Foto: InTotum

Sobre o se expressar no mundo

Hoje, a convite da InTotum, participei de uma roda de conversa sobre Comunicação com Consciência. Como toda discussão rica e viva, ela gerou reflexões tão provocadoras quanto as perguntas que se seguiram a elas, e não vou conseguir capturar essa experiência em palavras, mas sim essa reflexão mais individual à qual ela me levou.

Em um dado momento, nos questionamos sobre o cuidado com a intenção no comunicar, sobre o que se quer com a comunicação. Foi inevitável passarmos pela perspectiva mercadológica de conquistar espaço, awareness, ou outros indicadores similares que desconheço. Passamos também pela perspectiva do convite, da vontade de convidar as pessoas a conhecerem o que fazemos e como fazemos, porque é o que acreditamos que pode trazer transformação a um indivíduo, grupo ou organização. E eu com os meus botões depois pensei na perspectiva do artista: escritor, pintor, fotógrafo, aquele para quem sua expressão é uma necessidade tão natural e inevitável quanto respirar, comer e pertencer, com todo o êxtase e dor inerentes ao processo artístico.

Voltei no tempo e tentei lembrar quando comecei a escrever para alguém além da professora de redação, dos amigos com quem trocava cartas e bilhetes na adolescência.

Imediatamente, veio a imagem da minha tia. Para o mundo ocidental era Alice, para o oriental era Aiko, e para mim era a tia Aitian. “Tian” é um diminutivo carinhoso, e Aiko significa “criança do amor”. Entre muitas outras coisas, minha tia fazia o melhor arroz temperado da face da Terra, o melhor feijão, e o melhor bife à milanesa. Ela era uma cozinheira de mão cheia, e o PF dela era meu preferido. Eu pedia de presente de aniversário e em outras datas aleatórias também. Se cozinhar é um ato de amor, eu fui muito amada por ela.

Como muitas imigrantes japas do século passado, a geração dos meus avós, pais e tios, de transição entre Brasil e Japão, da roça para a cidade, não teve a vida mais fácil do mundo. Foi muita ralação, física e emocional. Eu às vezes via minha tia com o olhar distante, perdido. E logo voltava para seus afazeres, cuidando da casa, dos passarinhos, do cachorro e de sobrinhas esfomeadas.

Eu, por outro lado, fui da geração que já nasceu na cidade. Fiz faculdade, e logo comecei a trabalhar em um lugar pelo qual viajava com uma certa frequencia. Segundo minha mãe, fiz o que sempre quis. Mal sabe ela que muito disso era o que ela sempre quis, mas aos poucos também fui descobrindo o que eu queria. De qualquer forma, sabia que vivia um mundo maior que o deles, pelo menos sob a ótica geográfica e cultural. Eu queria que eles um dia se permitissem viver isso também, e também queria dizer que o trabalho deles até então tinha valido a pena, pois eu estava vivendo um mundo diferente do deles. E meu jeito de fazer isso, na época, era escrevendo. Principalmente quando viajava, que durante a maior parte da nossa vida foi um luxo inacessível, eu escrevia emails enooormes sobre tudo: desde o caminho para o aeroporto, o café da espera, todas as confusões possíveis de diferenças culturais e de idioma, comidas, pessoas, árvores e bichos, prédios, tudo. Isso chegava neles via irmã e primos, que imprimiam essas mensagens, porque a geração deles não tinha email na época.

Alguns anos depois que comecei a escrever esses emails, minha tia descobriu um câncer. Em cerca de um ano, ela se foi. Eu já era adulta e meus avós já tinha morrido, mas foi diferente. Talvez, a primeira vez que senti na alma o “nunca mais”. Aquele amor em forma daquele PF, nunca mais.

No dia do enterro, uma das irmãs dela que encontrei poucas vezes quando era criança, falou: “ela gostava tanto das suas cartas, ela esperava e ficava tão feliz”. Demorei algum tempo para me dar conta que ela estava falando daqueles emails, porque fazia anos que eu não escrevia uma carta. Sorri imaginando minha tia lendo aquelas bobagens nas madrugadas solitárias e insones em que passava assistindo TV e bordando. Minha intenção dela experimentar um mundo maior não rolou diretamente, e sei lá o que ela achava dos meus devaneios, mas… não importa.

Sem saber, naquele momento há quase 20 anos atrás, ela me deu toda a validação que precisava para me expressar no mundo da forma que fosse.

O não ser compreendida, ser julgada, sofrer preconceito - o ‘não’ em geral, já é dado. Pode vir de pessoas e lugares inesperados, mas o não é tão certo quanto a morte. O que faço entre este não e o que quero expressar é uma escolha pela vida: caótica, imperfeita, limitada, e sobre a qual o exercício do controle é uma ilusão.

Se é assim, ter clareza e sustentar a intenção da expressão, seja qual for, e vislumbrar alguns caminhos que sejam coerentes com isso, me parece o melhor que podemos fazer. Daí, o desafio é ter flexibilidade e fôlego para se adaptar ao que se revelar vivo nisso, sem cair na paralisia. Fácil.

Ufa. E isso foi só uma conversa, que puxou um fiozinho dos infinitos que existem sobre o tema em si e cada um de nós nele. Daí, como sabiamente disse a nossa amiga Luciana em outra ocasião, “a gente busca formas de praticar essa reflexão”, no caminho que é único para cada um de nós: indivíduos, grupos ou organizações.

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