Pode a subalterna outra subalterna calar?

Fabiana Moraes

Escrevo procurando alguma cura. E também rasgando minha ferida.

Agora mesmo, olho à minha frente, olho dentro de mim e também a minha pele. Olho a matemática sem fim que resulta das interseções entre origem social, raça, geografia, gênero.

Eu preciso escrever sobre minha participação em uma mesa sobre arte, transexualidade e representação, realizada dentro do projeto Todos os Gêneros, parceria Ssex Bbox e o Itaú Cultural, no dia 16/6/2017.

Desde o momento em que fui convidada, um pequeno mas potente alarme amarelo foi ativado. Sei, ao longo desses anos, que o terreno é complexo e hoje aciona uma série de questões que precisam ser discutidas para além da caixa azul de Zuckeberg. Isso é bom — e foi também por isso que aceitei estar ali. Minha função seria a de mediadora, ou seja, deveria apenas organizar os tempos das falas iniciais (15 minutos cada) de quatro pessoas transexuais e travestis (Leonarda Gluck, Lua Lucas, Renata Carvalho e Helena Vieira). Nas duas horas seguintes, eram elas e plateia, sendo meu papel cronometrar tempos para que todas tivessem espaço equânime e, se necessário, lançar uma questão lá e cá.

Aprendi, há anos, que não falo por ninguém, nem quero mais falar sobre ninguém. Eu quero falar com. Isso, é claro, se for interessante à outra — e se for permitido. Esperei, inclusive, que minha presença pudesse ser descartada caso alguma das mulheres não quisesse uma cisgênera como mediadora. As participantes da mesa foram escolhidas semanas antes da conversa e poderiam se manifestar. Mas não houve nenhuma questão a respeito.

Havia de saída um fator de desacordo entre as convidadas: o manifesto escrito por artistas transexuais e travestis pedindo por mais visibilidade e pelo fim de pessoas cisgêneras interpretando pessoas trans nas novelas, peças — nos espaços de representação, em geral. Aqui: https://www.facebook.com/RepresentatividadeTrans/

Eu concordo com o manifesto. É desonesto com estas pessoas transformá-las em eternos “laboratórios” de pesquisa.

Helena Vieira, pesquisadora das mais produtivas e de presença importante sobre o debate da travestilidade e transexualidade, colaborou com Glória Perez na novela global A Força do Querer, na qual há uma personagem que está em transição: é um homem trans. A atriz, Carol Duarte, é uma mulher cis interpretando este papel.

Se é possível fazer um resumo: Helena também concorda com o manifesto. Ao mesmo tempo, ela entende que é preciso abrir os espaços para essa visibilidade acontecer — e uma pessoa em transição em uma novela global, no horário nobre, pode ser um caminho para tal realidade começar. Particularmente, a minha questão, acompanhando o manifesto, é: até quando essa negociação vai acontecer? Como uma mulher trans que admiro bastante (Caia Coelho) colocou: visibilidade não se consegue pedindo licença. Eu aprendi por experiência própria que é importante ocupar espaços que produzem representações, mas é igualmente importante cutucar um ponto: essa ocupação tem que ser feita pelo meu corpo, minha cara e minha voz, não por alguém as instrumentalizando.

A questão serve para ser refletida com profundidade, com honestidade. E com tempo. E é claro que três horas não seriam suficientes para isso (a conversa começou às 15h e terminou às 18h).

Mas, no final, como alguém disse lá fora, na frente do Itaú, Avenida Paulista (esse nicho de branquitude e riqueza nacional) depois de tudo encerrado: “eu queria ter participado de um debate. Mas minha impressão é que vi apenas troca de balas”.

Eu entendi perfeitamente. Fazia tempo que eu não me sentia tão oprimida. E se sentir oprimida em meio a mulheres historicamente oprimidas sendo uma pessoa igualmente-historicamente oprimida é uma experiência louca: ela dói, ela ensina, ela reelabora. Perceber que há questões que se colocam a partir da presença, no mesmo espaço, de uma mulher cisgênera negra nordestina e uma mulher transgênera branca do sul/sudeste.

A pedido do evento, Helena, a única não atriz entre as quatro mulheres, deveria falar por último. Essa organização foi questionada inicialmente entre as participantes. Expliquei que Helena seria o contraponto das exposições, mudou-se a ordem de quem começaria a fala (seria Renata, mas foi Lua) e a conversa seguiu.

Lua começou sua apresentação citando Shakespeare. Falou sobre sua experiência, sua batalha, sua falta de representatividade, seu dinheiro minguado e cotidiano instável. Dado momento, disse para a plateia: “vocês vão ter que nos engolir sim.” O interessante é que essa fala pensada para um público que se pensava totalmente cisgênero também bateu em ao menos dez pessoas trans (aqui uso trans para abarcar todas as demais identidades além de travestis, mulheres e homens transexuais) que estavam ali. Depois, Renata seguiu com uma fala potente (a mais longa) e necessária. Observou que alguns termos do manifesto não cabem (como o uso de “transface”, comparado ao blackface: é importante lembrar que se uma atriz ou um ator podem representar um gênero, eles não podem fazer o mesmo quando o assunto é a cor da pele). Leonarda, concordando com as colegas, lançou uma luz, informando que havia, sim, conquistas, e que a presença delas ali, naquele espaço legitimado, era um indicativo disso. Essa luz foi amplificada por Helena, que falou sobre os problemas trazidos com a crescente corporificação do debate.

Eu havia preparado um pequeno texto que servia para embasar a primeira questão que queria lançar no debate. Trazia um incômodo antigo: onde estão as pretas e os pretos, onde está a pobreza, os lugares de classe, nos debates sobre transexualidades/travestilidades? Onde está a travesti negra das bordas desse país? Esses debates não alcançam as periferias (lembrando que periferia também pode ser centro — basta pensar a cracolândia paulista) por que?

Mostrei no texto (pedi para Leonarda cronometrar meu tempo de fala), a minha aproximação com várias mulheres transexuais e travestis a partir do momento em que iniciei as investigações sobre minha própria condição: a de mulher negra. Mostrei que no dia a dia como repórter, ao falar com meninas cis que viviam em ruas, mulheres exploradas sexualmente, mulheres silenciadas e violentadas, eu terminava me aproximando também de mulheres negras não cisgêneras. Que essa realidade eu encontraria mais tarde nas leituras teóricas, quando vi que parte do transfeminismo se pauta em autoras negras e feministas, como Angela Davis, Bell Hooks e Audre Lorde. Aliás, foi uma mulher não cisgênera que me chamou atenção para isso: Vivi Vergueiro, a quem devo parte de meu aprendizado em eterna construção. A partir daí, percebi outras micro e internas opressões, como a passabilidade (e a violência do medo de ser acusada de estar enganado alguém quando sua identidade é trans/travesti).

No texto, falei sobre Carol e Stephanie, exploradas sexualmente (a primeira cis, a segunda travesti, ambas dividindo as ruas na reportagem Casa Grande e Senzala, escrita no fim de 2013). Falei sobre o fato de Joicy ser questionada mesmo entre pessoas transexuais e travestis, por seu corpo ser percebido como “masculino” demais. Contei que isso aconteceu tanto aqui, durante o momento do tratamento, quanto em SP, quando fomos homenageadas pela associação que organiza a parada LBGT. Falei sobre Fernanda, mulher negra trans encarcerada com 99 homens em um presídio masculino aqui em Pernambuco. Falei, por fim, do maracatu rural como espaço de tensão de identidades e gêneros, como espaço de arte, e trouxe aquelas pessoas que negociam seu masculino/feminino no mundo: homens que, nas apresentações, vestem-se de damas e ostentam suas calungas. É ali que muitas vezes conseguem dar conta da identidade que gostariam de levar — mas o entorno não permite. Assim, uma vez com a permissão da festa, blindam-se. Eu tentava costurar, enfim, que a arte é um espaço de dignidade essencial para as pessoas trans, travestis — ou seja, concordava abertamente com o manifesto.

Quando terminei o texto, para minha surpresa, não aconteceu nenhuma interação. Na verdade, enquanto eu o lia, percebi um certo desconforto por parte das convidadas. Alguns cochichos, algumas levantadas da cadeira. Uma aberta e pública decisão de não ouvir o que eu falava.

No vácuo, fiz a pergunta: “o espaço da arte, no Brasil, é dedicado a um público privilegiado. Pessoas negras, pessoas pobres, geralmente sentem-se desconvidadas. Entre as pessoas transexuais e travestis não é diferente: na estreia do espetáculo A Demência dos Touros, que tem entrada gratuita para pessoas trans, em SP, a plateia era majoritariamente branca e cisgênera. Como vocês percebem esta questão?”

Leonarda passou a responder, disse que era uma realidade difícil. Que era complicado mesmo e que por isso ações como aquela, que promovem o debate entre pessoas trans nas artes, precisavam acontecer. Sim, Leonarda tem razão.

Durante a fala de Leonarda (Curitiba) e durante a minha fala (Recife), vez ou outra eu ouvia de Renata um “nossa que sotaque bonitinho” ou “nossa, tem sotaque de todo canto aqui hoje!”. Ela dividia os comentários com Lua. O sotaque de Helena não era uma questão: ela mora no Ceará, mas é de SP.

Percebi que no final não havia diferença, a partir do gênero, de meu modo de falar ser reconhecido e sublinhado como distinto. E isso, os “distintos” e “distintas”, principalmente nordestinos e nordestinas sabem, é cansativo, irritante e desnecessário. É preconceituoso, enfim. Leonarda, cuja origem geográfica é inversamente estigmatizada, pode não se importar. Eu me importo.

Aliás, um dos problemas na fala de Leonarda se localizou justamente aí, na geografia, na hora em que afirmou que “mais ações como essas precisam circular pelo país, circular por lugares como o Nordeste”. Aquilo me tocou. Lá estávamos nós, nordestinos, de novo, precisando ser salvos pelas pessoas do sul/sudeste. Antes de passar o microfone para Helena, eu disse rapidamente: “Olha, o Nordeste não precisa que o Ssex Bbox leve esta ação para lá, estamos debatendo essas questões também. Eu por exemplo dou aula em Caruaru, no interior, e lá existem grupos que discutem gênero”. Para mim, está explícito: entender que outros lugares e pessoas possuem sua capacidade própria de pensar o mundo tira de muitos o seu próprio intuito salvacionista, o seu PROTAGONISMO. Ou seja, descapitaliza quem quer ser herói ou heroína, quem “dá voz”.

Algumas pessoas aplaudiram minha quase tímida intervenção. Leonarda se corrigiu, disse “ah, que bom que lá está acontecendo isso” e afirmou que sua observação valia para todo o Brasil, inclusive para o Sul. Na minha condição de mulher cisgênera — e de mediadora — eu não deveria estender minhas falas. Assim, apenas retruquei que sim, o Sul me parece hoje a região do país que precisa bastante de um debate não só sobre transexualidade e travestilidade (as últimas eleições presidenciais mostraram o tipo de ódio ainda dirigido aos nordestinos, ódio este decantado nas redes sociais). Me incomodou muito a fala da atriz afirmando continuamente que “o brasileiro é ruim”, que “a maldade está em nosso coração”. Eu discordo. Para mim, soa quase higienista. Para mim, planifica. É raso. É a lógica do “contra tudo o que está aí.” É justamente esse essencialismo que vem reduzindo tanta gente a nada. É esse essencialismo e essa certeza de que nós não prestamos que baliza tanta violência. Inclusive a violência entre pessoas transexuais e travestis.

Sobre o texto que eu havia lido, a única interação que aconteceu veio de Renata, momentos mais tarde, quando disse: “amada, não é Parada Gay, é LGBT”. Eu havia trazido na leitura a história de três travestis encarceradas entre quase cem homens, eu havia trazido um corpo transexual não reconhecido entre as próprias pares (Joicy), eu havia falado da presença de pretas trans e cis no cotidiano do crack. Mas a única — a única — coisa pescada na minha leitura foi o “parada gay”.

O amada não era amada, isso vocês sabem. Ela estava certa, eu havia usado o termo incorreto. Pedi desculpa. A sigla, aliás, vive em constante debate, por várias pessoas trans acreditarem que ela não as visibiliza (o mesmo com lésbicas, bissexuais entre tantos outros possíveis). Há quem escreva a sigla como sendo simplesmente GGGG. Mas isso não era uma questão.

Eu estava reduzida ao erro do “parada gay”, ao meu sotaque “diferente” e “bonitinho” e, importante, à minha cisgeneridade.

Enquanto falava, Renata soltou um “denegrir as pessoas trans”. Uma parte da plateia olhou para mim — adivinhem, eram pessoas negras. Em uma pequena confusão de vozes instaurada, eu, ao microfone, disse: “Amada, denegrir é racista.”

Acho ruim, muito ruim que um debate chegue a isso, porque sei, de verdade, que não havia intenção da atriz em soar racista, como eu, é claro, sei que a parada LGBT (ou GGGG, sim) não é uma parada gay. Acho doloroso para a plateia. Acho doloroso para a questão em si, que ali já estava cruzada de balas. Acho que vira uma lavagem de roupa suja e toda uma dedicação a pegar o outro pelo pequeno delito, mas não pelo alcance do que interessante se está a falar.

Quando lancei O Nascimento de Joicy em SP, tive Daniela Andrade e Neon Cunha à mesa. Em dado momento, ambas me chamaram. “Fabiana, você usa mulher biológica no texto. Não é certo.” Eu concordei — no momento da escrita, a questão da cisgeneridade não havia me alcançado. Informei a ambas que mudaria isso em uma próxima edição. Os erros cometidos na reportagem foram mantidos e discutidos no segundo capítulo (“mudança de sexo”, por exemplo) justamente porque entendo que estamos em pleno debate e reconstrução. Faço parte disso. Sou permeada também pelos erros.

Esse pequeno exemplo do gay/denegrir nos serve para pensar como as palavras estão em disputa, como estão sendo ressignificadas e, mais ainda, como nosso processo de construção/desconstrução precisa ser feito primeiro com ouvido antes de acionarmos a cotovelada.

Em determinado momento, Helena foi criticada por ser acadêmica justamente por Lua, que começou sua participação citando Shakespeare (e cuja colega atriz, Renata, havia citado Judith Butler). “Não entendi nada do que você falou.” Isso não aconteceu apenas uma vez. O ser acadêmica surgiu como uma quase ofensa. O recado era: você tem privilégio por estar na universidade, eu não.

Ora, vejam só. Eu sou uma mulher acadêmica. Uma mulher negra acadêmica. Uma mulher negra, nordestina e acadêmica. E parecia que eu deveria, assim como Helena, assim como outras mulheres acadêmicas, mesmo transexuais, travestis, mesmo pretas, pedir desculpas por isso.

Eu jamais deixarei de torcer por essas presenças. É pela falta destas mulheres em todos os espaços — e mais ainda nos espaços do poder — que estamos tão desassistidas institucionalmente. Eu quero e eu vou ser canal (escrevendo, estando, calando, ouvindo, falando) para que muitas negras ocupem locais reservados há séculos para a branquitude. Outras já fizeram isso por mim. Eu quero que as próximas gerações sejam atendidas por mais médicas negras (eu nunca fui). Eu quero que a caixa de supermercado, mulher travesti e preta que trabalha aqui perto de minha casa e estuda em uma universidade privada, seja juíza, como é seu desejo.

Sou a primeira pessoa da minha família a entrar em uma universidade. Esse caminho mudou radicalmente a minha experiência de vida.

A vida de quem foi abusada sexualmente aos seis anos. E que conviveu e convive com uma cor de pele hiperssexualizada e que nos expõe a toda uma sorte de assédios e violências.

A vida de quem, na infância, precisou durante algum tempo mudar-se todos os meses de casa por falta de pagamento de aluguel.

De quem acordava às 4h30 da manhã na periferia de Jaboatão para ter aula às 7h em Recife e, apenas com dinheiro de passagem para um ônibus, precisava andar todos os dias durante 1h30 para ir e voltar até a sala de aula. Essa condição, somada ao cansaço de jornadas diárias de estudos, me adoeceu seriamente.

Há cerca de seis meses, por volta das 8h, esbarrei em uma mulher branca, alta, em um cruzamento perto da minha casa (vivo em um bairro de alto índice de Desenvolvimento Humano — eu e meu filho somos as únicas pessoas negras do edifício). Me voltei para ela e ela para mim. Ela disse: “Você ainda fica me encarando?” Eu respondi: “A senhora também me atropelou.” Ela retrucou: “Atropelei e vou atropelar todas as vezes que gente como você bater em mim.” Percebam a internalização: eu falei SENHORA. Pensei muito nisso. Em como meu pai, preto, me ensinou a tratar assim as “pessoas mais velhas”. Mas ela não era tão mais velha do que eu, que tenho 42 anos.

Era a voz dele que em mim ecoava obediência (trazendo aqui a minha escuta de Conceição Evaristo).

Pois: eu deveria pedir desculpas pelo meu diploma de doutorado? Jamais.

Eu precisava falar sobre essas coisas (íntimas e coletivas) para que minha presença naquela mesa fosse minimamente respeitada?

Menos ainda. Me recuso que nossa discussão seja pautada por uma espécie de mini campeonato interno de sofrimento e opressão. A essencialização de identidades não pode apartar quem deveria, junto, estar na linha de frente.

O que ficou óbvio para mim, ali, é que eu deveria estar atenta para a condição socialmente e institucionalmente instável da mulher trans, branca, do sudeste, enquanto essa mulher, no fim, diminuía o meu lugar (cis, negra, nordestina) conseguido após anos estudando enquanto trabalhava e criava sozinha um filho. Ocupo hoje um lugar de privilégio? Sim, não tenho dúvida. Toda nossa briga não é para que as pessoas, se quiserem, ocupem estes espaços? Para que elas não precisem morrer, adoecer ou enlouquecer tentando? Não estávamos ali, no espaço do privilégio, tentando falar sobre representatividade? A Globo não é um lugar de privilégio? E não era a justa reclamação de que faltava uma pessoa de fato transexual na novela das 8 (no “horário nobre”)? A mulher trans/travesti que ocupar finalmente esse lugar na novela vai ser posteriormente “acusada” de estar ali?

Mas, enfim. Eu era uma garota cis que não precisava falar. Eu era, aliás, a única garota negra presente na discussão.

As falas da mesa foram historicamente cortadas pela voz de Neon Cunha, mulher trans, negra, periférica em suas próprias palavras, que já citei aqui. Entre suas palavras iniciais: “estou muito incomodada com tanta desonestidade. Estou incomodada com o fato de o convite desta mesa não trazer a foto da mediadora. É possível falar de inclusão excluindo?”

Neon precisou lembrar que, sim, as coisas haviam mudado e não concordava com aquela fala unicamente apocalíptica. Lembrou de operações de perseguição/extermínio às populações consideradas indesejadas no Centro e outras regiões de São Paulo, que foi preciso muito sangue de trans e travestis para que aquelas mulheres, hoje, 2017, estivessem sentadas ali.

As coisas, falava Neon, não iriam mudar em um espaço curto de tempo. Ali, ela usou uma alegoria que jamais esquecerei: a das borboletas Monarca, que todos os anos migram dos Estados Unidos e do sul do Canadá até a Califórnia e as florestas de Oyamel, no México. Voam cerca de 50 quilômetros por dia. Com o ciclo de vida muito curto, elas levam de três a quatro gerações para completar o caminho.

Neon foi uma das pessoas trans, na plateia, a interagir com meu texto. A entender porque eu queria falar de travesti preta e pobre. Porque ela, assim como tantas pessoas trans que eu conheço, não vivem de close e lacre, e considero estas também formas legítimas de manifestos. Vivem, levam lapada, levam beijo, do chão do dia a dia. Foi ela que me abriu os olhos (de novo), quando falou: foi no espaço das mulheres negras que eu me senti acolhida, não entre as trans. “Ali os espelhos se abriram.” Ela desejou que entre as pessoas transexuais nascesse uma Conceição Evaristo. Eu também desejo.

No mesmo momento, eu pensei nas tantas mulheres trans e travestis que estiveram dividindo suas vozes e subjetividades comigo nos últimos anos: Alessandra, Fernanda, Stephanie, Davila, Sandriely, Marias Claras e a própria Neon. Mulheres e negras, como eu. Algumas vizinhas do morro onde nasci. Algumas dividindo espaços nos quais circulo agora. Foram poucas as mulheres de espaços privilegiados (cis, trans ou travestis) com quem pude contar durante minha vida. E poucas brancas. Cis, trans ou travestis. Naquele momento, essa verdade surgiu como um empurrão.

Estamos, estas mulheres, em nossas diferenças e especificidades, juntas. Não é um ambiente desprovido de tensão. É claro que não. Mas ele é um lugar de existência. De resistência. E esse lugar não me cospe. Me irmano, em minha diferença, a Alessandra, Fernanda, Stephanie, Davila, Sandriely, Marias Claras e a Neon. A Audre, Angela, Bell. Conceição e Maria Carolina. A Rosa, faxineira no jornal no qual trabalhei, que ia trabalhar de sombra verde no olho às 7h da manhã. Cisgênera. Depressão profunda e solidão afetiva.

Penso que o conceito de pobreza multidimensional que o economista indiano Amartya Sen criou pode ser uma boa ferramenta para analisar estes cruzamentos. Pensar que, se silenciamento e opressão se entrecruzam, privilégios também. Amartya entende a pobreza não a partir de uma ideia de renda inferior ao que é preestabelecido, mas pela privação de capacidades, pela privação de liberdades (em todas as suas combinações: liberdade política, liberdade social, liberdade econômica). A pobreza, assim, é percebida no fim como privação de uma vida que as pessoas poderiam levar. Uma menina pode morar em uma casa de classe média. Mas se todos os investimentos da casa foram potencialmente dirigidos ao menino da família, os dois enfrentam diferentes realidades de estar no mundo. E percebam: estou falando apenas de pobreza. Não estou citando neste debate o machismo, fundamental.

Isso me leva também a pensar: como identidades que podem fissurar o capitalismo (como as pessoas travestis, transexuais) podem existir em seu interior? Simples: quando ele consegue “higienizá-las” e colocá-las para falar em espaços controlados ou privilegiados. Como ali, na Avenida Paulista.

A mesa terminou, fui chamada para gravar uma fala para um doc do próprio evento. Demorei um pouco lá. Para meu alívio e felicidade, uma parte significativa da plateia estava lá fora quando saí.

Pessoas trans, travestis, brancas, pretas, não binárias. Algumas me abraçaram. Algumas agradeceram que a cor da pele e a pobreza tivessem sido inseridas no debate. Algumas perceberam que sim, em vários momentos me senti acuada e que minha condição em nenhum momento foi percebida como algo que serviria para unir, mas unicamente para separar.

Compramos algumas cervejas, também Doritos que estavam na promoção (em cinco dias, perderiam a validade) em um mercado ali perto. Em plena Paulista, fizemos uma espécie de mesa dois, desta vez com mais empatia, com close e com lacre, mas com vontade real de ouvir e ser ouvida.

Ali, não se exigia, como Adelaide Ivanova escreveu, o escutamento a partir do silenciamento da outra, mas sim por meio de uma “coreografia” nas falas.

Uma pessoa trans falou da novela. Disse que seria complicado participar de uma. “Como colocar um homem trans se tinha que ser uma personagem em transição?” É um ponto, sim. Mas para além disso sabemos que uma empresa com o poder de fogo da Globo, como também colocou Caia, poderia dar conta dessa questão facilmente (troca de ator/atriz, maquiagem, etc.) Eu disse que entendo o manifesto e que não dá mais para negociar a falta de pessoas trans e travestis nos palcos, na literatura, na mídia. Era eu, cisgênera, falando isso para uma pessoa transexual, motivo maior do manifesto.

Nada é raso.

Uma travesti me disse que se sentiu mal quando uma das meninas, acredito que Lua, falou que precisava “chupar pau” para ter dinheiro e estar ali. “Eu entendo, sabe? Mas isso nos estigmatiza mais e mais. Eu trabalho em um salão e estou aqui. Parece que todas nós só podemos viver com isso, sendo puta”. Buscando superar reducionismo, percebo o que ela coloca — apesar de saber também que prostituição continua a ser condição por falta de oportunidades para mulheres trans e travestis.

Falamos muito. Tomamos cerveja. Comemos mais Doritos perto de vencer.

Conseguíamos acionar o que também nos aproxima, e não apenas o que nos separa.

A experiência de vivermos sempre em suspeição.
A experiência de levar um corpo “branco pra casar, mulato pra fuder, preto pra trabalhar”
De não sermos levadas a sério: irracionais, explosivas, emocionais, barraqueiras.
De sermos muito fortes, logo demonstrações de carinho são menos necessárias para nós.
De termos empregos tantas vezes pouco legitimados.
De sermos as primeiras a entrar (se com alguma sorte) no mercado de trabalho — e as últimas a sair.

O que Neon falou das borboletas acontecia.

Estávamos migrando.

Era ela, me ensinando, de novo. Era ela, acolhida pelas mulheres negras, que me acolhia.

“Ninguém nasce desconstruído.” Sim. E é preciso pensar no que estamos fazendo quando reclamamos visibilidade calando alguém que se aproxima de nós. Na instauração da necessária e política polifonia, do dissenso, eu não tenho qualquer dúvida: uma subalterna precisa deixar outra subalterna falar.

(* agradeço pela construção e debate desse texto: Maria Clara de Sena, Neon Cunha, Adelaide Ivanova, Conceição Evaristo, Caia Coelho)

Aqui, uma pequena bibliografia:

Reportagens citadas no texto lido durante encontro: