eu não sou sua negra

Cena do filme Corra!, que mostra o encontro da ESQUERDA QUE APARECE com pessoas negras

Na última sexta-feira discotequei na festa de abertura do X Janela Internacional de Cinema do Recife.

Foi ótimo: na última semana carreguei um corpo muito dolorido por conta da garganta indócil, inflamada; carreguei também o corpo dolorido e adoentado, mas produtor, que precisava pensar express para a entrega de um artigo que não faço ideia se vai ser aceito; carregava (na verdade, é presente, não passado) o corpo dolorido pós conversas muito duras sobre meu lugar entre os “não canônicos” (as pessoas que compõem a síntese famosa do deputado federal Luis Carlos Heinze, do PP-RS: negras, índios, lésbicas, transexuais, travestis, “essa gente que não presta”, nas palavras do congressista).

Eu só queria dançar como se toma um banho de mar.

“Reggie, às vezes ser negro e despreocupado é um ato de revolução”. Adoro essa frase do Cara Gente Branca, dita ao personagem sempre ativista e que tenta falar de política em uma noite de sábado.

Bem, mas a gente de “tom de pele azeitonado” sabe que as coisas que agarram no olho e na pele não somem em uma pista de dança.

Desde que cheguei na festa, sorrindo, feliz, encontrando gente que amo, comecei quase sem querer a minha íntima e coletiva contabilidade. Iniciei a contagem. Comecei por mim.

(enquanto contava, passavam nos meus ouvidos as vozes de Deize, Ronnie Von, Peaches. White Stripes, Originais do Samba, Cesaria. Eagles, Gil, Linn).

Só voltei para casa às seis da manhã. Feliz, exaurida, os pés doendo. Mas com o zunido incômodo na cabeça. E não foi o som alto. Na minha parca soma, foram nove pessoas negras na festa, contando comigo. Certamente esse número poderia aumentar sensivelmente se eu tivesse circulado mais no quintal do prédio do IAB, no Derby. Passei mais tempo na pista. Mas isso não mudaria quase nada o tom da festa. O tom branco.

No outro dia, na sessão de Aliens, O Resgate, no Janela, fiz o mesmo exercício. Apurei o olho para procurar. Domingo, na sessão de As Boas Maneiras, repeti. Em ambas tinha um pouco mais de pessoas negras, é verdade. Mas, de novo, tratava-se de uma branquitude imperativa.

Cara Gente Branca e uma frase para lembrar ao mundo que também precisamos dançar

A questão da branquitude em um festival grande e significativo culturalmente como o Janela (que tem na programação deste ano um espaço dedicado à temática negra, o L.A. Rebellion, além de uma discussão sobre a presença de negros no cinema) não é apenas uma questão da branquitude em um festival grande e significativo culturalmente como o Janela.

A questão, nacional, histórica e perversa, é a branquitude no espaço da arte, da estética e, mais amplo que janelas, da ESQUERDA QUE APARECE. Tenho pensado especificamente na última porque se trata do ambiente no qual circulo, no qual está boa parte das pessoas que leem algo que escrevo, com quem falo, amigos, gente que gosto, respeito e amo.

(…)

Aqui, peço licença para o exercício do texto dentro do texto. Quero falar só um pouco mais dessa esquerda antes de voltar para o festival. A esquerda que aparece é aquela que, vejam só, pode falar mais amplamente por mim e todos nós que, segundo o deputado Heinze (agrônomo, fazendeiro e dono de quase 8 milhões de reais declarados em 2014, me diz o Wikepedia), “não prestam”. Ao falar sobre nós, os eternos Outros, suas vozes ecoam altas, fortes, heróicas. Claro que esse heroísmo será todo dela, não será transferido para mim: eu já posso me dar por satisfeita por ser observada, problematizada. Posso dizer que está tudo bem, pois virei tema.

Negros não salvam brancos, afinal de contas.

Lá na festa, eu estava dançando, tentando fingir por algumas horas que estava tudo bem, quando um rapaz muito simpático se aproximou de mim e começou a dizer que eu tinha que ler um livro que ele acabara de ler sobre questões raciais, “era muito, muito bom, eu tinha que ler”, pois ele “lembrou de mim”. Eu ri, disse ok, quero ler sim. Depois outra colega me apresentou uma garota negra de longas tranças e disse que a gente “tinha que se conhecer.”

Eu fico pensando nas vezes que interpelei pessoas brancas em uma festa, o som nas alturas, para dizer coisas desse registro. Bem, talvez eu deva começar a fazê-lo. “Ei, amiga branca, esse é fulano, um amigo branco, seria massa se vocês se conhecessem, vocês tem muita coisa em comum, entre elas achar que pessoas negras não podem dançar em paz em uma festa sem terem que discutir tratados raciais na pista”.

Ah, preciso dizer que essas pessoas fazem parte da ESQUERDA QUE APARECE.

Dessa esquerda fazem parte algumas feministas, brancas, que aparecem como muito próximas das “lutas das negras”. O limite é quando uma de nós questiona outra branca: aí surge o horror, o arrepio, o repúdio. Mas nada tão forte que não impeça esse mesmo feminismo branco de continuar saindo ao nosso lado nas fotos (capitalização da imagem é tudo) ou de aceitar nosso dinheiro.

Bem, eu, especificamente, tenho um recado para vocês: eu não sou a sua negra.

Essa ESQUERDA QUE APARECE muitas vezes fica confusa quando é questionada por aqueles que ela se acostumou a salvar. Nos olha e diz: mas afinal, o que vocês querem?

Bem, eu tenho um segundo recado: queremos seus salários. Queremos todas as oportunidades que você teve para conquistá-los. As mulheres negras, por exemplo, ganham 60% MENOS QUE UM HOMEM BRANCO NO BRASIL. Já a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) aponta que 90% de pessoas transexuais e travestis estão na prostituição por falta de oportunidade de trabalho.

O que para muita gente é “apenas” uma luta identitária faz parte fundamental da estrutura social desigual do Brasil. A pergunta, assim, só revela um profundo desconhecimento do nosso ao redor. Pelo menos do ao redor dos índios, das bichas, das negras, quilombolas, travestis, das pessoas transgêneras.

Desse povo que, segundo o agronegócio, não presta.

(…)

Voltando ao Janela (sem nunca ter saído, me parece): fico pensando em que momento vamos ultrapassar essa difícil e desconcertante situação de falar sobre questões que não se prolongam, DE FATO, entre as pessoas que estão sendo discutidas. Isso acontece ainda na universidade pública, apesar de ganhos potentes e históricos em seu interior, com as cotas colorindo salas de aula. Isso acontece por conta de um investimento ridículo dedicado para as escolas municipais.

Isso acontece, é verdade, e não são festivais ou museus (ou festas) que precisam ser implicados sozinhos nessa realidade. O não investimento educacional é o não investimento em arte. Ao mesmo tempo, e principalmente em um momento no qual é a arte que está sendo disputada, traçada por vários grupos como espaço de MÁ formação, quais as estratégias que precisamos adotar para promover um urgente contra discurso?

Inserir a negritude como tema, como programação, vai ser suficiente? Me parece que não.

No caso do festival, que tem essa parte do programa permeado pela cor negra, penso em como seria incrível que as mesmas pessoas pretas estivessem usufruindo dessa seleção — e de tantas outras.

O mesmo se dá em outros espaços da arte: lembro-me de uma exposição, ano passado, na Pinacoteca, SP. Eram trabalhos de artistas negros, apenas negros, sendo expostos. Um domingo de manhã, fui ao local ver e… adivinhem.

Em 2015, um grupo de 25 pessoas negras adentrou a Galeria Milan, na Vila Madalena, na exposição do artista Afonso Tostes. Foi um espanto. Era muita gente preta em uma galeria, o que causou certo desconforto. Um desconforto nunca, NUNCA sentido quando vemos, por exemplo, 25, 40, 60 pessoas brancas em uma exposição. Ou 200 pessoas brancas em uma festa.

No caso da Milan, eram negros e negras que internalizaram os códigos do mundo da arte — a ação, que acho maravilhosa, não teria sido possível sem isso. Internalizaram sem docilidade e estavam se contrapondo.

Foi preciso que eles fossem até a galeria, em grupo, em muitos, para serem vistos. Um rolezinho sem participação especial da polícia. Estas pessoas não esperaram virar tema: elas, por conta própria, se fizeram objeto de ação, de fissura, de pertinência. Se tematizaram. E isso é incrível.

Mas, quando alguém branco puxa meu braço na pista e diz “você precisa conhecer esta outra negra” ou quando temos exposições, festivais, rodas de conversa, etc, sobre pessoas QUE NÃO ESTÃO presentes para discutir sobre SUAS PRÓPRIAS VIDAS, devemos nos perguntar o que diabos estamos fazendo, o que diabos estamos reproduzindo e como diabos podemos superar isso.

Eu não estou a serviço de ninguém como pauta. Mulheres negras, pessoas transexuais, travestis, indígenas, não estão a serviço da capitalização do discurso de pessoas brancas. É importante, fundamental, que estejamos sim perto uns dos outros para dar conta do vagalhão de vômito que assola o Brasil. Mas esse junto só é real quando há autocrítica e capacidade de recuo.

É interessante pensar aqui o filme Corra! Ao vê-lo, ri genuinamente das situações nas quais as pessoas brancas, boas, artísticas, que fazem parte da ESQUERDA QUE APARECE, mostram-se relaxadas e tranquilas. Mas essa tranquilidade depende muito de uma docilidade para ser mantida. Sinto que o mesmo acontece aqui, no cotidiano: a perplexidade é: se estamos ao lado de vocês, do que diabos vocês estão reclamando? Fiquem quietos, porra.

Mas quando falamos de cinema, de arte, de festa, estamos falando também de transporte público, de baculejo, de segurança, de falta de dinheiro para táxi ou uber ou para aquela cerveja que todo mundo vai tomar depois que acaba uma sessão.

Do Alto José Bonifácio, a gente via o São Luiz

Um festival potente e necessário como o Janela é fundamental em uma cidade que sofre essa destruição provocada por sucessivos governos. O São Luiz foi o primeiro cinema no qual fui, criança, levada por minha prima, que tomou um ônibus no Alto José Bonifácio com mais um monte de criança. Fomos ver Breakdance, vejam só, um filme cheio de pretos. Meus vizinhos e vizinhas iam, fazíamos fila ali na Conde da Boa Vista — as filas eram bem mais heterogêneas, sem dúvida (essa aliás outra pertinente questão, dentro de um Brasil que se tornou, tecnicamente, mais heterogêneo nos últimos 15 anos). É bom estar ali: ocupar aquele cinema significa ocupar uma trincheira.

Mas um festival potente e necessário como o Janela também nos serve para pensar e repensar algumas chaves e limites de nossas falas e propostas, ainda que elas soem muito inclusivas e estejam permeadas por vontade de fazer diferente. Talvez esse diferente só seja possível quando se joga fora boa parte de um ensinamento progressista calcado em uma pedagogia branca, professoral, que desconhece problemas básicos do país. É possivelmente ela, essa lógica, que historicamente deixa fora toda uma faixa de pobreza (não só preta) que não se sente convidada a entrar em museus, exposições, mesmo gratuitos. E aqui estamos falando de cor e estamos falando de classe.

Todo museu, toda exposição, todo festival e toda festa (sim, posso escolher se quero ir ou não a uma festa, mas é fundamental que eu POSSA ESCOLHER, não que a estrutura da viração, da fudição, ESCOLHA POR MIM) deve sentir hoje o desconforto de ter em seu espaço um público majoritariamente branco em um Brasil com mais da metade da população negra e indígena.

Uma maioria minoria que é há tanto tempo tematizada, problematizada, que é salva, que traz rendimentos. Enquanto isso, ela continua vivendo esta mesma vida, esta vida que não é roteiro, montada e desmontada em alguma ilha de edição.

  • ontem, Jota Mombaça, que tem realizado uma das mais pertinentes reflexões sobre pessoas não brancas no espaço da arte, publicou o texto A COISA TÁ BRANCA . Jota fala muito do que eu gostaria de dizer — mas diz melhor. recomendo fortemente a leitura: http://www.buala.org/pt/mukanda/a-coisa-ta-branca