e onde casos de violência acontecem. Por exemplo, em novembro do ano passado uma chacina deixou três mortos e onze feridos. Em 1998 o pedido de segurança por parte da população foi atendido e bases policias foram construídas. Uma próxima ao Jardim Ranieri, limites do bairro, e outra colocada no centro da região. Posteriormente outra base foi colocada no bairro, totalizando três bases em um espaço menor que dois quilômetros. O policiamento mais presente diminui a criminalidade, mas as pessoas ainda tem medo.
Clóvis Neris, 34 anos, é um dos vários donos de bar da região. “Mas o retorno maior eu tiro como feirante”, afirma ajeitando os óculos. Morou a vida inteira no bairro e acha que a situação da segurança pública piorou. “Em lugares como esse a polícia não deveria andar de uniforme. É injusto, por que todo mundo sabe quem é polícia e os bandidos ficam escondidos”.
Casado e pai de três filhas, Clóvis se dedica à feira e abre o bar sempre que pode. Fala de outro problema constante relacionado a criminalidade do bairro: o jogo ilegal. “Sempre os caras passam oferecendo as máquinas (caça níqueis), mas eu não vou me envolver com isso mais não”, diz o feirante que já teve que prestar serviços comunitários pelo envolvimento com jogo. “Deixaram avisado que na próxima eu vou preso”.
Clóvis acha que a violência de hoje está diretamente envolvida com as facções criminosas da cidade, como o Primeiro Comando da Capital (PCC). “Quem entra (na cadeia) pode até não ser bandido, mas sai sendo. Isso atrapalha o bairro. O cara que foi preso aqui por uma coisa pequena volta bem pior”.
“Na última virada do ano”, conta Clóvis, “resolvi abrir o bar. Na hora dos fogos passou um cara atirando para o alto, mas ele virou a arma para o bar atirou em um rapaz. A bala atravessou a barriga dele mas deu tempo de socorrer. A gente não fica preparado por que a violência acontece toda hora e a gente nem vê”.
O Jardim Ângela possui um contraste bastante interessante. Ao mesmo tempo em que o poder aquisitivo de parte da população cresceu, parece que a outra parte permaneceu no mesmo lugar. Andar pelas ruas assimétricas do bairro revela discrepâncias inusitadas. É possível se deparar com carros de alto nível como o Veloster da Hyundai e o Cruze da Chevrolet e na esquina seguinte ver uma Brasília ou um Fusca, ambos da Volkswagen. Casas com arquitetura trabalhada são vizinhas de casas em eterna construção, improvisando acabamentos. Não é difícil ver um muro pintado com o número de um vereador de uma eleição antiga ou com um mascote da Copa do Mundo. Aliás, é bastante comum a tradição de decorar uma rua inteira para uma Copa pintando muros, guias, asfalto e qualquer coisa que o pincel alcance. Assim como colocar bandeirinhas, como as de festa junina, penduradas nos postes de energia. A grande diferença é que as bandeirinhas são facilmente retiradas, seja na alegria alcoolizada da vitória ou na ira também alcoolizada da derrota. Mas a pintura do muro com o mascote da Copa não é uma prioridade no orçamento das pessoas. Por isso o Footix, o galo azul e vermelho da Copa de 1998, passa anos (ou décadas) sorrindo (talvez ironicamente) para os brasileiros vencidos pelos gols de Zidane.
A numeração das casas não obedece a qualquer ordem ou lei matemática. O número 145 é vizinho do número 707, que por sua vez fica encostado no número 103. O carteiro fica completamente perdido ao descobrir que o número 50 fica logo depois do bar, número 252. Sem mencionar quando em uma única rua existem dois números iguais.
A única área que possui a numeração exata é a Estrada do M’boi Mirim, lugar em que os maiores investimentos são feitos. Por exemplo, o Hospital Dr. Moisés Deutsch ou Hospital Municipal M’boi Mirim. Desde os anos 1990 a população reivindicava um hospital que pudesse atender situações mais graves, como uma cirurgia de emergência, uma vez que a área possuía apenas postos de saúde. O alto número de pessoas baleadas ou vítimas de agressão mais grave exigia um atendimento ágil.
Em 2008 foi inaugurado o hospital, que entre janeiro e agosto de 2012 realizou quase 138 mil atendimentos no pronto socorro. Atualmente, na portaria trabalha Oziel Santos, 28 anos. O vigilante contratado por uma empresa terceirizada de segurança mora em um bairro próximo, o Jardim Guarujá. Diz que os casos mais comuns na emergência são pacientes baleados e vítimas de violência doméstica. Mas ele afirma que “o bairro é violento como outro qualquer”.
Para Oziel a violência que ainda acontece no Jardim Ângela é comum em bairros de periferia. “A violência é da cidade”. Segundo ele, a região melhorou bastante nos últimos anos. “Não é grande coisa, mas já temos lugares para jogar um futebol, passear. Onde há um hospital, um estacionamento de três andares e um terminal rodoviário há 10 anos não havia nada além de mato e um grande galpão abandonado”.
O vigilante simpático, que dá instruções para quem entra no hospital, acha que a violência atinge quem a procura. “Há um tempo dois caras em uma moto iam subindo rápido aqui em frente quando um policial começou a atirar. Eram umas 16h, todos se jogaram no chão. Eles estavam fazendo ‘cavalo’. O policial acertou dois tiros no garupa e a perseguição continuou bairro adentro”. O termo “cavalo” é utilizado para falar de uma fuga rápida de carro ou moto, ele explicou. Oziel acredita que o bairro melhorou, mas continua violento.
O Jardim Ângela ainda possui problemas de estrutura que influenciam nos índices de violência. As pessoas sabem que os riscos diminuíram mas sempre há certo receio. Não é incomum observar pais e maridos esperando filhas e esposas para evitar assaltos tarde da noite. Não é incomum ouvir boatos que em determinada rua, depois de certo horário, ocorrem assaltos. A violência não é tão explícita quanto em 1996.
As pessoas convivem com essa situação, com menos medo e mais cautela hoje em dia. Encaram isso como as outras características do bairro. Os inúmeros buracos no asfalto, as ruas estreitas que fazem ônibus e carros brigarem por espaço ou a falta de caixas eletrônicos na região (a maioria foi retirada por conta de ataques).
Mas algumas saídas poderão ser exploradas no futuro, mesmo nas questões práticas. Há quatro anos linhas de ônibus mudaram o trajeto para evitar o trânsito na estrada do M’boi Mirim utilizando a Estrada do Guavirituba. O começo da estrada é uma descida com cerca de 45 graus de inclinação e, dependendo da imprudência do motorista que desce sem o pé no freio, dá para sentir um frio na barriga semelhante a sensação de andar em uma montanha russa. É o tipo de experiência que só a urbanização não planejada proporciona. E, às vezes, é a mesma sensação de morar naquele que já foi o bairro mais perigoso do mundo.
Email me when Flávio Camargo publishes or recommends stories