Pano de prato e medo de viver

Pano de prato feito pela Vovó e pela Mamãe

Hoje de manhã dei de cara com um pano de prato especialíssimo na minha cozinha. Você deve achar que eu estou exagerando. Não estou, não. Especialíssimo é pouco. Uma obra de arte: um pano de prato com um arranjo de bom gosto composto por um barrado de crochê branco de uns 12 centímetros, muito elaborado, e por um bordado inglês imitando lindas flores coloridas. Tudo bem. Existem mesmo panos de prato muito bonitinhos, você pode estar pensando.

Você ainda não entendeu. Esse pano de prato foi feito em parceria pela minha avó, que já não está mais entre nós, e pela minha mãe. Minha avó fez o barrado. Minha mãe fez o bordado. E ele fez parte do meu enxoval antes de eu me casar. Agora você está começando a entender.

Foi uma surpresa para mim encontrar aquele objeto de beleza e valor sentimental ímpares ali, pendurado do lado da toalha de mão, entre o fogão e a pia, despretensiosamente fazendo parte do cenário comum do meu dia a dia.

Ah, não! Esse pano não é para usar, é para ficar guardado. Peguei o pano, que ainda estava limpo, dobrei nas mesmas marcas de dobra de muitos anos que estavam bem nítidas e catei um outro pano mais simples para pôr no lugar.

Quem botou este pano aqui? Preciso avisar que não é para usar.

Ao preparar o meu café, enquanto observava a água ferver, comecei a pensar na minha atitude, mais do que ligeira, de preservar o pano daquela tentativa de ser usado, de protegê-lo de experimentar seu desígnio. E foi quando me dei conta de essa atitude, justificável pelo apego e talvez pelos mesmos princípios que fazem com que tenhamos museus, tinha um quê de absurdo.

Por mais lindo que fosse e por mais que servisse de evidência dos dons artesanais das mulheres da minha família, o pano foi feito para ser usado. Nem a minha avó, nem a minha mãe jamais me pediram para não usar. Ao contrário, elas fizeram para ser colocado em uso, porque elas queriam que ele fosse visto, que enfeitasse. Era para servir à sua utilidade primordial: enxugar pratos, talheres, copos e panelas. Nesse meio tempo, embelezar a minha cozinha e angariar alguns elogios, claro.

Seu destino era proporcionar utilidade e beleza, enquanto fosse possível. Sua beleza iria se desgastar com as lavagens. Algum dia, ele seria apenas um pano velhinho e viveria seus dias finais na área de serviço, como pano de limpeza.

E foi aí que eu pensei em como essa minha ânsia de preservação não fazia mesmo muito sentido. Vou levar a coisa para o extremo. Suponha que eu guardasse o pano para sempre, o que significa até morrer. Após minha morte, meus filhos talvez quisessem seguir a mesma linha e guardassem o pano feito pela bisa e pela avó. Após a morte deles, o pano, já guardado por mais algumas décadas, seria de um dos meus netos. E quem eram mesmo essas mulheres que fizeram esse pano? Até lá, pode ser que nem seja mais costume usar pano de prato. O que a nora da minha nora vai fazer com aquilo? Não precisei ir muito longe para perceber o quanto a minha atitude era, em grande medida, desprovida de racionalidade.

Mais do que isso. A minha atitude é uma metáfora de como, muitas vezes, nos preservamos de viver a vida em toda a sua plenitude e potencial.

Fomos feitos para experimentar a vida, com altos e baixos, com vitórias e derrotas, com emoções e dores. Essa é a nossa utilidade: experimentar para saber como é viver. E, no caminho, vamos embelezando a própria vida, com a sabedoria que adquirimos, com o amor que espalhamos, com a alegria que conseguimos trazer para os outros. Sabemos que vamos nos desgastar no processo, que vamos nos sujar, que estamos correndo o risco de secar louça que não foi bem lavada. Estamos de passagem, assim como o pano de prato.

Tememos um desgaste que é inerente a isso tudo. Temos medo de nos atirar para a vida e experimentá-la de verdade: medo da dor, medo das perdas, medo da rejeição, medo de falar bobagem, medo da crítica, medo do conflito, medo do próprio medo, medo de viver.

E nos guardamos numa gaveta, esperando que lembremos de, algum dia, aproveitar a vida. Talvez quando as visitas vierem.

Mas sabe de uma coisa? O meu paninho querido já está amarelando. Ele está se desgastando mesmo sem ter “vivido” de verdade. Já não é mais o mesmo. Já foi transformado. Experimentou uma vida chata até agora e está envelhecendo do mesmo jeito.

Pensando bem, vou colocá-lo de volta lá, penduradinho.

E vou viver minha vida apesar do medo.

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Um dia, há algum tempo, descobri que a vida tinha começado e ninguém tinha me avisado... Hoje ajudo quem quer mais da vida e não está conseguindo acessar esse “mais” sozinho. Se desejar conhecer sobre o que eu faço, vou ficar honrada com a sua visita. http://fabianasantos.com.br.

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