Sobre a calabresa e a vida

Meu pai comemorando 81 anos.

Acabei de comer um sanduíche de calabresa com meu pai, na padaria. Isso não teria nada de mais se não fosse o fato de que, segundo os médicos, ele não viveria muito além do Natal passado.

Estamos em julho.

Lembro de quando ouvi isso pela primeira vez em agosto passado, logo depois de uma cirurgia em que os médicos não puderam fazer nada. Abriram e fecharam, que até então eu entendia como uma sentença de morte quase imediata.

Eu, como uma pessoa obcecada em entender a vida, o significado das coisas etc etc, e sendo a morte uma das partes mais interessantes da vida, mergulhei fundo nisso. No pensar na minha vida, na dele, na história da família, balanço geral.

Fiquei tomada pela ideia de aproveitar ao máximo o nosso tempo. O fato de “saber” quando ele provavelmente morreria me colocou um peso, uma obrigação de viver esse período com a maior intensidade possível, como uma última chance de entender uma parte desconhecida da história da família, dele, de mim mesma, todas as crises existenciais emergindo para serem resolvidas de forma definitiva. Afe.

E, na medida que consegui, passei muito tempo e conversei muito com meu pai. Aquela coisa de realmente falar sobre absolutamente qualquer assunto, como se não houvesse amanhã porque essa não era mais apenas uma possibilidade teórica. E falamos. Ouvi e vi dores que nem imaginava. Sonhos que nem tinha ideia. Histórias que, ouvindo adulta, fizeram outro sentido. Acompanhei os altos e baixos dele. Vi o Alzheimer espiando pelas brechas. Vi os ossos dele ficarem mais visíveis a cada dia. Foi dolorido, foi maravilhoso, foram muitos choros no elevador. Ainda é tudo isso.

Até que em um certo momento… acabou esse assunto. Não tinha mais nada de super profundo que eu tivesse vontade de conversar com meu pai, e lembro que em algum momento eu falei: “e agora, pai?” e ele “não sei”.

Daí, como adiantei, é julho e acabamos de comer um sanduíche de calabresa, falando sobre o tipo de sanduíche que as gueixas comem porque não têm tempo de almoçar. Acabamos de visitar o centro espírita em que ele trabalhou nos últimos 10 anos, e combinamos o almoço de amanhã, que é aniversário dele. Vamos em uma churrascaria com minha tia. Que assim seja. E a vida é assim, um dia depois do outro, sem a tensão da morte iminente, mas com a consciência muito clara de que ela está lá, como para todos nós. Para ele a morte não é um fantasma, é uma companheira presente de jornada.

Como é para todos nós.

Hoje, ri do fato de eu trabalhar com planejamento. Eu planejei minha vida no curto prazo assumindo que meu pai iria no máximo em março. E sim, foi muito importante organizar algumas coisas de ordem burocrática, deixar tudo meio encaminhado para estarmos todos preparados e tranquilos, mas… uma ficha caiu sutil como uma tampa de bueiro.

Eu sempre falo, nos processos: “É super legal planejar, é um processo lindo, mas no momento que o planejamento acaba, ele está pronto para ser jogado fora, porque aí… a vida acontece!”. O exercício do planejamento só é útil para a pessoa, ou a organização, se no processo ela percebe que o valor do planejar é aprender a lidar com a vida como ela é, sem perder seu centro e seu rumo, pois as tempestades e os desvios de rota são inevitáveis. Ou melhor, sem deixar de buscar seu centro o tempo todo, pois eu perdi o meu nesse caminho. Encontrei de novo e ele já era diferente, pois eu era outra.

Eu planejei e fiz um monte de coisas, esperando um resultado. Ele não aconteceu. O que aconteceu é que meu relacionamento com a morte, e consequentemente com a vida, se transformou profundamente. Pra mim tá ótimo.

Mas só agora estou entendendo quando as pessoas me falavam: “você nunca sabe o que vai acontecer”, e “não mate seu pai dentro de você antes da hora”.

Esse movimento, e ainda estou nele com todos os altos e baixos, está me fazendo compreender além do racional, que a vida é o todo dia. Aquele, aparentemente pequeno, banal, que a gente nem percebe, e é gigante. É nele que nosso verdadeiro eu se revela e evolui. Eu sei que já lemos isso na sorte dos biscoitos chineses, e eu rio toda vez que compreendo o que parece tão óbvio naquele pequeno papel.

E nesses sanduíches de calabresa, pequenos, banais, nesse caso com meu pai, que o que é conhecimento vai virando sabedoria. O racional, tão necessário mas predominante de forma desequilibrada nesse mundo, vai se transformando com tudo o que se processa na profundidade da alma.

PS. escrevi esse texto na 5a feira passada. Na 6a fomos na churrascaria no almoço, e à noite teve bolo. Hoje fui almoçar com ele e a casa estava de pernas para o ar, pois ele decidiu varrer todo o chão da sala. E assim vai.

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