do cinismo, independência ou morte

Fabiana Moraes
Sep 7, 2018 · 3 min read
meu nome é Alexandre Garcia e eu critico a barbárie enquanto incentivo a mesma

Nos últimos anos, participei de algumas seleções para premiar centenas de trabalhos jornalísticos. Tive a sorte de me deparar com reportagens incríveis de veículos os mais diversos, passando por portais do Piauí e Belém, jornais cariocas, televisões paulistas, programas de rádio de assembleias legislativas várias. Agência Pública, Ponte, Correio da Bahia, Diário do Nordeste, O Dia, Folha, TV Clube, Jornal do Commercio, Marco Zero, Globo. A última empresa, cuja qualidade técnica foi sempre elogiável, vem passando nos últimos anos por diversos enfrentamentos, o que é natural dado seu tamanho e influência no País e, principalmente, sua contínua disposição em participar dos rumos políticos da nação. Vendo produções excelentes de canais como a GloboNews, pensei na quantidade de bons e boas jornalistas que terminam não sendo reconhecidos/as frente a essa realidade. Gente que produz, por exemplo, documentários necessários e que são vistos por menos gente do que deveriam.

Uma coisa, porém, é certa: são os próprios colegas jornalistas da emissora que também contribuem para esse apagamento da capacidade e seriedade de parte da equipe de jornalismo da empresa (aqui incluindo sites, TV, jornal impresso, redes sociais). Um deles é o experiente Alexandre Garcia, uma das “caras” da Globo, comentarista do Bom dia, Brasil, colunista, dono de um programa da GloboNews e presente nas redes sociais. Tem 658 mil seguidores no Twitter. Ontem, para eles, postou que o candidato Jair Bolsonaro foi esfaqueado por UM ADVERSÁRIO. Contraditoriamente, lamentando a violência, afirmava que não era esse o país que queria e que tal situação era provocada pelo fanatismo. O post, que continua lá, foi escrito mesmo após a circulação de várias matérias contendo depoimentos (da PF, da irmã do agressor) informando que o Adélio Bispo tem desordem mental. Percebam: o jornalista, de grande visibilidade, lamenta a violência enquanto contribui para a existência da mesma. Ao rotular o agressor como UM ADVERSÁRIO, ele joga gasolina entre grupos já exaltados em um país que está em uma das mais instáveis situações de sua história recente.

Há quem não se impressione mais, eu sei, mas a irresponsabilidade do senhor Alexandre Garcia não só me choca, mas me envergonha como jornalista. Me envergonha tanto quanto nosso estado atual, quando em uma mesma semana perdemos em um incêndio parte de nossa história; quando um candidato diz que vai “metralhar a petralhada” e é aplaudido por isso; quando o presidente menos popular que já tivemos gasta parte do seu tempo dando recados em vídeos no Twitter; quando um candidato à presidência sofre uma agressão violenta, brutal, lamentável. Quando, enfim, estamos tão cansados, ofegantes e machucados que seria um alento contar com um jornalismo responsável e que não promovesse ainda mais um FLA-FLU — exatamente como o senhor Alexandre Garcia, hipocritamente lamentando a violência, fez.

É sete de setembro e estamos aos pedaços.

É sete de setembro e o Brasil ainda precisa vencer o tipo de jornalismo praticado por este experiente e tão visível senhor. É daquilo o que ele hoje representa que precisamos urgentemente de independência. É ela ou, como quase infelizmente vimos esta semana, a morte.

    Fabiana Moraes

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    jornalista, escritora e professora do Núcleo de Design e Comunicação da UFPE. autora dos livros O Nascimento de Joicy,Nabuco em Pretos e Brancos e Os Sertões

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