Carta a uma alma

Fabiana Cabral

“Repetia: — ‘Tudo nascendo!’ — essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança”. (Guimarães Rosa)

Souvenirs — Fragonard

Meu caro e estimado amigo, depois de tanto tempo escrevo esta pequena carta. A verdade é que penso constantemente em você. Pergunto-me como tem passado e o que tem feito por esses cantos de nosso grande País. Faz tanto tempo que não recebo qualquer notícia sua! É certo que já nem pensa em mim, porém meus dias têm sido inquietos de alma e tediosos de coração, tanto que precisei te endereçar essas insignificantes palavras.

Ando lendo alguns livros. Fazia tempo que não conseguia reservar um pouco de tempo para este prazer de sonhadores. Sim, sonhadores! Acredito que livros são para aqueles que sonham e se deixam atormentar por histórias alheias. Olha… Nem sei por que te escrevo. Talvez esse ato não passe de alguma bobagem desta minha vida que perece dia após dia…

Meu querido, sinto sua falta como as gramas da cidade que habito sentem da chuva, pois aqui não chove há muito e o sol já machuca os frutos que nos oferece a mãe Terra. Meus olhos já anseiam o dia em que poderão se deleitar com a simples presença de sua imagem, apesar de agora dever contentar-me com minhas mãos, que tomam o lugar de meus lábios sedentos de te falar tantas coisas! Essas mãos escrevem desabafos sem conselhos, contam histórias sem risos ou enternecimentos, exprimem dúvidas distantes de alguma resposta. Esta vida que perece, aqui com este papel, fica apenas a ansiar, diante dessas folhagens e desses pássaros, o dia em que uma resposta chegará.

Você bem sabe que estou habituada a escrever as histórias que permeiam minha mente sonhadora, e bem sabe, também, que não possuo qualquer estilo literário. Mas quem precisa de estilo quando se escreve a um amigo querido? Vou lhe contar o que nunca tive coragem de descrever em primeira pessoa, e, do fundo do meu coração, espero que perdoe minha falta de senso e discernimento das coisas. Compreendo que só falo bobagens, sendo assim, peço que perdoe esta minha conhecida afetação, pois não sou detentora de palavras bonitas. Aqui narro meu mais amargurado sentimento, aquele que tenho guardado durante esses meses em meu íntimo, sem possuir coragem alguma de compartilhar com outrem. Acrescento, também, linhas e mais linhas de coisas não ditas, pois, meu caro, as pessoas são feitas de coisas não ditas, palavras que gostariam de serem expostas e que se repetem em seu consciente, ou, talvez, inconsciente. Diga-me você, já que sabe melhor sobre tais coisas.

Eis meu relato…

Outro dia, enquanto passeava por uma pequena praça nesta cidade, conheci uma pequena garotinha, daquelas de dar vontade de levar para casa de tão sapeca e ligeira que já se mostrava. Você sabe que não sou inclinada para agir de boa vontade para com os pequenos, no entanto ela me causou uma ternura tão admirável que fiquei ali, em plena praça, a gastar meu tempo jogando conversa fora. Seu nome, eu não me recordo, mas a impressão fora tamanha e seu encorajamento era tão forte que aqui estou escrevendo.

A garota era morena, talvez fosse indígena, porque aqui tem muitos índios não sei se sabe, seus olhos eram tão brilhantes quanto o rio Paraná em pleno dia limpo, seu sorriso era branco como a nuvem, sua pequenez de pessoa era tamanha que se podia carregá-la por quilômetros sem senti-la no colo, e sua mente estava repleta de questionamentos tão profundos que me fazia questionar a real idade de sua alma. Contou-me que seus pais há muito a abandonaram. Desde então, tentava sobreviver sozinha e passava muito de seu tempo a observar os transeuntes das ruas em que ficava. Seus pequenos olhos se depararam desde cedo com os mais diversos tipos de sofrimentos, mas sua atenção virou-se para aquele que tantos poetas tentaram esclarecer, que tantos músicos ousam ainda hoje cantar e pelo qual todas as pessoas continuam a sofrer uma e outra vez. Ela disse com enorme franqueza:

— ­­­ Ah, o amor! Você deve saber do que falo, porque todos sabem tão bem quando falo sobre esse tema. Verifico, desde já, que este é um assunto de grande pesar para as pessoas, mas pergunto-me por que insistem tanto nesse ponto. O amor, minha desconhecida, — pois estranhamente era assim mesmo que falava e que se referia a mim — é a doença que escolhemos viver. Perceba, combatemos todos os outros tipos de doenças até encontrar a sua cura, decidimos constantemente viver sem nenhuma delas e lutamos para isso, mas o amor… O que o amor faz com as pessoas as perturba, machuca e as faz sucumbir e entristecer. Mas elas continuam a buscar esse maldito sentimento, e tal como uma droga, percebo eu, viciam-se e buscam mais e mais, mesmo que se desiludam, mesmo que seus corações pesem e jurem nunca mais amar, em alguns meses lá estão sofrendo por quererem um novo alguém ou desejar que o antigo volte. Conte-me, minha senhora, qual seu sentimento? Pelo o que sofre? Por quem já sofreu?

No começo, não dei vasão alguma para seus questionamentos e reflexões acerca do amor. Enquanto meus ouvidos atentavam-se para as palavras que saíam de sua boca, fiquei a pensar o que é que uma menininha havia de saber sobre o amor? Era uma sabichona. Sim, era isso que era! Infelizmente passei a contar-lhe de meus infortúnios amorosos, apesar de o meu objetivo de início ser mostrar-lhe o quão errada estava, que nada sabia sobre aquele tema e que nada podia falar. No entanto, cada palavra que saía de minha boca confirmava exatamente o que ela dizia. Sabe que simples frase soltou ao término de minha anedota?

— Cara senhora, o motivo pelo qual insiste nesse sofrimento é causa desconhecida de todos os seres.

Merda! Tentei de todos os modos responder. Ela era uma menina astuta e virtuosa desde cedo, mas por algum orgulho, talvez de gente mais velha, em meu íntimo eu sabia que precisava responder. Sem me deixar terminar nem uma vaga resposta, ela foi falando:

— Você espera encontrar o quê? Pois saiba que todos esperam algo dos outros, quando na verdade é tudo muito simples. Basta ser sincero para superar tudo, eis no que acredito convicta! Alguém me disse que “a gente não vê quando o vento se acaba”, então deixa… deixa…

Ao ouvir aquela virtuosa fala, pois como eu disse a pequena é assim mesmo, meu coração bateu tanto que senti como se ele fosse saltar-me à boca. Voltei para casa e, numa tentativa de elaborar todo o estranho acontecimento, agora te escrevo esta pequena carta. Meus pensamentos estão tomados pela pergunta “você espera encontrar o quê?”, e ao mesmo tempo repete-se vagarosamente: “basta ser sincero para superar tudo.” Como se todos os sentimentos pudessem ser resolvidos com esse simples pensamento! Ela era apenas uma criança, caramba! E o que pode uma criança saber das dores mundanas?

Por que escrevo isso tudo afinal? Por que decidi, após tão grandiosa conversa, te escrever? Fico pensando agora em quantas pessoas deixei partir apenas por não ter sido capaz de cometer loucuras, de expressar um imenso desejo de estar junto. O amor não se trata apenas de paixões amorosas, não é mesmo? Eu espero dos que amo as mesmas coisas que não tenho coragem de exprimir. Sabe o que desejo das pessoas? Desejo da pessoa amada uma única flor, alguma palavra de enternecimento, desejo que ela queira estar comigo independente das barreiras que possam existir. Desejo do amigo que me é caro um ombro para chorar, um ouvido que se disponha a ouvir, uma amizade sem julgamento. O que quero da humanidade para poder amá-la? Que possa expressar apenas os bons sentimentos, sim, porque todos possuem essas benéficas sensações, todo ser humano é capaz de amar, e o que eu quero é que todos consigam pôr à mostra tudo isso!

Ah, você bem sabe que não sou uma pessoa que tem por tendência comemorar o Natal. Agora já tarde e vejo todos festejarem e juntarem-se à sua família, mas aqui fico com meus tormentos a pensar no amor. Meu amigo, não sei se sabe ou reconhece, mas em meu coração está gravada a sua imagem com maravilhosa ternura, e confesso que já te amo com todo o meu coração. Essa pequena menina me disse que na verdade tudo é muito simples, pois basta ser sincero, e, mesmo que não tenha aceitado isso como real, de algum modo sinto que aqui, com toda a sinceridade, dou a ver tudo o que tenho guardado no peito. Quero poder me aproximar de você e poder amar quem for para amar com ternura, poder amá-lo com a delicadeza de um amigo, com a paixão de uma pessoa amada. Desde já quero conhecê-lo, porque nosso encontro foi fugaz e o conheço tão pouco, não é mesmo? Percebo agora, e quão tarde fui perceber isso, que deixei muito da vida passar esperando atitudes das pessoas queridas quando bastava que eu colocasse tudo na mesa. Minha alma é repleta de amarguras e arrependimentos, pois aceitei que passassem sem que eu pudesse ao menos o quanto me eram importantes. Minha vida perece, cada dia que passa sei que estou mais próxima da morte, e não há tempo a perder, não há tempo! Agora mesmo, apesar da hora, apesar do dia, é o momento de dizer o que sinto. Perdoe-me meu estilo pouco apurado, minhas palavras nada sensatas, mas não quero que se assuste, pois só desejo te conhecer, afinal, “a gente não vê quando o vento se acaba…”

Dourados, 24 de dezembro

Sua eterna e constante,

Maria

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