Perto da data de vencimento

Há cerca de dois meses, caminhava na Avenida Rosa e Silva, Recife, por volta das 18h. Voltava para casa. No cruzamento com a Rua Amélia, passava um rapaz magro, mas forte, negro, carregando no ombro uma privada marrom. Era uma pessoa realizando uma ação deslocada daquele cenário: andava na frente de um prédio luxuoso, uma loja cara de roupas e móveis infantis, um supermercado igualmente caro que te indaga “o que faz você feliz?”, uma farmácia que pousou no lugar do mais antigo casarão do bairro. Foi destruído. Diminui meu passo para olhá-lo mais. O rapaz colocou o vaso sanitário marrom no chão para descansar. Estava ofegante. Eu passei por ele e continuei meu caminho. Um pouco mais à frente, eu parei, fingi que mexia no telefone — conseguia ouvi-lo caminhando novamente, perto de mim. Quando ele passou, eu o interpelei. Dei boa noite e perguntei para onde ele ia. Ele colocou a privada marrom no chão, a expressão muito cansada. Disse que vinha da Torre e estava caminhando até Campo Grande. Uns seis quilômetros. Que estava trabalhando em uma obra em um apartamento, uma reforma em um lar no qual aquela privada não era mais necessária. O dono passou o vaso sanitário para ele, como um presente, um complemento pelo dia de trabalho. Eu comentava como era cansativo levar aquele peso todo quando ele me interrompeu. “Mas o meu problema nem é cansaço, é fome.”

Estávamos em frente ao Espinheiro Shopping, onde há uma lanchonete. Eu disse que ia comprar um sanduíche para ele. Entrei, ele sentou na calçada, a privada ficou mais à frente. De onde estávamos, víamos aquela cena desconcertante, verdadeira, sintética: um vaso sanitário usado, velho, no meio da rua, em frente a uma boutique e uma loja de sapatos com uma grande imagem de Gisele, que devolvia nosso olhar.

Gisele observava a mim, alguém triste e desconcertado que podia fazer algo mínimo, temporário, talvez ridículo, superficial, por ele.

Gisele olhava para ele, que levaria aquela privada usada até sua casa, onde passaria a servir a outra família bem diferente da anterior.

“moça, quer porção extra de picles?”
“não, obrigada.”

Eu voltei com o sanduíche e me sentei ao lado de Marcos, 26 anos. A oficina na qual ele trabalhava fechou. Estava desconfiado, mas parecia sentir-se obrigado a falar de si, a dizer que era um cara trabalhador, quase se desculpando. Eu não perguntei nada a respeito disso — minha aproximação não se deu por nenhuma questão moral. Já era constrangedor demais carregar aquele peso, aquele objeto usado, simbólico, aquele cansaço, aquela fome. Fiquei em silêncio. De repente, Marcos tirou um pacote de dentro da pequena sacola de plástico que carregava. “O que é isso aqui?”, me perguntou. Era uma embalagem um pouco fria de nhoque pré-pronto, Massaleve. “E isso é só abrir e comer?”. Eu comentei que ele precisava cozinhar um pouco antes, que podia botar um molho de tomate (“será que eu posso falar isso, será que ele pode comprar molho de tomate, será que?”). Aquele nhoque descongelando, ele me contou, também foi dado pelo dono do apartamento que estava sendo reformado.

Fiquei olhando a embalagem. Havia no canto dela um pequeno aviso: “produto perto da data de vencimento.”

Gisele, do outro lado da rua, continuava a nos observar.

Eu comentei que havia perguntado para onde ele ia para o caso de pedir um Uber, se eu podia fazer isso, se ele se importava. Não era muito até Campo Grande, de carro, no máximo uns R$ 10. Ele ficou ainda mais desconfiado. Bem, eu também ficaria.

Pedi o endereço dele para fazer um cálculo no aplicativo, ele disse que podia descer em um posto que aparecia no mapa, que era perto da casa dele, mas o carro não entraria na rua, na verdade um beco. E o beco não aparecia no mapa.

Assim foi. Quando o carro, um Celta, chegou, me identifiquei e perguntei ao motorista se podia colocar aquela privada na mala. Ele olhava para Marcos e para mim identificando alguma desconexão entre nós dois. De fato, existia, e era enorme: eu nunca precisei pedir comida na rua a ninguém.

Marcos foi embora no Uber dirigido por alguém que provavelmente está tentando também segurar o leme nesse lugar, nesse país-abismo, que todos os dias está voltando dez casas no jogo (cinquenta e um milhões de reais em espécie. cinquenta e um milhões de reais em espécie). O rapaz foi sentado na frente. No banco de trás, a privada e o pacote de nhoque, as delicatessens de um dia de trabalho. Eu voltei para casa e logo um som no celular informou que a corrida havia sido finalizada. R$ 10,50.

Fiquei pensando em Marcos e nos seus 26 anos. Em quanto tempo mais ele aguentaria trabalhar, fazer bicos, ganhar muito pouco e ser presentado com privadas e comidas que desprezamos. Em quanto Marcos poderia simplesmente tornar-se mais um dos rapazes que tememos nas ruas, os rapazes dos quais desviamos, os rapazes que nos assustam, os rapazes que usam sacos de pipoca como disfarce. Nos rapazes que logo vão entupir os presídios pernambucanos, entre os piores do Brasil. Nos rapazes que aparecem exuberantemente entre nossos mais de três mil assassinados este ano, até agora.

Em como Marcos, no final, poderia estar perto da data de vencimento.

Eu continuo pensando nele, naquela privada e no pacote de nhoque descongelando.

Ontem à noite, encontrei um rapaz que sempre está aqui na frente do prédio, revirando o lixo em busca de latas e garrafas (sabemos que isso acontece diariamente, mas não nos importamos em ao menos separar esse lixo seco e renovável para que as pessoas não precisem lidar com nossos restos, com nossa merda). Cerca de uma hora depois, desci e havia outra pessoa mexendo no mesmo lixo. Era o lixo do lixo do lixo.

Era Marcos, de novo, carregando uma privada marrom e um nhoque estragando, os restos de alguém, mas para ele feitos delicatessens.

Marcos devolvendo o olhar, sendo O Outro em meio à nossa atual resignação, já histórica.

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