café com pão café com pão café com pão: virge maria que foi isso feminista?
em sao paulo a gente chama de padoca. no rio a gente nao chama nao, a gente espera sonolenta e ansiosa ela abrir as portas, toda nossa esperança depositada no cheiro de café e pão fresco para o dia valer a pena.

7 da manhã na padaria, e eu só queria café com pão. Mas a funcionária querida que me atende sempre, puxando papo, vira e me diz: ‘a dilma surtou, cê viu?’

e eu: ‘é o mesmo que você já ouviu várias vezes quando estão fazendo merda contigo e você reage, né? que você surtou, que você é louca’.

ela corta meu pão e passa manteiga: ‘você acha que nao aconteceu nao? disseram que ela bateu cabeça na parede, quebrou todo o escritório’

eu olho para o tartufo amarrado na porta, pra ver se ele ta bem, pelo jeito eu vou demorar mais do que eu pensava: ‘quantas vezes você tava certa mas foi chamada de louca, surtada? mas quando era com um homem, ele era chamado de pessoa forte, de fibra, de opinião?’

‘é, muitas vezes’, me trazendo o café com leite.

‘e quantas vezes quiseram que você parasse de fazer o que você tava fazendo, você sabendo que tava certa, que você tava no seu direito, mas ai nao gostavam do que você ta fazendo, do jeito que você tava fazendo…daí quantas vezes te chamaram de teimosa? mas, se fosse um homem, ele era chamado de persistente, de lutador?

‘nossa, todo dia’

‘e aí, lembrando de tudo isso, você acha que a gente deve acreditar de cara que ‘a dilma surtou’ mesmo? ou a gente deve achar que é mais uma fofoca de gente machista que, ao invés de criticar ela pelo trabalho que ela tá fazendo ou nao tá fazendo, vai lá e diminui ela porque ela é mulher, dizendo que ‘tá surtada’?’

os homens todos do balcão da padaria em silencio, esperando o veredito dela. e ela: ‘é isso, né, mulher é desrespeitada em qualquer profissão.’

‘sim, o tempo todo. mas eu te respeito pra caramba, viu? obrigada pelo atendimento e pela conversa, tudo delicioso.’

Não há café da manhã na luta contra o machismo. 
Mas quando há, estamos juntas.

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