O esquecido padre baloeiro

Ontem à noite sonhei com a figura do bom pastor voador. Na permanente luta do bem contra o mal, colocando-me como verdadeira cruzada do criador, percebi a sua incompreensão para com o heroico gesto do bondoso padre.

Nada mais razoável do que alguém, guiado pela fé, prender-se a um milhar de balões coloridos e desafiar a lei da gravidade. O irresignado cura quis com o seu desprendimento revelar a todos nós como são mentirosos os desenhos animados e as revistas em quadrinhos.

Quem de nós não guarda no mais remoto recanto da mente a figura do valente Mickey ultrapassando barreiras sob a força das bolas coloridas, no encalço dos terríveis Irmãos Metralha?

Estão todos enganados, pois prestou o bondoso pastor um indelével serviço à causa da humanidade.

Outros padres, inspirados no seu exemplo, poderão revelar algumas outras inverdades.

Por que não pular de um edifício com o auxílio de um guarda-chuvas?

Por que não tentar subir aos céus no ramo de um pé-de-feijão plantado em um algodão úmido?

Por que não ser amassado por um caminhão e, após ficar como uma folha de papel, recuperar o estado anterior?

Por que não ser lançado por um canhão?

Por que não ser alvejado por tiros e beber água para parecer um chafariz?

São mentiras que a Santa Igreja deve desmascarar na sua indelegável missão na terra.

Há no citado episódio um detalhe que a todos passou despercebido. O destemido representante do arquiteto universal, ao sentir-se em dificuldades, recorreu a terra. Suplicou pelo socorro de um homem da marinha, clamando por orientação sobre o funcionamento do GPS.

Ora, tal atitude atiçou o pai eterno, pois errou grosseiramente de interlocutor. Na sua exuberante justiça, aplicou-lhe o mestre reprimenda necessária.

Vejam você, as consequências não pertencem ao reino do chifrudo, do amaldiçoado peludo, do mestre das trevas, mas ao nosso pai eterno.