Peixe fora d’água, fé e gratidão

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia”. Às vezes, é muito difícil entender, de forma plena, o contexto do que nos acontece. Só conseguimos compreender as experiências do nosso próprio ponto de vista, e há momentos em que, embora possamos notar algumas relações entre os eventos, não podemos conhecer todas as relações.

Hoje de manhã, caminhava pela praia, quando uma onda forte subiu do mar, com toda a sua potência, e deslizou de volta, deixando na areia, a mais ou menos 20 metros de onde eu estava, um peixe do tamanho de uma régua escolar dessas comuns, das maiorzinhas.

O bichinho ficou agonizando longe da água enquanto eu ia na sua direção pensando se deveria jogá-lo de volta no mar ou se, em muito pouco tempo, outra onda viria para resgatá-lo, dando uma solução menos traumática para o seu azar.

Um senhor, que também fazia sua caminhada, vinha pela direção oposta e não tinha avistado o peixe se batendo na areia em desespero. Era para mim que ele olhava, aguardando o momento de me cumprimentar, como fazem, em geral, os bem-humorados que compartilham um cenário deslumbrante. Quando me disse “bom dia!”, eu, em meio à minha dúvida sobre socorrer logo o peixe ou esperar um pouco mais, retribuí, sem pensar, com a frase “olha o peixe!”, apontando para onde o sofredor estava.

O homem, mais do que depressa, catou o bichinho pela cauda e o arremessou de volta para o mar. Observei a altura e a distância que a vítima-voadora percorreu no ar e fiquei pensando que a pancada na água não deve ter sido agradável.

Bem, ele foi salvo! Imagino que a queda n’água não foi suficientemente forte para matá-lo!

E aí a minha imaginação voou! Fiquei pensando no que teria sido aquela experiência para o peixe. Estava lá, nadando, vai ver que estava procurando sua comidinha e, de repente: “não consigo respirar!”. Sem saber o que estava acontecendo, sufocando na areia dura, quanto mais tenta encontrar seu oxigênio dissolvido na água, mais cansado fica, sem nenhum resultado…

Quando pensa em desistir, eis que sente uma forte e dolorosa pressão na sua nadadeira, como se ela fosse ser arrancada, e sente a sua barriga se revirar ao dar piruetas com mar em cima, mar em baixo, até que uma pancada o deixa tonto e ele, perdido, se vê respirando novamente. Se soubesse falar, o peixe teria dito “anotaram a placa?”. Todo dolorido, ele sai nadando como pode. Jamais será capaz de explicar o que aconteceu para outro peixe…

Fui mais longe! Pensei que esta praia é cheia de pescadores e que o peixe foi encontrado justamente por dois cuidadosos caminhantes, uma que o viu e outro que o acudiu rápido. Ele não teria sido poupado se os pescadores o achassem naquele momento. Ontem mesmo, vi um igualzinho a ele num balde de pescadores, dividindo seu espaço com um polvo morto.

Continuei minha caminhada e, para alimentar mais ainda as minhas especulações, encontrei um peixe morto na areia. De novo: era igualzinho ao meu sofredor.

Que bicho de sorte! Poderia ter sido capturado e morrido em desespero. Ou poderia apenas ter morrido em desespero. No entanto, ele não tem a menor ideia que escapou ileso (espero!) do seu acidente.

Fiquei pensando que ali estava uma metáfora muito interessante sobre as coisas que se passam com a gente.

Quantas vezes já não devemos ter levado pancadas que salvaram nossa pele? A vida dá pancadas que nos deixam atordoados e sem rumo. Alguns anos depois, até reconhecemos os males que vieram para o bem, mas isso leva tempo, normalmente.

Quantas não são as experiências em que saímos tontos, doídos, porém mais fortes, ainda que não saibamos ao certo onde é o norte? Será que conseguimos mapear exatamente o que aconteceu?

E será que, quando nos sentimos maltratados pela vida, não estamos, na verdade, dando uma sorte danada e nem sabemos, como foi o caso do peixe?

Isso só me faz pensar em como é importante confiar na vida. Muitos dizem que é fácil perder a fé, mas é muito mais difícil viver sem ela. É duro experimentar a vida deliberadamente desconsiderando a possibilidade de estarmos intrinsecamente conectados a tudo que nos cerca. E que essa conexão se fundamenta no bem e no amor.

E quais seriam as outras opções? Não temos acesso a todas as informações e desconhecemos a maior parte das variáveis que nos envolvem. Entretanto, com frequência nos deparamos e somos impactados por conexões que não tínhamos imaginado. Podemos supor que as coisas acontecem da melhor forma possível. Podemos, ao contrário, supor que os eventos nos desfavorecem. Podemos supor que tudo acontece ao acaso. De qualquer maneira, estaremos sempre supondo, não temos como ter certeza! A fé é uma escolha.

Resta a coragem de agradecer por estarmos vivos, pelo menos! Não sabemos bem como chegamos até aqui, de quantas tragédias escapamos…

Se não temos todos os elementos para julgar as situações, é sempre possível encontrar algo para se sentir grato a Deus, ao universo, à energia cósmica, à vida, à evolução das espécies, ao que quer que você acredite ser a sua ligação com o que é maior do que nós.

A recompensa? A gratidão eleva o nosso espírito! E se você estiver me achando muito mística, vamos pelo outro lado. A gratidão torna o nosso estado emocional mais positivo. Ao entrarmos numa vibe positiva, ficamos mais propensos à aprendizagem, à associação de ideias, à criatividade e ao melhor discernimento. É o que vem dizendo a Ciência. Mas a fé já disse antes.


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